Vale retorna com as obras de alteamento da barragem Itabiruçu sem detalhar os motivos da paralisação

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Depois de assustar moradores de bairros que estão na rota da lama de rejeitos, em caso de colapso da estrutura, com um comunicado distribuído à imprensa na noite de sábado (27), informando que as obras na barragem Itabiruçu haviam sido paralisadas, a Vale diz que retorna, nesta quinta-feira (01), com o alteamento da estrutura.

Em nota distribuída à imprensa, novamente a mineradora não explica em detalhes os motivos que levaram à paralisação. Apenas diz que uma “equipe técnica do projeto segue com estudos e análises mais aprofundadas sobre os assentamentos diferencias identificados no terreno”.

Diz ainda que, com o retorno das obras, inicialmente somente serão realizadas atividades complementares ao alteamento, a exemplo da construção de aterro de impermeabilização do talude e a complementação da instalação dos filtros.

Obras de alteamento da barragem estão sendo realizadas abaixo da atual estrutura, que também foi elevada para o atual nível pelo método a jusante (Fotos: Carlos Cruz)

Embora ressalte que as obras de alteamento não alteraram os índices de segurança e estabilidade da barragem, construída pelo método a jusante, considerado mais seguro, faltou detalhar os motivos que levaram o responsável técnico pela execução dos serviços a recomendar a paralisação.

Aumentou assim a suspeita de muitos moradores que temem que o alteamento possa levar instabilidade à estrutura. A empresa assegura que não, alegando que a estrutura da barragem será reforçada com as obras de alteamento.

Mas problemas técnicos, por menores que sejam, reforçam o sentimento de insegurança dos moradores. Daí que a empresa precisa deixar claro, se é que quer tranquilizar os moradores vizinhos e que estão na mancha do “salve-se quem puder”, que não basta apenas prestar declarações evasivas sobre o ocorrido.

Ou que tem realizado “o monitoramento integral da estrutura, que teve sua Declaração de Condição de Estabilidade (DCE) renovada em 30 de março deste ano”.

É muito pouco depois do susto que resultou do comunicado da paralisação das obras no sábado à noite. Falta até aqui prestar informaçõees detalhadas do que de fato ocorreu.

Placas de sinalização foram instaladas na Ribeira, mas sem treinamento de moradores para o autossalvamento em caso de ruptura

Sem transparência

O alteamento dessa barragem, que irá elevar a sua cota de 835 metros para 850 metros em relação ao nível do mar, teve anuência da Prefeitura, via Conselho Municipal de Meio Ambiente, mas sem que fosse promovida uma Audiência Pública em Itabira, como prevê a legislação.

Apenas foi realizada uma reunião pública, sem força legal, promovida pela Superintendência de Projetos Prioritários (Supri), por solicitação da Câmara Municipal, no dia 28 de junho do ano passado. A reunião foi interrompida sem que todas as dúvidas dos moradores presentes fossem esclarecidas. Leia aqui.

Meses depois, em 30 de outubro, os conselheiros do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam), após receber parecer favorável da mesma Supri, aprovaram mais um alteamento da barragem, que será o último de uma série de elevação da altura de seu barramento. Leia mais aqui.

Com o alteamento, Itabiruçu, que já dispõe de 130,9 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério, poderá armazenar 222,8 milhões de metros cúbicos – e se tornará a maior barragem de rejeitos de minério de ferro do país.

Susto na vizinhança

Ronei Silva, morador da Ribeira de Cima, cobra mais transparência da Vale

Após a paralisação das obras, sem que a Vale comunicasse diretamente aos moradores vizinhos, muitos ficaram assustados, sem saber se permaneciam ou se deveriam abandonar as suas residências, dirigindo-se para local mais seguro. Foi o que ocorreu com moradores da Ribeira de Cima. Leia aqui.

“Fiquei sabendo pela internet que a Vale havia dispensado os trabalhadores e que a obra tinha sido paralisada por apresentar problemas na construção. Quem já estava com medo, entrou em pânico”, contou o morador Ronei Machado da Silva, 29 anos, representante comercial.

Segundo ele, a maioria dos moradores do bairro é idosa. Ele lamenta que até hoje não tenha ocorrido o treinamento simulado de autossalvamento para o caso de rompimento da barragem.

“Quando a sirene foi acionada por engano, ocorreu um pânico geral. Minha sogra mora na parte mais baixa e teve que subir correndo morro acima e não sei se chegaria a tempo (de se salvar) caso a lama estivesse realmente descendo.”

As sirenes instaladas pela Vale foram acionadas no dia 28 de julho do ano passado, sem que ocorresse alteração do nível de segurança das 15 estruturas de contenção de rejeitos existentes ao redor da cidade. A empresa simplesmente informou que ocorrera um “erro técnico” no acionamento das sirenes.

Simulados

O morador critica a demora e os sucessivos adiamentos do treinamento simulado com moradores, previsto no Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração (PABM). Esse treinamento já foi adiado três vezes – e agora está agendado para o dia 17 de agosto.

Para o vereador André Viana (Podemos), a realização desse simulado está atrasada em mais de 19 anos, desde que foi aprovada, em maio de 2000, a Licença de Operação Corretiva (LOC) das minas de Itabira. “É uma negligência da empresa e um absurdo que esse treinamento ainda não tenha sido realizado”, cobra o vereador, que é também presidente do sindicato Metabase.

O vereador disse ainda na tribuna da Câmara que a empresa deve considerar e atender o que dispõe a condicionante 46 da mesma (LOC). É a condicionante que prescreve a remoção de moradores sempre que algum empreendimento representar riscos às famílias.

Moradores vizinhos às barragens da Vale também cobram o cumprimento dessa condicionante, reivindicação que sai fortalecida depois que a própria empresa admite que haja problemas, ainda não inteiramente esclarecidos, nas obras de alteamento da barragem Itabiruçu.

 

 

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