Vale projeta investir R$ 11 bilhões em processamento a seco, mas complexo de Itabira ainda não está incluído pelo baixo teor de ferro

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A mineradora Vale informa que já investiu R$ 66 bilhões nos últimos dez anos para instalar e ampliar o uso do processamento de minério de ferro a seco, ou com umidade natural, em suas unidades produtivas existentes no país. O novo processo produtivo dispensa a disposição do material não aproveitado economicamente em barragens.

O método é uma das alternativas para acabar com a disposição de rejeitos em estruturas que não são seguras, que colocam em risco a vida das populações residentes a jusante, como também para o meio ambiente. É o que foi tragicamente comprovado com o rompimento de barragens nos municípios de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais.

Para os próximos cinco anos, a empresa anuncia que irá investir mais cerca de R$ 11 bilhões no incremento da produção a seco. Atualmente, informa a mineradora, 60% de sua produção no país já é realizada por essa nova rota de processo. A meta é chegar a 70% até 2023.

Alta produção

As Minas do Meio, exauridas, receberão rejeitos das usinas, mas é preciso assegurar o acesso aos aquíferos para o futuro sustentável de Itabira (Fotos: Carlos Cruz). Na foto em destaque, complexo S11D, em Carajás (foto: Ricardo Teles/Vale)

Entretanto, para os próximos anos não está previsto investir para que esse novo processo seja empregado no complexo de Itabira, que atualmente processa o itabirito compacto, minério com teor de ferro em torno de 40% .

Para o aproveitamento desse material, a mineradora investiu mais de R$ 7 bilhões na construção de uma nova planta e na adequação das antigas usinas Conceição e Cauê. Essas usinas passaram a concentrar o itabirito duro para produzir pellet-feed (pelotas) de alta qualidade.

Descomissionamentos

Mas mesmo com as dificuldades, a empresa terá de correr contra o tempo para viabilizar essa, ou outra modalidade de processamento em Itabira. Isso mesmo que tenha à disposição grandes áreas de cavas exauridas (Minas do Meio e Cauê) para disposição desse material não aproveitado.

Isso porque, de acordo com resolução da Agência Nacional de Mineração (ANM), e que foi reforçada por outra norma do Ministério do Trabalho, nenhuma estrutura de contenção poderá ser mantida acima de estruturas que tenham operários trabalhando. O prazo para retirar essas estruturas, ou descomissionar as barragens existentes nessas condições, se encerra em 2023.

É o caso, por exemplo, da barragem Conceição (Zé Cabrito), que fica a montante das usinas, britagem, sala de controle, escritório, restaurante e oficina centralizada. E é também ameaça que assusta a população vizinha, principalmente os moradores dos bairros Conceição e Vila Técnica Conceição, que são os mais próximos dessa estrutura.

E mesmo a opção de dispor esse material em cavas exauridas é restrita, pelo volume produzido. Além disso, há que se considerar, ainda, que a barragem do Pontal já se encontra em processo iminente de descomissionamento (fechamento com medidas ambientais mitigadoras), o que já demanda novas áreas para disposição. Atualmente, a alternativa é dispor o material proveniente da usina na cava Cauê.

Cuidados necessários

Para o futuro próximo, a empresa planeja buscar minérios de outras localidades, principalmente de Conceição do Mato Dentro, para concentrar em suas plantas revitalizadas no complexo de Itabira.

Juntamente com o itabirito virá sílica (areia), que terá de ser disposta de maneira segura nas cavas. Ou então viabilizar também para o complexo local a tecnologia de concentração a seco, sem gerar rejeitos. Até lá, a expectativa é para que essa alternativa seja também viabilizada para minérios com baixo teor de ferro.

Além disso, com a disposição de rejeitos nas cavas exauridas em Itabira, a empresa terá de cuidar para proteger e assegurar o acesso à água dos aquíferos. Eles são os “legados” prometidos para o abastecimento da população itabirana, mesmo que a Prefeitura venha fazer a transposição de água do rio Tanque.

Se isso não for viável, que a empresa pague por esse investimento da transposição, uma vez que a mineração monopoliza os recursos hídricos existentes nas minas e na cabeceira da cidade.

Dificuldades

Outra dificuldade para o processamento de minérios mais pobre a seco, como é no caso das minas de Itabira, é a escala elevada de produção. Atualmente, a Vale produz no município acima de 40 milhões de toneladas anuais (Mta). E pode atingir a capacidade máxima de 50 Mta já a partir deste ano, em decorrência da necessidade de compensar parte da queda de produção ocorrida com o fechamento de outras minas em Minas Gerais.

Quintiliano Guerra, da Vale, vê para o futuro beneficiamento a úmido com disposição de rejeito a seco. Outra alternativa está na concentração magnética

“Vamos ter no futuro em Itabira um beneficiamento a úmido, mas com disposição a seco em pilhas, que depois serão revegetadas com espécies nativas. Esse é o futuro de nossa mineração em Minas Gerais.”

Foi o que disse o engenheiro Quintiliano Fernandes Guerra, gerente de Geotécnica e Hidrogeologia da mineradora, em recente palestra no auditório da Funcesi, na abertura da Semana Municipal do Trabalhador, promovida pelo sindicato Metabase (leia mais aqui).

A dificuldade, salientou o gerente da Vale, ainda tem sido descobrir qual é o melhor equipamento para retirar a água do rejeito em larga escala. “Essa técnica é relativamente nova e só teve início após o rompimento da barragem de Mariana.”

Segundo Quintiliano Guerra, já estão sendo testados vários equipamentos para esse fim, de acordo com a granulometria e a escala de produção. Ele citou as prensas horizontais e verticais, com as quais os rejeitos são espremidos como se fosse numa sanfona. “A água sai pelas telas, retornando para o meio ambiente. E o rejeito seco é disposto em pilhas”, explicou.

Tecnologia a seco já é empregada pela Vale em Carajás e em plantas menores em Minas Gerais

O processamento a umidade natural é usado nas minas de Carajás, Serra Leste e no Complexo S11D, no Pará. E também em outras plantas industriais em Minas Gerais, com escala de produção menor – e que dispõem de minérios com maior teor de ferro.

No Sistema Norte, onde o teor de ferro é superior a 64%, cerca de 80% da produção de Carajás, próxima de 200 Mta, já é realizada por esse processo. E a usina 1 já se encontra em fase de transição, com conversão para a umidade natural. Atualmente, das 17 linhas de processamento da planta, 11 já são com processamento a seco. E as seis linhas a úmido restantes serão convertidas até 2022.

No complexo S11D, recentemente inaugurado, o uso da rota de processamento com umidade natural permite reduzir em 93% o consumo de água em relação ao método até recentemente empregado. “A economia de água equivale ao abastecimento anual de uma cidade de 400 mil habitantes”, propagandeia a mineradora como outra vantagem adicional.

Em Minas Gerais, o processamento a seco foi ampliado de 20%, em 2016, para 32%, em 2018. Hoje, esse tipo de processamento está presente em diversas unidades, como Brucutu, Alegria, Fábrica Nova, Fazendão, Abóboras, Mutuca, Pico e Fábrica.

Para os próximos anos, o objetivo é empregar esse mesmo modelo em outras localidades de Minas Gerais. São candidatos os projetos Apolo e Capanema, que atualmente se encontram em fase de licenciamento ambiental.

 Como funciona o empilhamento a seco

A blindagem (mistura) do produto a umidade natural não elimina a necessidade de concentração a úmido dos itabiritos de baixo teor, usados na produção de pelotas (pellet-feed).

Entretanto, para reduzir a utilização de barragens em Minas Gerais, a Vale estuda investir, entre 2020 e 2023, aproximadamente R$ 1,5 bilhão no emprego da tecnologia de empilhamento de rejeito a seco (dry stacking).

Pilha de estéril revegetada em Itabira. Disposição de rejeito pode seguir esse caminho

A técnica permite filtrar e reutilizar a água do rejeito, possibilitando a sua disposição em pilhas, à semelhança com o que já ocorre com o estéril retirado das minas – e que é separado do minério a ser concentrado.

A empresa projeta alcançar índice de 70% com essa forma de disposição nos próximos anos.

No entanto, a Vale salienta que ainda é preciso desenvolver a tecnologia para processamento em larga escala, assim como a liberação de licenciamentos ambientais.

Área para dispor esse material é o que não falta em Itabira. A empresa dispõe no município mais de 14 mil hectares de terra, entre áreas industriais, RPPNs (Reserva Particular do Patrimônio Natural) e reservas legais, que são intocáveis.

Nesse verdadeiro latifúndio dispõe também de outras áreas já ambientalmente impactadas com o reflorestamento de pinus e eucalipto. São áreas que podem ter outra destinação futura com disposição de rejeitos, se é que a empresa quer mesmo manter em operação o seu complexo minerador para além da exaustão de suas reservas locais.

Concentração magnética

Uma alternativa diferente, e que vem sendo estudada, é a concentração magnética a seco do minério de ferro. Esse processo tecnológico inovador vem sendo desenvolvido pela New Steel, empresa adquirida pela Vale no fim do ano passado, que possui patentes de processos de concentração a seco (Fines Dry Magnetic Separation) em 56 países.

A concentração magnética a seco dispensa o uso de água no processo mesmo com minério de baixo teor. É outra opção futura para dispor o rejeito em pilhas, como já ocorre com o material estéril.

A sua aplicação, porém, ainda depende do aprimoramento da tecnologia para processamento em larga escala. De qualquer forma, é alternativa que poderá ser empregada no complexo de Itabira, para que continue com a produção de pellet-feed de alta qualidade como ocorre atualmente.

 

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