Vale investe na Unifei para diversificar a economia de Itabira, mas ainda sem compensar a água que é insumo essencial

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Apontado como a panaceia para Itabira diversificar a sua economia, ainda hoje altamente dependente da mineração, a empresa Vale e a Universidade Federal de Itajubá (Unifei) oficializaram, nesta terça-feira (30), mais uma parceria público-privada para o desenvolvimento do projeto universitário de Itabira.

Dessa vez a parceria é voltada para o programa de iniciação à Engenharia, com fomento de projetos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). A Prefeitura de Itabira também participa dessa pareceria, que há 11 anos instalou o campus avançado da Unifei no município.

A diversificação econômica de Itabira, de fato, passa pelo projeto universitário, pelo qual município pode se tornar polo macrorregional na área de educação e inovação tecnológica. Mas não é o único caminho.

Dívida histórica

Falta ainda, por exemplo, equacionar a questão da oferta de água na cidade, que deve ser suficiente não só para abastecer a população local, mas também para atrair novos empreendimentos industriais que demandam grande quantidade do insumo.

No início deste século, ao fazer o rebaixamento dos aquíferos para prosseguir com a mineração nas Minas do Meio, o prometido pela mineradora era que, com a exaustão dessas minas, a água de classe especial, hoje utilizada no processo de concentração mineral – e também para apagar poeira nas vias de acesso às minas – seria deixada como “grande legado” da mineração para Itabira.

Esse legado, entretanto, pode ficar comprometido com a decisão da empresa, aprovada pelo órgão ambiental estadual, de dispor rejeitos de minério nas cavas exauridas das Minas do Meio. Leia mais aqui, aqui e aqui.

Segundo informa a assessoria de imprensa da Vale, o investimento nos projetos P&D é resultado de uma série de discussões e estudos do Grupo de Trabalho (GT), liderado pela Prefeitura. Visa buscar alternativas de diversificação econômica para a cidade, reduzindo, assim, a dependência do município da mineração.

Condicionante

Vale já está depositando rejeitos nas cavas exauridas das Minas do Meio, o que pode comprometer o “legado” dos aquíferos para abastecer a cidade e atrair novas indústrias (Fotos: Carlos Cruz)

Espera-se que a pendência da água, que consta de condicionante não inteiramente cumprida da Licença de Operação Corretiva (LOC), do Distrito Ferrífero de Itabira, esteja sendo discutida e negociada pelo GT com a mineradora. E que novidades possam ser anunciadas em breve sobre essa dívida histórica da mineração com  Itabira.

Sobre esse mesmo tema a Curadoria de Meio Ambiente, do Ministério Público de Minas Gerais, abriu procedimento investigativo, para que a pendência seja sanada. Ou que a empresa viabilize outras alternativas para o abastecimento na cidade.

Enquanto isso, a Prefeitura desenvolve o projeto de parceria público-privada de transposição de água do rio Tanque, cuja conta do investimento, caso concretizado, será paga pela população itabirana por meio de aumento da tarifa de água.

A Prefeitura deixa assim, pelo menos até aqui, de cobrar essa dívida que é da mineração, por monopolizar todos os recursos hídricos existentes na encosta da degradada Serra do Esmeril – e também dos aquíferos Cauê e Piracicaba.

A oferta de água em grande quantidade é fator primordial para que ocorra a diversificação da economia local, assegurando a sustentabilidade do município após a exaustão de suas minas. É bem possível que seja até mesmo o fator mais importante, cuja solução vem se arrastando há décadas.

Só de “água nova”, segundo estudo da PPP do rio Tanque, elaborado pelo Saae, a mineração consome 1,2 mil litros por segundo, bombeados dos aquíferos. Esse volume corresponde a cerca de três vezes o consumo da água ofertada em Itabira pela autarquia municipal.

Diversificação pela educação

Ainda segundo a assessoria de imprensa da mineradora, o investimento no programa de iniciação à Engenharia é de R$ 4 milhões – e é parte de um pacote maior de R$ 100 milhões que a Vale irá alocar na expansão do campus universitário da Unifei em Itabira.

Esse investimento foi divulgado no ano passado, por ocasião da realização do Fórum Itabira Sustentável – Educação e Inovação como caminho para a diversificação econômica. O convênio para esse fim foi assinando em abril deste ano.

Em contrapartida ao investimento da Vale na Unifei, a Prefeitura irá alocar R$ 20 milhões no projeto de expansão. Em maior volume, esses recursos serão destinados à ampliação do campus da Unifei no município, além de implantar programas educacionais e de fomento ao empreendedorismo de base tecnológica. Será viabilizada a construção de mais três prédios da universidade, com salas de aula e laboratórios.

Esses programas estão previstos no projeto maior denominado Hub de Educação e Tecnologia de Itabira. Serão desenvolvidos em duas etapas, com a formação de grupos de pesquisa com alunos dos cursos de graduação e pós-graduação dos cursos de engenharia da Unifei na primeira delas.

O que se espera é a formação de recursos especializados para o município buscar a diversificação econômica. “Entendemos que a pesquisa é o caminho mais adequado para a consolidação de um ecossistema de inovação”, acentua o gerente de Tecnologia e Inovação para a Sustentabilidade da Vale, Sandoval Carneiro.

Já para a segunda etapa do programa a proposta é envolver alunos de escolas do ensino médio de Itabira, o que é considerado imprescindível para o desenvolvimento socioeconômico do município.“É uma oportunidade de capacitar os jovens para ingressar no ensino superior e para atividades de trabalho, renda e diversificação econômica, podendo ter como escopo temático o setor mineral e sua cadeia de atuação”, salienta o gerente da Vale.

 

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2 Comentários

  1. GUSTAVO TOSTES GAZZINELLI on

    Não existe tecnologia sustentável sem ciência básica. É fundamental criar departamentos afins às engenharias – de física, química, nanociências e nanotecnologias. E a Unifei precisa ter mais autonomia acadêmica para progredir.

    • GUSTAVO TOSTES GAZZINELLI on

      Digo, a Unifei-Itabira. Precisa ter faculdades com diretorias e não ser mera filial acadêmica da reitoria da matriz.

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