Vale importa equipamentos para iniciar o monitoramento da poeira mais fina em Itabira

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Em acatamento à Recomendação Ministerial nº 4/2020, emitida pela promotora Giuliana Talamoni Fonoff, curadora do Meio Ambiente na Comarca de Itabira, a mineradora Vale irá passar a monitorar as partículas respiráveis (PM 2.5) que poluem o ar de Itabira. Atualmente só é feito o monitoramento de partículas totais em suspensão (PTS) e das partículas inaláveis ((PM10). Leia mais aqui.

A promotora Giuliana Fonoff recomendou à Vale monitorar também as partículas respiráveis em Itabira (Fotos: Carlos Cruz)

O objetivo do inquérito aberto pelo Ministério Público é saber se foram ultrapassados os índices máximos admitidos pela resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) – e também da legislação municipal, que é mais restritiva, em Itabira no dia 5 de julho do ano passado.

Foi quando, entre 10h30 e 13h30, moradores de Itabira sentiram o forte impacto da poluição do ar que encobriu toda a cidade, com a poeira vinda das minas da Vale. Para saber mais acesse aqui e aqui.

“A previsão para a instalação dos instrumentos para iniciar o monitoramento é 30 de novembro de 2020”, informa a assessoria da representante do Ministério Público a este site Vila de Utopia.

Liberalidade

O monitoramento das partículas respiráveis é de grande importância para que se dê prosseguimento aos estudos epidemiológicos das doenças respiratórias na cidade.

A recomendação do Ministério Público já foi acatada pela Vale, conforme nota encaminhada à redação deste site. “A empresa está empenhada na busca de modernização e melhoria contínua de seus processos, como no caso da instalação, por mera liberalidade, de estações de monitoramento de particulado PM2.5”.

Na mesma nota a Vale informa que aguarda a chegada de equipamentos importados. E salienta que a medida é parte de condicionante de atendimento contínuo da Licença de Operação Corretiva (LOC) do Distrito Ferrífero de Itabira, que é executada permanentemente.

Com os novos equipamentos instalados na rede de monitoramento da qualidade do ar em Itabira (Premem, Vila Paciência, Areão, Fênix e estação meteorológica) – e após um um período de amostragem –, será possível dar continuidade ao estudo epidemiológico, não conclusivo, realizado em 2005.

Esse estudo foi realizado por equipe do Laboratório de Poluição Atmosférica, da Universidade de São Paulo (USP), liderada pelo professor Paulo Saldiva, em cumprimento a uma das condicionantes da LOC.

Embora não tenha sido apontada a correlação do aumento das doenças respiratórias das vias aéreas superiores e cardiorrespiratórias com a poeira de minério, o estudo recomendou aprofundar a pesquisa.

É o que se espera seja feito assim que a cidade dispor de uma amostragem significativa dos dados do monitoramento das partículas mais finas (PM2.5).

Estudo indica que incidência de doenças respiratórias em Itabira é semelhante à de São Paulo

Poluição do ar por partículas de minério em suspensão aumenta em Itabira com o tempo seco e ventos fortes

Em publicação científica, a equipe da USP diz que, em relação às doenças cardiovasculares, vários estudos têm demonstrado ser a poluição atmosférica um fator de aumento de risco.

A publicação cita estudo anteriormente realizado na cidade de São Paulo (SP) em que foi observado aumento do risco de doenças isquêmicas do coração de 3% na faixa etária entre 45 e 64 anos para aumento de 25 microgramas (µg/m3).

Afirma ainda que o crescimento estimado nos atendimentos de pronto-socorro por doenças cardiovasculares para cada aumento de 10 microgramas por metro cúbico (µg/m³) na concentração de PM10 (partículas inaláveis) foi de 4,5%.

“A magnitude do efeito encontrado em Itabira é semelhante à encontrada em estudos realizados em São Paulo e mostra que as variações de PM10 também interferem no perfil de morbidade por doenças cardiovasculares no município de Itabira”, afirmam os pesquisadores no artigo científico.

“Entretanto”, continuam os pesquisadores, “a concentração de PM10 em Itabira apresenta médias e variações que ficam aquém daquelas observadas em cidades maiores como São Paulo.”

E que, por isso, esses índices levarão a efeitos máximos inferiores aos observados em áreas com maiores concentrações de material particulado.

“Em cidades onde os níveis de poluentes são até mais baixos do que em Itabira, como é o caso de Toronto, no Canadá, estudos com hospitalizações por doenças cardiovasculares, eventos menos frequentes que os atendimentos de pronto-socorro, mostram efeitos de magnitude semelhantes aos encontrados em Itabira.”

O estudo da USP diz ainda que, a maioria dos estudos epidemiológicos que avaliam efeitos agudos e crônicos do PM10 sobre as doenças respiratórias e cardiovasculares, mostra uma relação linear entre a exposição e os desfechos.

“Isso significa que não existe nível seguro de concentração desse poluente e que os efeitos são observados mesmo em níveis de concentração muito abaixo dos padrões de qualidade do ar adotados.”

O estudo confirma que em “Itabira, cidade onde a mineração a céu aberto de minério de ferro é a fonte aparentemente mais relevante de emissão de material particulado inalável, ocorrem efeitos adversos da exposição da população a este poluente.”

Causa e efeito

Estação de monitoramento da qualidade do ar instalada na praça do Areão

Para os pesquisadores, esse resultado justifica a implementação de medidas voltadas a minimizar as emissões resultantes da mineração e monitorar a qualidade do ar.

Dizem ainda que “análises de componentes elementares e de toxicidade das partículas podem ajudar a esclarecer, adequadamente, o papel de cada fonte emissora de PM10 que contribui para a piora da qualidade do ar em Itabira.”

O estudo não estabelece a relação direta do aumento das doenças respiratórias e cardiovasculares com a poluição do ar por partículas de minério em suspensão. Isso mesmo tendo semelhança “na magnitude de efeitos” com a cidade São Paulo.

Portanto, o aprofundamento desse estudo epidemiológico é imprescindível para se conhecer qual é a relação de causa e efeito das partículas de minério em suspensão com as doenças cardiorrespiratórias, assim como de outros poluentes que interferem na qualidade do ar na cidade.

Com o monitoramento das partículas respiráveis (PM2.5) será, enfim, possível aprofundar esses estudo, para que seja estabelecida, ou não, a relação de causa e efeito entre aumento da poeira e as doenças cardiorrespiratórias e pulmonares na cidade de Itabira.

 

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