Uma sucessão de igrejas evangélicas, lojas de bebida, procissões de funerais, parques de diversões e ginásios onde eram feitos discursos políticos

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João Sabali*

“O escritório não é uma instituição estúpida. Ele está mais enraizado no fantástico do que no estúpido.” – Franz Kafka

Ele não chama algumas pessoas pelo nome: quem ocupa um cargo de presidência é sempre chamado por ele de Presidente. Foi isso que fez quando uma pessoa entrou na sala, como vai, Presidente? aperto de mão firme, com suas duas mãos agarrando a única mão que a pessoa estendeu, dois quase três tapinhas no ombro direito da pessoa que estava vestida com uma camiseta cinza. Ele está de terno e seu olho faiscou e seu sorriso explodiu e seu maxilar se projetou pra frente ou talvez para todos os lados quando, mais adiante na reunião, conseguiu encaixar em um contexto aparentemente confiável e absolutamente verossímil a expressão “criar a necessidade nos consumidores” no meio de uma frase. Outra pessoa entra na sala e ele se levanta e cede seu próprio lugar à pessoa, Presidente, como vão as coisas? enquanto posiciona seu smartphone e a si mesmo na cadeira do lado. Em um relance, seu rosto inteiro flagra seu rosto inteiro na vidraça espelhada do outro lado da sala e ele se assombra (mas ainda não tem certeza se se envergonha) com a velocidade com que seu sorriso desaparecia logo após ter se formado graças a uma dessas frases quebra-gelo de início de reunião que ele julgou que as pessoas a seu redor julgariam ser engraçada.

*João Sabali é jornalista e escritor de São Paulo (SP).

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