Tutu Caramujo, o profeta da derrota incomparável

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O ex-presidente da Câmara Municipal, e por consequência, como ocorria em sua época, prefeito desta urbe (1869/72), Antonio Alves de Araújo, o Tutu Caramujo, foi imortalizado no poema “Itabira”, de Carlos Drummond de Andrade.

Ele simboliza desde então o ceticismo do itabirano em relação ao desenvolvimento do município, mesmo tendo sido anunciado, em 1908, em um congresso em Estocolmo, capital da Suécia, a existência em seu subsolo de mais de 1 bilhão de toneladas de pura hematita, no pico do Cauê. “Os homens olham para o chão. Os ingleses compram a mina. Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável”, escreveu o poeta itabirano.

“Drummond imortalizou Tutu Caramujo, em quem viu o ceticismo que ele mesmo manteve por toda a vida. É como se o personagem fosse o próprio autor, antevendo o fracasso do itabirano na construção de uma nova Itabira, onde todos pudessem usufruir da riqueza do Cauê”, avalia o escritor e poeta Marconi de Assis Ferreira, tataraneto de Antonio Alves de Araújo, residente na rua Tiradentes, no mesmo sobrado onde viveu o seu antepassado ilustre. “É a cabeça baixa, o cidadão cismado, desconfiado. Não seria o próprio Drummond?”, questiona.

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Marconi Ferreira, tataraneto de Tutú Caramujo (Fotos: Carlos Cruz)

Passado quase um século e meio, o fantasma da derrota incomparável continua presente. E há pouco tempo para exorcizá-lo. Para muitos, Tutu Caramujo foi um pessimista. Para outros, um visionário por antever a imobilidade do itabirano frente a tão grande riqueza, como bem reportou o poeta na crônica Vila de Utopia.

Drummond, assim como o personagem de seu poema, também foi cético por não acreditar, ainda em 1932, antes por tanto do advento da mineração em escala, que a riqueza do Cauê fosse traduzida em desenvolvimento social e econômico.

A cidade cresceu, saltou de menos de uma dezena de “almas” nas décadas que antecederam a criação da Vale, para mais de 100 mil habitantes. Abriram-se avenidas, expandiram-se os bairros e a infraestrutura urbana, o comércio cresceu. Conta hoje com duas instituições de ensino superior, a Funcesi e a Unifei.

Mas não diversificou a sua economia, mesmo com o município dispondo dos recursos da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem), e do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que substituiu o injusto Imposto Único sobre Minerais desde a promulgação da Constituição Federal, em 1988. Hoje, o município figura entre as dez maiores receitas tributárias do estado de Minas Gerais.

O certo é que em meio à paralisia reinante na cidade, Tutu Caramujo foi um cidadão itabirano digno de admiração, como testemunha o também ex-prefeito de Itabira e deputado estadual Antônio Camilo de Faria Alvim (1904/1978): “Posso lembrar um remoto presidente da Câmara, que governou Itabira no triênio 1869-1872, um homem de condição modesta que todos os meninos de minha idade conheciam: Antônio Alves de Araújo”, escreveu Tunico Alvim sobre o célebre comerciante, na crônica O Centenário de Itabira (O Cometa, outubro de 1998).

“Ninguém sabia que ele fora presidente. Para nós ele era o Tutu Caramujo, um velho vendedor de cartilhas e laranjas. Pobre Antônio Alves, você foi um aristocrata do comércio, porque vendia livros, como Evaristo da Veiga. E, como ele, você amava a liberdade. Tutu Caramujo, político decaído, a quem mais comprávamos laranjas do que livros, receba esta pequenina homenagem da minha comovida admiração.”

Político do Matto Dentro

Além de ter sido prefeito e presidente da Câmara de Itabira por três anos no fim do século 19, Antônio Alves restaurava cartilhas, vendia livros e tudo o que produzia em seu quintal, na histórica venda da rua Tiradentes. Tutu Caramujo foi também por muitos anos chefe dos Correios.

Vizinho de outros célebres itabiranos, como do inventor Chico Zuzuna e do padre Olímpio, Tutú Caramujo também gostava de versejar. “Ele era um poeta ‘cacareco’”, diz o tataraneto, citando um de seus versos: “Linhas e colchetes são para doar para aqueles que aqui vem comprar.”

Foi apelidado de Caramujo por se esconder em sua venda quando via surgir alguém com quem não gostava de conversar. É que ele tinha os seus desafetos políticos, como todos que militam na arte de tentar conciliar interesses muitas vezes antagônicos.

Entre os seus desafetos políticos figuram os Drummond de Andrade, que eram republicanos. “Antonio Alves era monarquista e, mesmo com o advento da República, permaneceu no cargo de chefe dos Correios, o que comprova a sua integridade política e moral”, orgulha-se o tataraneto.

Não há registro fotográfico de Tutú Caramujo. “Havia uma foto na antiga Câmara Municipal. Infelizmente foi consumida com um grande incêndio no fim da década de 1960”, lamenta Marconi Ferreira.

A antiga Câmara foi consumida pelo fogo (Foto: Domínio Público)

Espectro da exaustão mineral ronda Itabira

“O fantasma da derrota incomparável, como cismava Tutu Caramujo, continua assombrando o itabirano”, constata o escritor Marconi de Assis Ferreira. Diante de um futuro incerto, na medida em que a exaustão mineral se aproxima, diferentemente de seu tataravô, ele procura se manter otimista com o que virá.

“Ainda temos tempo para reverter a dependência à mineração e projetar uma Itabira sem a Vale. Eu acredito muito na juventude e na possibilidade de a cidade virar um polo universitário importante. Mas se o itabirano continuar de braços cruzados, a derrota será mesmo incomparável”, vaticina.

Como muitos itabiranos, Marconi acredita no poder transformador da educação. “É o melhor caminho para se construir a quarta Itabira”. A alusão à quarta Itabira é uma projeção do questionamento do próprio Drummond, quando em 1932, antes portanto, de a Vale se estabelecer no município, pergunta se haverá uma terceira Itabira, que teria início com a chegada da ferrovia e início da exploração do Cauê.

A primeira Itabira foi a do ciclo do Ouro, a segunda antecedeu a mineração em larga escala. Já a quarta Itabira surgirá, portanto, quando o município não dispor mais da mineração. “Para que a sua sustentabilidade ocorra em bases diversificadas e sólidas, é preciso que o futuro seja construído desde já”, defende o tataraneto de Tutú Caramujo.

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Casa Sampaio, abandonada: derrota incomparável?

Ferreira aposta também no desenvolvimento do turismo cultural, que se mantém capenga, sem grandes eventos para cultuar a obra do poeta maior, muito mais que o culto ao “menino antigo” nascido em Itabira, como se observa atualmente.

“Os espaços públicos que referenciam o poeta e a sua obra não podem ficar fechados nos fins de semana e feriados. É preciso revitalizar e repensar o papel desses espaços”, propõe. “A Semana Drummondiana, em outubro, quando se celebra o nascimento do poeta, precisa ser transformada em um evento de projeção nacional.”

Segundo ele,a derrota incomparável permanece assombrando o itabirano. Isso fica evidente quando se observa o estado de abandono em que se encontra boa parte do patrimônio arquitetônico e histórico da cidade. “É com muita tristeza que vejo o estado de ruína do casarão onde existia o armazém Sampaio”, exemplifica.

Sem valorizar e reconhecer a importância da história e de seu legado, a quarta Itabira corre mesmo o risco de virar uma cidade fantasma. Se isso acontecer, será uma derrota incomparável – e irreparável, pois “um dia o maior trem do mundo não mais voltará, pois nem terra, nem minério existirão mais”.

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