Três mulheres armadas com livros

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Por Cristina Silveira

“As casas de Itabira são altas; altivo é o Pico do Cauê. E os velhos de Itabira dizem sempre, quando os consultam sobre inovações que perturbam a tradição da cidade: ITABIRA É ETERNA”. Cornélio Penna, em 1945.

Para o estudo da história da Cidadezinha e da Itabira deve-se ter à mesa três livros essenciais: Santa Maria de Itabira na lavra do tempo, de Joana d’Arc Torres de Assis; Os homes de ferro, de Maria Cecília Minayo; Luiz Camillo, perfil intelectual, organizado por Maria Luiza Penna.

São três mulheres intelectuais, uma Garrucheira da gema e outras duas cariocas, não da gema, mas pela lei orgânica da cidade que diz: é carioca toda pessoa que nasce ou vive no Rio de Janeiro, definição expressa no verbete, “carioca” do dicionário do Aurélio, tio do Chico Buarque.

Do livro de Maria Luiza, a Vila de Utopia reproduz o artigo sobre a primeira fábrica de armas e munições da América do Sul.

A reportagem de Maurício & Maurício, A primeira fábrica de armas e munições do Brasil, foi publicada no jornal A Manhã, fundado em 25/12/1925 pelo jornalista Mário Rodrigues, pai do dramaturgo Nelson Rodrigues e dos jornalistas Mário Filho, Milton e do ilustrador Roberto Rodrigues, assassinado aos 23 anos pela jornalista Sylvia Serafim Thibau, em 1929 na redação de Crítica, dirigido por Mário.

A Manhã, matutino ousado com diagramação revolucionária do cartunista paraguaio, Andrés Guevara (1904-1963). Ousado nas imagens e ferino na escrita, confrontava a estrutura política da República Velha, o autoritarismo dos governantes e o fascismo das oligarquias verde-amarelo.

Em defesa da Soberania Nacional combateu o “capitalismo yankee” na defesa da encampação da Itabira Iron Ore Company.

No último parágrafo da reportagem, “Guardada como relíquia”, diz que a “CVRD guarda como relíquia e zela carinhosamente as instalações da fábrica e não permite a retirada de qualquer objeto, ferramenta ou resto de material”.

Ora, pois-pois, cabe perguntas: Onde estará a histórica fábrica? Será que venderam? Estará instalada em fazenda de algum figurão da CVRD?

Caberia a Prefeitura, neste momento, indagar da Vale S/A, onde está a grande peça museológica que pertence a cidade de Itabira? Que os gatos saiam do saco…

Talvez uma única pessoa possa dar pista desse grande objeto museológico, o senhor Geraldo “Pemba” Marques, o homem de ferro que está vivo em Itabira.

Reportagem

A primeira fábrica de armas e munições do Brasil

Maurício & Maurício

Fonte documentada: reportagem sobre a primeira fábrica de armas do Brasil, no jornal A Manhã. No destaque, vista geral da fábrica (Acervo: Cristina Silveira)

Quando o velho rei Salomão, em meio dos seus famoso “Cânticos dos cânticos”, afirmou nada haver de novo sobre a face da terra (Nihi sub sole Novum) fez uma afirmativa decorrente das suas observações e também uma profecia.

Sim, porque, embora os séculos se sucedam e a civilização nos apresente surpreendentes maravilhas, amiúde encontramos, aí pelo mundo, uma porção de coisas reconhecidamente antigas, e que, no entanto, provam – e por vezes de maneira eloquente, que hoje, quando muito, apenas estilizamos  e melhoramos aquilo que nossos antepassados realizaram de forma mais rudimentar.

Ainda agora, viajando pelos mais longínquos pontos do sertão mineiro, descobrimos – ou melhor, nos mostraram algo de extraordinário, em pleno coração do Brasil, uma fábrica de armas e munições construída no início do século XVIII!

Uma fábrica que produzia espingardas de bom aço e produzia pólvora de primeira qualidade!

O Vale do Rio Doce

A roda d’água que movimentava as máquinas e fazia funcionar os fornos da fábrica

O leitor já calculou a extensão do Vale do Rio Doce e também até onde vão os domínios da empresa oficial que explora a riquíssima região? Uma enormidade, vários milhares de quilômetros quadrados, abrangendo cidades, vilas, povoados, rios, lagos, montanhas, minas e lavouras.

Dentro dessa área, na qual o distrito Federal cabe várias vezes e que é maior do que alguns países europeus, há possibilidades para economicamente libertar o Brasil das premências a que vive sujeito, quer no que diz respeito ao abastecimento, quer no relativamente à matéria prima.

Pois foi em meio a esse enorme território que fomos encontrar a primeira fábrica de armas e munições que se montou, segundo dizem, na América do Sul.

A fábrica

Melhor do que nossas palavras, as fotografias que ilustram esta reportagem dizem da fábrica. À primeira vista nem se assemelha a um simulacro de instalação siderúrgica ou de laboratório onde se manipulam explosivos.

No entanto, ela fabricou espingardas de ótimo aço, usando matéria prima de tão boa qualidade, que hoje a Cia Vale do Rio Doce as explora para exportação.

Queremos nos referir ao minério retirado do Pico do Cauê e adjacências, nas proximidades das quais, aliás, está instalada a “fábrica, em Giráo, que fica, se mal nos informaram, a 25 léguas da Presidente Vargas.

Essa organização se deve à operosidade e espirito mercantil dos colonos portugueses. Na época havia, em todo o Brasil grande falta de pólvora e de armas, pois todo esse material era importado da Europa e controlado pelo governo português, do qual éramos a “colônia dileta”.

Primeiro forno a usar minério do pico do Cauê e a produzir na América do Sul

No entanto, se alastravam pelo país os bandeirantes, os exploradores, os escravizadores de índios e mesmo os bandos facinorosos que assaltavam os exploradores de jazidas, catadores de pedras preciosas e caçadores de peles.

Havia também, os conspiradores e a luta que culminou com a guerra dos Emboabas. Isso, pelo centro do país, pois, lá pelo Norte, não menos cruentas eram as lutas.

Ora, os colonos portugueses previram ótimo negócio, iniciaram suas atividades com a pólvora, produzindo quantidade mais do que suficiente. Mas, havia falta de armas e a espingarda, naquela longínqua época, era assim como a bomba atômica de hoje.

Espertos, logo encontraram alguns holandeses especialistas em armas, e, segundo dizem entendidos, que em seus estudos se anteciparam em muito o clímax da Inconfidência Mineira, arranjaram financiamento com grupos que projetavam um movimento de libertação.

É bem possível, pois, que a fábrica tivesse se desenvolvido mercê do movimento que culminou com a execução de Tiradentes.

Como foi resolvido o problema da energia

A torre do vigia construída há mais de 2 séculos ainda apresenta grande resistência

A construção da fábrica foi realizada dentro de princípios técnicos que apenas diferem das de hoje pelo tamanho, e maquinário moderno, é claro.

Havia ótimo minério, porém, onde buscar a força para acionar as maquinas rudimentares e fazer funcionar os fornos?

Transportar a matéria prima para a beira dos rios era tarefa dificílima, em meio de matéria até hoje adusta, sem vias de comunicação. Que fazer? Ora, trazer a água até à zona de minério!

Como fazer a canalização, com a queda precisa para ganhar força e fazer girar a roda do engenho? Outro problema, que, todavia, encontrou solução racional.

Canalizaram água do alto das montanhas, em calhas de madeira, ou seja, numa espécie de condutores quadrados, numa inclinação suficiente para a água produzir a força desejada. Feito isso, funcionou a fábrica, que passou a produzir espingardas de melhor qualidade, para a época.

Um parque militar…

A fábrica consta de fornos, fundição, mecânica, pilhagem de carvão e enxofre, paióis, residência do proprietário e trabalhadores, e… de um mirante, que domina ao longe, e que era usado como torre de observação, pela guarda da fábrica, que poderia, de momento para outro, ser assaltada pelos próprios “fregueses”!

Guardada como relíquia

A Cia Vale do Rio Doce guarda a primeira fábrica de armas e munições, construída no Brasil, como relíquia. Zela carinhosamente de todas as suas instalações, e não permite a retirada de qualquer objeto, ferramenta ou resto de material.

É de lamentar, no entanto, que Giráo fique tão longe, perdida lá no sertão da estrada Bahia-Minas, pois a fábrica merece ter as honras de museu e a visitação principalmente dos estudiosos do Brasil de ontem.

[A Manhã, 9 de junho de 1946]

 

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3 Comentários

  1. Cristina Silveira on

    A fábrica desapareceu depois de matar muita gente, a magnânima Serra de Itabira ou Caué e finalmente Pico do Cauê que a mineradora transformou em arma assassina. Mas o que fica? Ficam os livros e neste caso livro de três mulheres lindas. Ontem li a reportagem, A ciclópica realização da CVRD, de 1947, e é assustador como e o quanto a mineradora expropriou de todo o Mato- a dentro na construção da CVRD. Aniquilou o ideal itabirano de desenvolvimento. Itabira não tem poder próprio, os governantes são beócios eleitos pelo voto . É doloroso!

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