Transformação do espaço geográfico do município de Itabira pelas atividades econômicas

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Júlio Mengueles*

A  diversificação econômica do município de Itabira como meio para gerar  emprego e renda para a população é uma emergente necessidade para o desenvolvimento dos setores econômicos no município.

A população já está cansada de assistir a essa troca de governantes há anos que pouco ou quase nada fizeram para mudar este cenário que impõe à população esta dependência, fruto da tutela da mineração que determina os rumos a seguir, comprometendo o futuro do município.

Que, diga-se de passagem, é cada vez mais incerto e preocupante com o fim das atividades extrativista já anunciada  pela empresa Vale, apontando a exaustão  para  2029. Daí que fica a pergunta: o que será de Itabira sem a sua principal atividade?

Fonte: G1 Relatório 20F da Vale

Nesse pensamento, é necessário realizar implementações estratégicas para o desenvolvimento de novas formas de trabalho, baseadas em alternativas tecnológicas de base sustentável, capaz de promover uma maior integração produtiva por intermédio da população.

A geografia econômica, responsável por compreender a lógica da produção e distribuição das atividades que influenciam as manifestações produtivas sobre o espaço geográfico e interferências que o meio realiza sobre elas, é uma ferramenta essencial de análise que permite um maior esclarecimento sobre o contexto econômico de Itabira, analisando os setores  existentes por meio de pesquisas e dados geográficos para traçar políticas públicas que visem o desenvolvimento e a diversificação econômica, desejo de todos.

Atividades econômicas são aquelas realizadas pelos seres humanos através do trabalho e  são de extrema importância para a garantir as necessidades  e satisfações básicas das pessoas oportunizando alimentação, saúde, segurança e utensílios  indispensáveis para o conforto e bem estar da população.

O desenvolvimento dessas atividades geram riqueza mediante a extração, transformação e distribuição de recursos naturais, bens e serviços. Essas atividades podem ser classificadas em três setores: Primário:  (agricultura, pecuária e extrativismo), Secundário: ( Indústrias)  e o Terciário:  (comércio e o serviços).

Setor Primário

A agricultura, pecuária e extrativismo não industrial de Itabira representa o setor menos representativo da  economia itabirana. Não ultrapassa 1% dos percentuais econômicos, o espaço geográfico da zona rural ocupa 94% do território do município, sendo pouquíssimo explorado.

O agronegócio é um campo repleto de oportunidades para o desenvolvimento e geração de empregos, o que o torna capaz de produzir diversos tipos de matérias-primas com capacidade de sustentar outros setores da economia, além de oferecer subsídios para confecção de roupas, produção de papel, móveis, biocombustíveis, medicamentos e materiais de higiene pessoal e o mais essencial: alimentos para as pessoas.

Em Itabira, temos a Associação dos Produtores da Agricultura familiar de Itabira (Apafi), responsável por 35% da produção agrícola do município. Os produtores contam com o apoio da Secretaria Municipal de Agricultura, da Empresa Brasileira de Extensão Rural (Emater), que garante a qualidade do cultivo da terra para os produtores.

Porém, nota-se uma timidez nos investimentos que não correspondem às necessidades de produção advindas do poder público ao setor. Confira documentário sobre o setor primário de Itabira :  https://youtu.be/o9nf5If12r8?fbclid=IwAR1H4eb1idQxzK9S8-xLanwmFveYuw5TBFIRLqq8bB5Fe_TBGMTKFuen6os

Setor Secundário de Itabira: Indústrias

O setor industrial em Itabira é o mais relevante para a economia do município, que representou em 2017, R$ 2.720,347,86 do PIB municipal.  De acordo com estatísticas do ano de 2010, 10,65% dos trabalhadores de Itabira estavam ocupados no setor industrial extrativo e 6,42% na indústria de transformação.

A presença da multinacional mineradora em Itabira, a ex-Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), hoje apenas Vale S.A, criada em 1942 por Getúlio Vargas, “trouxe por um lado, o ‘progresso’ sintetizado no aumento da população, no dinamismo do mercado de trabalho, na intensificação do comércio, no meio de consumo coletivo (transporte, escolas, assistência médica, infraestrutura básica); de outro, a sensação que se percebe, é a penetração da CVRD atuando em todos os recantos da sociedade local. Fato que é percebido pela população de uma ‘cidade invadida’, revolucionando suas redes de relações e atingindo sua concepção de mundo”. (Maria Cecília de Souza, De ferro e Flexíveis,Pag45)

A mineração não contribui para o desenvolvimento do setor primário da economia. Retirou muitos trabalhadores do campo para atender as necessidades da mineração e, com isso, o  espaço geográfico do município foi se transformando e modificando a sua geografia.

A cidade que um dia  já foi considerada “Itabira dos tecidos de algodão”, quando existiam as fábricas têxteis da Gabiroba e da Pedreira que produziam cobertor de lã de carneiro, além de tecidos de lã, ou lã e poliéster, saias, tailleurs etc, já não existem mais.

Sofreram desmanches ante o imperialismo da mineradora e acabaram interrompendo as suas atividades. As duas fábricas fecharam em meados do século passado por falta de incentivos e investimentos sem falar da falta de água, abastecimento crucial que a empresa se viu sacrificada mediante as nascentes que secaram com o advento da mineração.

Por falar em água, Itabira hoje possui um sério problema com esse recurso tão fundamental para a população e para a produção industrial. Sem água, não há vida e muito menos a diversificação econômica desejada. Um indicador de políticas públicas urgentes e tão necessárias para sanar de vez a indisponibilidade atual desse precioso e indispensável recurso.

É importante ressaltar, que Itabira em seu processo industrial conta com dois distritos industriais, que também não conseguiram proporcionar a desejada diversificação econômica. As empresas que ali se instalaram foram para atender a demanda da mineradora e não correspondem às expectativas do município, não gerando o desenvolvimento previsto.

Tipos de indústrias categorizadas conforme a sua especialização produtiva:

  1. a) Indústrias extrativas: são aquelas que operam a partir da extração vegetal ou mineral, seja com a retirada direta ou com a transformação de bens extrativistas, tais como o petróleo, a madeira, entre outros.
  2. b) Indústrias de base: são responsáveis pela produção de maquinários utilizados para estruturar outras indústrias e também possuem a função de produzir materiais que não são diretamente destinados ao consumo, mas que são novamente utilizados para outras produções industriais. Exemplo: produção do aço.
  3. c) Indústrias de bens de consumo: são as responsáveis pela produção ou montagem de mercadorias em sua fase final, que serão diretamente direcionadas ao setor terciário. É segmentada em indústria de bens duráveis (mercadorias não perecíveis) e bens não duráveis (mercadorias perecíveis).

Setor Terciário

As atividades de compra e venda representadas pelo comércio e toda a estrutura de prestações de serviços estão atreladas ao setor terciário da economia, nesse setor inclui serviços de saúde, educação, transporte, turismo e vários outras prestações do trabalho. Em Itabira no ano de 2017, esse setor movimentou R$ 2,273.496, (46,60%) da economia.

Em 2018, o salário médio mensal no setor era de 2.2 salários mínimos. A proporção de pessoas ocupadas em relação à população total era de 25.1%. Na comparação com os outros municípios do estado, ocupava as posições 91 de 853 e 90 de 853, respectivamente.

Já na comparação com cidades do país todo, ficava na posição 1289 de 5570 e 821 de 5570, respectivamente. Considerando domicílios com rendimentos mensais de até meio salário mínimo por pessoa, tinha 34.7% da população nessas condições, o que o colocava na posição 544 de 853 dentre as cidades do estado e na posição 3633 de 5570 dentre as cidades do Brasil.

Sobre o turismo, existe um campo muito promissor que tem sido pouco explorado. É importante destacar que esse setor movimenta a economia e busca os recursos financeiros oriundos de outras localidades. Itabira conta com dois distritos, Ipoema e Senhora do Carmo, cercados de atrativos naturais com cachoeiras, matas, uma rica espécie de fauna.

O município participa de diversos circuitos ecológicos que poderiam ser melhor explorados, como é o caso do Parque Natural Municipal da Água Santa. Integra o Parque Nacional da Serra do Cipó, Circuito do Ouro e estrada Real .

Outros circuitos turísticos importantes são o Morro Redondo, a Pedra da Igreja, a Serra do Bicudo, o Cânion dos Marques, a Serra das Bandeirinhas, a Serra dos Alves, além das cachoeiras dos Cristais, da Lucy, dos Borges, do Campo, do Bongue, da Conquista, da Boa Vista, do Derrubado, do Paredão, do Limoeiro e do Meio. Em Ipoema se destacam as cachoeiras Alta, Boa Vista, Patrocínio Amaro e Cachoeira do Meio. 

Expoente que faz a diferença

A cidade de Itabira possui um dos maiores poetas do mundo, Carlos Drummond de Andrade, o qual coloca o município no cenário mundial de Literatura. As suas obras podem ser encontradas em diversas partes do município, perceptíveis por meio de visitas ao Memorial Carlos Drummond de Andrade (projetado por Oscar Niemeyer), Casa de Drummond (antiga residência de sua família), Fazenda do Pontal e em vários outros pontos da cidade pelos Caminhos Drummondianos. As  suas histórias e a sua memória influenciam uma gama de escritores, artistas, músicos, porém, essas virtudes culturais são  pouco reconhecidas, valorizadas e pouco exploradas

A Educação é o setor promissor e determinante para a diversificação econômica. Em Itabira, contamos com o campos da Unifei, Funcesi, UNA, Pitágoras e outras na modalidade a distância e semi-presencial.

Há diversas formas de se medir o impacto da educação na economia, aumentando a qualidade e a diversificação do trabalho. Uma cidade que investe nesse setor gasta menos com saúde pública, tem níveis de segurança mais elevados, já que apresenta criminalidade mais baixa.

A população se torna mais esclarecida e, direta ou indiretamente, faz com que a economia funcione com mais eficiência, além de aumentar a formação de profissionais de alto nível trazendo responsabilidade social e desenvolvimento.

Portanto, uma compreensão básica de economia é essencial para o desenvolvimento da qualidade de vida das pessoas tanto no campo quanto na cidade. É só observar: a maior parte dos problemas políticos atuais estão atrelados à má gestão dessas atividades.

As práticas que fomentam a diversificação econômica fortalecem a compreensão da dinâmica de todo um sistema produtivo. Aumentam assim a arrecadação do município em impostos, possibilitando um efeito positivo para a população, que vê esses valores se revertendo em melhorias de infraestrutura, segurança e condições de vida de uma forma geral.

*Júlio Mengueles é professor de Geografia em Itabira.

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