Tônia Carrero, eterna diva do teatro brasileiro

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Em agosto de 1990 tive o prazer de entrevistar Tônia Carrero (1922-2018) para o jornal O Cometa. Juntamente com o sempre parceiro Paulo Autran (1922-2007), ela esteve em Itabira com a peça Vasto Mundo, montada especialmente com poemas de Carlos Drummond de Andrade.

Após o anúncio da morte da atriz no sábado (3), no Rio, estava à procura dessa entrevista quando recebo um telefonema de nossa correspondente na Cidade (ainda?) Maravilhosa, Cristina Silveira, dizendo que ia enviar um texto do Armindo Blanco (1935-2008) para publicar neste site Vila de Utopia como homenagem à atriz.

Belíssimo texto, que revela também como Drummond ficou encabulado ao ponto de virar a cara quando foi a ela apresentada. “Era de tal beleza que encabulei e não consegui olhá-la nos olhos”, explicou, mais tarde, o poeta itabirano. Não ficou mágoa. Só a admiração mútua.

A seguir a crônica de Armindo Blanco. Na sequência, trechos da entrevista da atriz ao O Cometa.

(Carlos Cruz)

Tônia para sempre

Armindo Blanco

Algumas pessoas amam o teatro. Outras vão, de vez em quando, ao teatro. Muitas jamais foram ao teatro (devem levar uma vida horrível, já que se satisfazem com a telenovela, essa risível contrafação.

O que é teatro? Espelho de vícios e virtudes, segundo Hamlet, príncipe da Dinamarca. Único ancoradouro sólido a que podemos recorrer na alucinação permanente da vida, segundo o ator/diretor John Cassavetes, náufrago da realidade.

Tônia Carreiro poderia responder: o teatro sou eu. Como quem diz: o teatro é a presença viva do ator, o seu coração pulsante, a magia do seu corpo movente, a sua voz convertendo em palavras, ora joviais, ora medonhas, a alegria de viver ou o temor da finitude.

Em Amigos para sempre, a atriz, hoje septuagenária, mas de vitalidade insuperável, fala da mulher: aos 38 anos, foi trocada por uma jovem de 18. A mulher continua humilhada e ofendida, mas a atriz se distancia e a trata como personagem, com o mesmo olhar vagamente irônico que pousa sobre as imperfeições dos grandes homens que conheceu.

Tônia Carrero, atriz e guerreira, deslumbrante  (Foto: acervo Funarte)

E é assim o espetáculo inteiro. Tônias várias; uma convivendo e enriquecendo-se com a Inteligência brasileira no apartamento de Aníbal Machado e na chácara aérea de Rubem Braga em Ipanema; outra que, aflita, não sabe que destino dar aos tapetes, feios de doer, que Paulo Autran, parceiro dileto, tece incansavelmente e que vive lhe oferecendo como se fossem obras-primas de Arraiolos. Outra, enfim, atriz de curiosidade canibalesca, investigativa e inquieta (a definição é de Gerald Thomas, que a dirigiu em Quartett, de Heiner Müller), capaz de se reinventar tanto na inocente Desdêmona de Shakespeare (Otelo), quanto na prostituta Neuza Sueli de Plínio Marcos (Navalha na carne).

Carlos Drummond de Andrade virou a cara, ao ser-lhe apresentado pelo anfitrião Aníbal Machado. Habituada à adulação, que no entanto nunca lhe fez perder a cabeça, Tônia estranhou. Mais tarde, o poeta explicaria: “Era de tal beleza que encabulei e não consegui olhá-la nos olhos. ”

Nelson Rodrigues. Ao saber que Adolfo Celli a largara, convidou-a para um encontro num salão de chá.

“Escuta. Esse negócio com o Celli”.

“Que é que tem? ”

“Uma mulher só deve ter um amor. Mesmo abandonada, não tem o direito de se entregar a outro homem”.

Parecia uma cena do melodrama Chuva, de Somerseth Maugham, como o pastor reprimindo a dadivosa Sadie Thompson.

Tônia sobreviveu. Tem alma de 20 anos num corpo de 70, como diria, quando menino, o filho de Clarice Lispector. Seus amigos já se foram, mas ela, no palco da Laura Alvim, os convoca para uma tertúlia como as de antigamente, quando as balas perdidas ainda não zuniam nas noites do Rio e as pessoas se visitavam para trocar afetos não-perecíveis.

Quem ama o teatro, quem só vai de vez em quando e quem nunca foi mas pretende iniciar-se, não deve perder Amigos para Sempre.

[Crônica publicada originalmente no jornal O Dia, 26 de novembro de 1996].

Trechos da entrevista com Tônia Carrero ao O Cometa, em agosto de 1990

O Cometa: Como vocês decidiram montar a peça Vasto Mundo?

Tônia: Foi a partir de ume evento sobre Machado de Assis, na inauguração do centro cultural do Banco do Brasil, no Rio, o mais importante centro cultural do país. Foi aí que o neto de Drummond, o Pedro Augusto, que é meu amiguinho de muitos anos, filho de Maria Julieta, me procurou. Me disse que estava interessado em produzir um evento com as poesias do avô, “com poesias e músicas”. E perguntou se eu o ajudaria. Imediatamente eu liguei para o Paulo Autran. Os dois então entraram em contato. Pedro passou todo o material, inclusive com material inédito. E Paulo levou de dois a três meses selecionando. Depois foi um mês e meio de ensaio com o Garganta Profunda (grupo vocal do Rio de Janeiro).

Tônia esteve em Itabira, em agosto 1990, com a peça Vasto Mundo (Foto: Taquinho)

O Cometa: Por sinal, um grupo vocal maravilhoso.

Tônia: Que coisa linda eles cantando! Inclusive o maestro, o Marcus Leite musicou especialmente para esta peça. Coisas lindas como a Pedra no Caminho, Resíduos, ficou maravilhoso. Drummond agora está na nota de CR$ 50,00, popularizou-se, né?

O Cometa: Encontraram uma forma de desvalorizar Drummond rapidinho.

Tônia: Já não vale nada. Desvalorizou depressa, tadinho.

O Cometa: Vamos falar de Drummond sensível à questão da mulher, que vocês passaram com muito humor na peça.

Tônia: Ah, no Caso do Vestido, por exemplo, né? O Caso do Vestido é a mulher mineira submissa e que quando o marido volta para ela, corre de braços abertos. Aí a acalentava saber que o homem voltou para casa. Agora você esqueceu a crítica dela: ele tem direito a tudo como sempre e nem está mais nela. A mulher mineira, sendo tratada por Drummond, protesta calada. E conta para as filhas.

O Cometa: E o que você achou da reportagem da Veja que apresentou com estardalhaço a namorada de Drummond, a Lígia

Tônia: Eu só tomei conhecimento pelo que se escreveu. É a vida particular dele. Se Drummond conseguiu embelezar a vida com mais amores do que a gente julgava, é porque isso foi bom.

O Cometa: Você, como sempre, está muito bonita. E não é só leite da Davene (um cosmético que ela fazia propaganda) e nem só muita malhação. O que é? É amor?

Tônia: Esse amor que você se refere, eu o tenho dedicado exclusivamente aos meus netos. Eu tenho comido muito e acabei descuidando um pouco. Preciso voltar a me cuidar…

 

 

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