“Tem gente que tosse em cima da gente”, conta caixa do supermercado do Rio de Janeiro

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Por Juliana Gonçalves do The Intercept Brasil

 Entre uma crise de tosse e outra, uma funcionária do Supermercados Mundial, no Rio de Janeiro, me contou, por telefone, como é trabalhar com medo de ficar doente, sendo mãe solteira e a única renda da sua casa.

Devido à pandemia do coronavírus, ela tem enfrentado uma sobrecarga de trabalho no supermercado. Além da aglomeração de clientes que não necessariamente respeitam as orientações do Ministério da Saúde, ela também se preocupa com a convivência com colegas que, assim como ela, têm sintomas de resfriado que se confundem com os da covid-19.

“Tem muito cliente e funcionário tossindo. Tem gente que tosse em cima da gente, principalmente os idosos”, conta a caixa que preferiu não se identificar por medo de perder o emprego. “Alguns clientes parecem estar preocupados e perguntam como estamos, mas tem outros que parecem sair de casa só para causar confusão”.

O depoimento da funcionária é corroborado por outros clientes que relatam pelas redes sociais cenas apocalípticas nos corredores do mercado. “Não adianta fazer quarentena e ir no Mundial”, diz um comentário no Facebook do supermercado.

Superlotação, funcionários sem luvas ou máscaras, pessoas tossindo sem qualquer preocupação e clientes que não respeitam as marcações de distância de segurança em filas estão entre as principais reclamações.

Assim como em muitos outros mercados, tampouco existe controle do número de pessoas que entram por vez nas lojas da empresa, um das críticas da funcionária. Os corredores são tomados por pessoas, muitas delas idosas, aglomeradas em busca de ofertas. “Tem gente que vai todo dia no mercado para comprar coisas desnecessárias se expondo e expondo a gente”, diz.

Comentários do Facebook relatam cenas presenciadas em unidades do Mundial.Reprodução: Facebook

Essa não é a primeira vez que falamos aqui de atuações questionáveis da rede. Em 2017, contei que funcionários entraram em greve porque deixaram de receber por horas extras trabalhadas em domingos e feriados. Também mostramos que os empregados cruzaram os braços novamente um ano depois devido a um novo corte no pagamento.

Confira abaixo os principais trechos da conversa que tive com a funcionária do supermercado. O depoimento foi editado para melhor compreensão

Sinto medo. Você vê a reportagem de outros países e vê que as coisas estão sérias. A gente sai de casa para trabalhar para ajudar a população e acho que não merecemos passar por nenhum tipo de pânico ou humilhação. Mas não é isso que acontece.

As medidas que a empresa tomou para a nossa proteção foram espalhar cartazes [pelo supermercado]orientando que lavássemos as mãos com regularidade e disponibilizar álcool em gel para as caixas e para os clientes passarem nas mãos.

Também colocou uma faixa amarela delimitando a distância que os clientes devem ficar na fila dos caixas e instalou em algumas lojas uma placa de acrílico separando o cliente do caixa. Só que as pessoas não respeitam. Os clientes vão para os lados para falar com as funcionárias. Eu vi no Face (Facebook) que eles tinham que fornecer luva e máscara para a gente, mas na minha loja não vi nada.

No destaque, fila no supermerdado Mudial, no Rio de Janeiro (Foto: Erica Martin/AM Press & Images/Folhapress)
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