Stir it up little darling

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João Sabali*

Contemplai Mirdad, a vinha cuja safra ainda não foi colhida, cujo sangue ainda não foi bebido.- Mikhail Naimy

Sombras se projetam no chão de madeira de uma varanda de uma casa do litoral da Bahia. Em direção à luz, mosquito Jonas se arrasta. Sua barriga transparente está vermelha, inchada, injetada de sangue humano: Jonas está calado e saciado, saciado e pesado como se calçasse sapatos de chumbo puro.

Um passo de cada vez. Se arrastando pelo chão como se uma mochila também de chumbo puro repousasse em cima de suas asas. A varanda está banhada pela escuridão baiana, mas logo à sua frente uma forte luz laranja irregular ilumina seu pequeno rosto contorcido de dor pelo esforço, seus pequenos olhos semicerrados pra evitar a cegueira.

Mas é preciso marchar. E marchar e marchar. E o mosquito Jonas não sabe que é preciso marchar: ele apenas sente que é preciso marchar em direção ao imenso monolito que agora se ergue imperialmente em sua frente.

Aos pés do monolito de cera, ele abaixa a cabeça e faz uma oração emocionada. Mosquito Jonas está profundamente grato por ter tanto alimento dentro de sua barriguinha que se encontra no limiar da explosão.

Agora ele levanta sua cabeça, fecha os olhos e deixa seu tato contemplar o calor laranja que emana do imenso monolito branco. Ao 3m da oração ele reúne o que resta de sua energia e alça voo.

Com a mesma fragilidade de um delicado helicóptero débil tentando manter a pose para a foto da capa da revista em meio a uma tempestade, ele rodeia o monolito uma, duas vezes.

Na terceira volta ele é engolido pela luz laranja e cai abraçado na pequena torre de algodão que desponta do cume do monolito em chamas. Mosquito Jonas ainda está vivo quando sua barriga explode em uma bolha de gordura e tinge de vermelho o cume líquido do imenso monolito em chamas.

Ele não sabe, apenas sente que nada precisa ser feito, que o sono se aproxima, que ele e deus são feitos da mesma matéria pegajosa e úmida, que o sono se esgueira pelo precipício da consciência como uma serpente jovem, que a marcha para a terra prometida chegou ao fim e que talvez a terra prometida seja a própria varanda em que ele passou toda sua vida.

*João Sabali é jornalista e escritor de São Paulo (SP).

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