Sobre as Minas do ferro: a Itabira do Mato Dentro no século XIX

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Maura Silveira Gonçalves de Britto[1]

A história de Itabira tem sido marcada desde o início pela extração mineral. Aspecto marcante na construção da memória histórica e na construção da identidade itabirana, da extração do ouro, no século XVIII ao minério de ferro em proporções de grande indústria, no século XX. Em função disso, muitas vezes, a Itabira do Mato Dentro Oitocentista fica esquecida. Emaranhada em pilhas de inventários, testamentos, ações de liberdade, registros de batismo e casamentos dos habitantes de outrora. Vozes ainda pulsantes nos arquivos do Museu do Ferro.

A inquietação sobre o século XIX itabirano me levou a esse universo de documentação cartográfica faz alguns anos. Os relatos e viajantes estrangeiros e memorialistas, embora valiosos, deixavam lacunas que só o trabalho árduo, lento e insistente do historiador podem preencher. Foi assim que cheguei às Minas do Ferro.

Chamo aqui de Minas do ferro a região que compreende os atuais municípios de Santa Bárbara e Itabira, sobretudo Itabira. Uma extensa área onde a atividade ferrífera se desenvolveu em conjunto com a extração mineral do ouro no oitocentos e que deixou em seus núcleos urbanos e aspectos naturais os efeitos da atividade metalífera. Reflexos do passado ainda presentes hoje em dia.

A delimitação dessa região se fez a partir de uma reconstrução histórica em relatos de viajantes que estiveram em Minas Gerais durante o século XIX e pelos indícios da presença marcante de ferreiros nessa área, visível na documentação cartorária que me referi anteriormente.

A pesquisa em inventários post-mortem presentes no Arquivo Público Municipal de Itabira, que se estendem pelo período de 1813 a 1888, e nas relações nominais de habitantes de 1840 indica grande número de artífices dessa natureza em Itabira e Santa Bárbara, núcleos centrais de povoamento de nossas Minas do ferro.

A busca pelas práticas do ofício de ferreiro entre escravos e libertos por essas fontes deu contornos reais ao modo de vida, condições de trabalho e relações econômicas na Vila de Itabira do século XIX.

O século XIX itabirano, enquanto objeto de pesquisa histórica, a exemplo do que se observou na década de 1980 para toda Província de Minas, continua sendo alvo de indagações e afirmações nebulosas a respeito de como se organizavam economicamente essas áreas de produção de ferro. No que se refere a Itabira, o passado aurífero do século XVIII foi imediatamente continuado pela exploração do ferro em grande escala no século XX na bibliografia local. Um hiato de cem anos que se apresenta, nas fontes, muito mais frutífero do que podia imaginar a tradição histórica itabirana.

Mas o que estamos chamando aqui de “tradição histórica itabirana”? Na bibliografia local consultada, especialmente nas que descrevem a Itabira em seu período de fundação como núcleo de povoamento, a partir das primeiras décadas do século XVIII, é costumeira a definição da cidade como uma descendente do chamado “ciclo do ouro” em Minas Gerais.

Dessa premissa segue-se uma interpretação de que a extração mineral voltada ao mercado externo foi a principal atividade econômica da cidade em qualquer momento de sua história.

Para obter uma visão mais consistente da evolução demográfica e econômica das Minas do ferro no decorrer do Oitocentos, consultamos também os relatórios enviados ao presidente da Província pelas Câmaras de Itabira e Santa Bárbara em 1854.

Tal documentação oferece-nos informações preciosas a respeito da organização econômica desses dois centros populacionais nas Minas do ferro, em um momento em que suas economias escravistas começam a sentir os efeitos da proibição do tráfico negreiro no Brasil, com a promulgação da Lei Eusébio de Queiroz.

Da mesma forma, permite-nos perceber as nuances da manutenção da atividade de extração do ouro na região, cada vez mais conjugada ao ferro. O que propiciava à essas Minas do ferro uma situação nada semelhante à visão da historiografia tradicional, de uma região marcada pelo abandono e involução econômica.

Tais relatórios deixam clara a tendência à agromineração nessas áreas e destacam a importância que a mineração mantém para essas áreas durante toda primeira metade do século XIX.

A existência de várias lavras ativas, das quais se obtém informações sobre a produção anual referente a 1852, 1853 e 1854, confirmam essa afirmação.

A extração do minério de ferro e a produção de manufaturas de ferro já se fazia presente e atendia também às necessidades da lide agrícola e ferramentas para a lavoura. Por isso, o oficio de ferreiro também era uma atividade mecânica valorizada na região.

O desenvolvimento econômico da região também pode ser medido pelo número de lojas, vendas e tavernas existentes na cidade de Itabira, identificados no relatório do Presidente da Província de 1854[2].  Nele, podemos ler:

Distrito da Cidade

Este distrito é por sem dúvida o mais populoso e rico do Município, o terreno aurífero e férreo de que é dotado prometendo-lhe um futuro mais lisongeiro.

Limita-se ao norte com o Rio Tanque em o lugar denominado Ponte de Maria de Souza e Cândido Maxado Coelho, e parte por este lado com o Distrito do Carmo; ao sul, divide pelo alto chamado capoeiras e parte com o Distrito de Santa Maria; e ao poente, pelo alto do morro que verte para a Fazenda de Santo Antonio.  Sela-se dividido em 19 quarteirões, contendo 1056 famílias e 5819 habitantes entre livres e escravos. Existem 7 pontes em perfeito estado por terem sido ultimamente reparadas e construídas de madeira Braúna. Além das Boticas, Engenhos em os quais se fabricarão assúcar  e agoardente e o mais mencionado no mappa que a este acompanha, existem 11 engenhos de socar areias auríferas e mais 9 lavras em que se mineram e denominadas Espigão, Retalho, Serviço Velho, Cinco Dattas, Meio, Santa Anna, Guedes Pinto & Lage, Franas & Faost e Conceição, esta acha-se hoje abandonada; das seis primeiras lavras extrativão – se.

Nos três anteriores anos 253479 ¼ de oitavas que vendidas a 3:500 cada oitava deo o capital de 887: 177$ 375 e despendendo –se com as mesmas a quantia de 97: 928$266,veio a ficar saldo a favor dos proprietários de 782:249$109. Este cálculo pode-se arreverar sua exatidão; as demais lavras pouco produzem , apenas cobrem as despesas feitas como mineiros, engenhos e mais utensílios necessários para a extração do ouro. Seo comércio é lisonjeiro, não só comerciando gêneros do Paiz a um ponto que adquire-se também fazendas secas e molhadas importadas da Praça do Rio de Janeiro com que entretem relações comerciais e na cidade central como este a devera (…) que importando a quantia de cerca de quatrocentos contos os quais repartidos pelas 32 lojas e 23 armazéns são em breve tempo consumidas, podendo-se dizer que esta importação é a de todos os anos. Sua exportação consiste em ouro e ferro.

A partir desse documento, temos evidências de um comércio ativo e de uma população capaz de absorver as mercadorias ali expostas. É importante lembrar que as Minas do ferro localizam-se em um ponto estratégico para dois caminhos importantes da Província no Oitocentos. É rota de passagem entre as vilas mineradoras, como Vila Rica e Mariana e o norte de Minas, onde a extração diamantífera no Tejuco e a lavoura algodoeira em Minas Novas estão em pleno desenvolvimento durante o século XIX. Localização que certamente seria aproveitada pelos negociantes locais.

Ainda há muito o que se explorar sobre o Oitocentos itabirano. As Minas do Ferro continuam lá, nos arquivos, sussurrando suas histórias, à espera de ouvidos atentos!

[1] A autora é nascida em Itabira, filha de Antônio Aluízio Gonçalves (o falecido professor Aluízio) e Rosa Angélica Silveira Gonçalves. Reside hoje na cidade de Ouro Preto, onde leciona na educação pública e é Doutoranda em História pela Universidade Federal de Ouro Preto.

[2] APMI, Inventários, 1813/1888 Cxs 1 a 51; APM, Seção Provincial, Relatório do Presidente da Câmara de Itabira ao Inquérito Provincial de 1854. SP 570 [393-402]

  • Foto: Miguel Bréscia

Sobre o Autor

5 Comentários

  1. Cristina Silveira, A Velha Vermelha em

    Maura, seu artigo é muito importante para o futuro, dado que não basta ter no arquivo documentos, é necessário interpretá-los revela-los à luz do presente. Arquivo morto é um monte de papel oxidado se não lhe desvendamos o conteúdo, vale muito pouco. O futuro te agradece e publique mais….

    • Oi Cristina, que bom que gostou! Publicarei como colaboradora do Vila de Utupia alguns outros artigos sobre o século XIX itabirano, fundamentados nessa documentação. Agradeço à equipe Vila de Utopia pelo espaço!

  2. Mauro Andrade Moura em

    Muito interessante suas observações a respeito da formação de nossa região mineradora, nessa ponta do Quadrilátero Ferrífero.
    Há um documento extenso, mais de duzentas páginas, que estava qualificado como divisão de terras no Arquivo Histórico de Itabira. Na verdade esse documento é um embargo que nos traz informações preciosas a respeito da Sociedade Velha e da Sociedade Nova de Mineração, sociedade esta familiar e capitaneada pelo Major Lage.
    Foi duro ter encontrado aquele documento ali e nem sussurrar conseguia pela qualificação errada, estava completamente abafado.
    O Prof. Aluízio foi um curador dedicado desse nosso Arquivo Histórico.

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  4. Cristina Silveira, Sem Esperanza em

    Mauromeuamigo e Maura se vocês precisarem de alguma pesquisa na BN ou AN contem comigo. Estou iniciando leitura do fundo Percival Faqhuar na BN. Também busco com presteza o rio Doce e nestas encontrei uma mata (rio Doce) em que o município de Itabira era Presidente Vargas, felizmente voltamos a ser Itabira, e nisso aí tem o dedo fino e forte do poeta Drummond.

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