Sem auxílio emergencial, a necropolítica bolsonarista vence

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Rafael Jasovich*

Ninguém participa da luta política se a barriga queima de fome. (Lula sempre soube).

Sem dúvida a luta pela derrota do bolsonarismo no Brasil é uma luta estratégica. Temo, contudo, que passemos os próximos 23 meses que temos até as eleições de 2022 lutando pelo impeachment, que não sairá.

A derrota de um projeto como o bolsonarismo, nunca foi, na história da humanidade, uma corrida de velocidade, mas uma maratona.

Esse projeto, infelizmente, já tem suas raízes fincadas no seio do povo brasileiro, por ignorância, aflorando em muitas pessoas os preconceitos arraigados por mais de 500 anos e pelas mentiras da mídia em geral que, de tanto repetidas, se convertem em verdades para um grande segmento da sociedade.

Não tenho acordo com a “prioridade” que a esquerda parece ter elencado na luta pelo impeachment. E deixei claro em outra matéria que a luta era pela vacina, saída da chapa inteira e auxilio emergencial por mais seis meses.

Não há – e o resultado das eleições na Câmara e o Senado parece confirmar – correlação de forças na institucionalidade para um impeachment no Brasil.

Há sim uma insatisfação e desaprovação do governo, mas não há condições de se fazer a pressão política massiva que seria necessária e só é possível nas ruas.

A internet privada, da forma como é, nunca dará conta de suprir o papel das manifestações populares. É a organização política que nos leva para o outro “nível” da luta. E nem isso estamos podendo fazer agora.

Alguns irão dizer: O problema é a unidade! Não tivemos unidade na candidatura de Baleia Rossi, esse que, por sua vez, teve menos da metade dos votos de seu oponente. Aliás, que nunca se comprometeu publicamente com o impeachment.

Há muita ilusão quanto à seriedade das instituições políticas no Brasil. Muito pouco ou quase nada do que acontece no parlamento o povo tem acesso

Há outro problema que é anterior a isso, pouca ou nenhuma compreensão do nosso sistema político a população tem atualmente. Aqui não é a Europa com suas instituições de longa data forjadas em meio às revoluções democráticas liberais conquistadas pelas lutas populares.

Muito menos aqui são os EUA, que enfrentaram uma guerra civil tendo como centralidade a disputa pelo fim da escravidão e o modelo econômico.

Nós, o Brasil, fomos um dos últimos países a abolir a escravidão. Mesmo assim, há, hoje, aproximadamente, 370 mil pessoas em território nacional trabalhando em regime análogo à escravidão.

Sinto em dizer que a maioria dos políticos brasileiros é, na verdade, coronel de algum território ou setor da economia. Ouso dizer que a grande maioria dos políticos brasileiros sequer sabe a história do próprio Brasil.

A triste verdade é que nós temos um monte de herdeiros, Tancredo e Aécio Neves, Dória pai e filho, Leites, Collors, Magalhães.

É tanto nepotismo na política brasileira que a representatividade dos parlamentos não é questionável: é inexistente.

Sim, de Dória a Bolsonaro, todos intervêm com emendas e promessas nas eleições das casas legislativas brasileiras.

O establishment republicano quer vender a ideia de que não fizeram a mesma coisa sempre que foi preciso para se manterem no poder.

A população não é burra, pelo contrário. Cada vez mais desconfia de Bolsonaro. Há uma rejeição aos partidos que no último período estiveram com a máquina estatal nas mãos, os partidos da “ordem”.

O povo precisa do impeachment, mas precisa comer antes.

A luta pela manutenção do auxílio emergencial ou implementação da renda básica é a única forma de impedir um caos social no Brasil.

Na luta prática política sempre temos que ter prioridade. Não se trata de opor as duas lutas, mas da inevitável hierarquização de prioridades.

Nesse momento, a prioridade é a fome e a vida dos brasileiros.

Unidade com programa e eixo político claro. Retorno do Auxílio Emergencial Já! Renda básica e Vacina para viver!

 *Rafael Jasovich é jornalista e advogado, membro da Anistia Internacional

 No destaque, fila de trabalhadores desempregados e autônomos em frente à Caixa Econômica Federal, em Itabira (MG), para receber o auxílio emergencial (Foto: Carlos Cruz)

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