Roberto Duarte Silva, o filho pródigo da Química e a CPLP

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Veladimir Romano*

Mal aproveitada nos seus valores vai a fusão da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, cuja CPLP colocou na sua última reunião [Cimeira XII de 17 a 18 de julho] na ilha do Sal, em Cabo Verde, recebendo o pequeno arquipélago gratificante responsabilidade administrativa até final do ano corrente; pontos determinantes, melindrosos mas realistas quanto ao desígnio criativo de fronteiras abertas aos povos irmãos esperando dias melhores pela causa, a nova presidência chamou tal cúpula de “Cultura, Pessoas e Oceanos”.

Na descentralização desta cimeira dos responsáveis CPLP, ao invés dessa realização ser na capital, foi organizada propositadamente na ilha do Sal; importante foi mostrar que Cabo Verde também é mapa da Hilton Hotel [como é relevante integrar a multinacional norte-americana], subindo degraus duma vaidade ilimitada, políticos e burocratas levando suas estratégias sempre de cariz unionista, se divertiram novamente dialogando novas [que são velhas aspirações dos povos CPLP]virtudes abrindo [possíveis] caminhos futuros.

Homenagem em sua terra natal (Fotos: acervo Veladimir Romano)

Do programa apresentado pelo governo caboverdiano, consta maior exploração e proteção dos oceanos onde cada nação CPLP esteja inserida; melhor movimento cultural e livre circulação de pessoas. Intenções muito boas, faladas faz tempo desde as primeiras iniciativas da organização; porém, ainda que nobres, foram ficando na gaveta até se recuperarem aos planos do agora, quando o Brasil transferiu este comando pensando na concretização da livre circulação das pessoas, como programas sobre desenvolvimento sustentável.

Entretanto, algo estranho nestas cúpulas CPLP são, quando se fala de Cultura, quais razões fazem nossos representantes esquecer a Educação? Sem discutir ou criar debate em torno de área tão exigente e sensível, desta vez, novamente, falhou alguma coisa dentro da responsabilidade desta administração das ilhas crioulas. Educação, é obrigatório! Se na primeira ocasião ou coisa em discurso político, “Educação”, fica bem… pela razão clara daquilo que não tem futuro se uma sociedade não pensar em estratégias educativas. Ora, na ilha do Sal, faltou algo importante revelador de como pensam e comungam políticos ou lideranças administrativas da nossa CPLP.

Do nosso lado onde a exigência das observações dá outro norte, não tem jeito pelo suporte analítico o quanto seria juntar de bom agrado entre a ideia dos oceanos, cultura e pessoas, espaço igualmente refletido na educação e, aqui, sim, procurar aplicar alguma memória comemorativa sobre valores históricos como no caso de Roberto Duarte Silva, grande pai da Química caboverdiana. Obrigação dos governantes das ilhas, aproveitar a cimeira oferecendo uma novidade que se deveria implementar nas reuniões da CPLP: recuperar, comemorar, instruir e divulgar trajetórias marcantes dos personagens exemplares fazendo outra riqueza humana, social, científica no contexto evolutivo; gente que foi marcando cada época são aqui também reforços da linguagem e da Língua de todos nós.

Nota de 500 escudos: homenagem a Roberto Duarte

Lembrando Roberto Duarte Silva [25-02-1837/08-02-1889], natural de Ribeira Grande, ilha de Santo Antão no arquipélago de Cabo Verde, ali nasceu para emigrar, estudar ciência química na Europa, depois acumulando experiência e conhecimentos na Ásia, voltou para França, onde foi finalmente reconhecido no seu valor trabalhando com os melhores químicos da época.

Homem distinto não só pelo porte humano, sábio, viveu vida relampejante repleta de trabalho, estudo, acumulando conhecimentos muito determinados pelo enredo dos mistérios da química orgânica. O nosso crioulo das ilhas, seguiu pisadas do grande mestre sueco Törbern Olof Bergman [1749-1817], considerado primeiro investigador responsável pela divisão dos compostos de carbono; uma das divisões ou ainda disciplina reveladora direcionada aos orgânicos e carbônicos oferecendo hoje em dia esclarecimentos importantes desde a riqueza contida nos elementos alimentares até na composição dos corpos físicos ou mesmo guia orientador no estudo dos componentes materiais dentro dos estudos programados pelos astrofísicos. Graças a personagens como Roberto Duarte Silva, astronautas sabem como organizar alimentação espacial.

Em Lisboa, ano de 1940, foi homenageado postumamente pela Academia lusa e pelo então Prêmio Nobel de Medicina, doutor e professor Egas Moniz, considerando Roberto Duarte Silva uma glória, sapiente da matéria sobre formas e fórmulas químicas. Na mesma data também na capital colonial se encontrava o grupo folclórico de Cabo Verde fazendo parte da grande Exposição do Mundo Português; tendo o responsável desses músicos, o compositor Francisco Xavier da Cruz, mais conhecido pelo apelido artístico de “B.Léza”; sentindo na voz solidária dessa homenagem ao seu conterrâneo, apelo a igualmente compor uma morna intitulada “Roberto Duarte Silva” [musica tradicional expressa na maioria do arquipélago], dias depois, criou outra obra em gênero de valsa [Gentio Veludo], outra tradição particular adquirida pelos tocadores da ilha natal do cientista Roberto Duarte Silva, homenageando o conterrâneo.

Atentamente, se cada um de nós viajar pelo mundo CPLP, encontraremos exemplos flagrantes porém mantidos na ignorância, anonimato, omissão e aberrações de comando pelo quanto de ignorância se acumula no desinteresse político revelado de várias formas nas forças de comando dos nossos países. Pergunto: já não seria hora dos povos CPLP encontrarem articulações através da criação social e cívica para além-fronteiras, ser criada comissão para verdadeiro desenvolvimento e defesa dos valores humanos desta mesma CPLP?

Selo postal, outra homenagem a Roberto Duarte Silva

Analisando o acontecido na ilha do Sal, desde o antes até ao depois na próxima entrega do bastão dessa governação virtual CPLP, encontramos muita fantasia, novamente discursos ocasionais carregados de boas intenções mas rodeados de criativa hipocrisia, cinismo, gasto financeiro ao erário sem resultados práticos, muita frustração no sentimento nobre dos povos irmãos da organização e o tempo que passa sem nada frutuoso ou valioso que consiga realmente enobrecer a própria organização.

Compreensível fica saber que nas cúpulas relâmpago, pouco tempo fica para pensar, ficando satisfação pelos sorrisos, abraços, patuscada deliciosa; não seria mais nobre aos políticos e líderes responsáveis delegarem nas comissões de trabalho uma outra agenda bem mais evoluída, séria, capaz de ser concretizada? Países de riqueza humana, cultural, de afinidades tão profundas, vergonhoso fica de tanto desperdício consumindo anos após anos de papo-furado desses quantos se assumindo capacitados pela direção das nações através da nossa Comunidade de Países de Língua Portuguesa.

Sepultura

Pela memória de todos quantos deixando obras dignas de registro, estão na caixa forte do passado, bom seria levantamento de quantos desses valores humanistas enchem arquivos, soltá-los, preparar pequenas biografias e concluir pela pedagogia universal instruindo os mais novos para que eles também demonstrem como estratégia a uma melhor e mais valorizada sociedade de todos nós; esse ensinamento ajuda na evolução da nossa luta contra defeitos graves que imperam nas nossas sociedades desde o topo da governação, passando pelos processos bancários, chegando até na população anônima.

Vencer e organizar o futuro não cabe a quem domina, aplica corrupção, ameaça com ditaduras e violência seja verbal ou intencional através das forças do poder. Povos unidos da CPLP, não querem falhados dominando o mega-palco da governação… Educação, é prioridade, urgente contudo fica uma profunda reforma nos organismos da CPLP olhando pela verdadeira sustentabilidade, fronteiras abertas e melhor saber aproveitando a riqueza marinha das nações.

*Veladimir Romano é jornalista e escritor luso-caboverdiano, colaborador deste site Vila de Utopia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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