Questões imunológicas – os perigos de uma vacina a jato

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Contra a Covid-19, empresas e OMS analisam liberar produto com 60% de eficácia, mas pesquisadores debatem riscos éticos e sanitários

Camille Lichotti

piauí – Na terça-feira, 15 de setembro, a primeira pergunta de um fórum realizado pela ABC News com o presidente Donald Trump foi sobre o coronavírus.

“Eu achei que você estivesse fazendo um bom trabalho em resposta à pandemia […] e aí você tirou o pé do acelerador. Por que você jogou pessoas vulneráveis, como eu, embaixo do ônibus?”, perguntou um eleitor, que é diabético.

Trump se esquivou da resposta – disse que estava trabalhando duro, culpou a China e falou sobre seu último trunfo: a vacina contra a Covid-19. “Nós estamos a semanas de ter a vacina. Pode ser em três ou quatro semanas”, disse.

Pelas contas de Trump, a vacina desenvolvida pela farmacêutica Pfizer estaria pronta ainda em outubro deste ano – antes das eleições presidenciais, que acontecem dia 3 de novembro. Em julho, o governo americano comprou 100 milhões de doses disponíveis da vacina desenvolvida pela Pfizer por 2 bilhões de dólares.

O estudo que investiga a eficácia e segurança da vacina terminará em novembro de 2022, de acordo com a estimativa dos próprios pesquisadores. Ainda assim, um artifício pode ser usado para adiantar a distribuição do imunizante: a autorização para uso emergencial.

No protocolo do estudo clínico, conduzido pela Pfizer e patrocinado pela BioNTech, os pesquisadores detalham todo o processo dos testes que avaliam a segurança e eficácia da vacina. Antes do fim do estudo, a empresa vai realizar quatro análises de dados.

A primeira delas, quando apenas 32 voluntários – dos 30 mil participantes – se infectarem. Nesse momento, uma comissão de controle e proteção vai poder “abrir” os dados e contar quantos infectados tomaram a vacina e quantos receberam placebo – a princípio essa informação é sigilosa, nem os voluntários nem os pesquisadores podem saber.

Se 26 infecções tiverem ocorrido no grupo placebo, é possível reivindicar a eficácia. Segundo Eric Topol, especialista em ensaios clínicos na Scripps Research, esse seria o limite para demonstrar uma eficácia de 60%, que é o objetivo mínimo dos pesquisadores da Pfizer.

“Mas a autorização para uso emergencial requer apenas que seja ‘possivelmente eficaz’, então até menos de 26 eventos no grupo placebo poderia qualificar [a vacina]”, escreveu Topol em sua conta no Twitter.

Topol é um dos cientistas preocupados com o ritmo das pesquisas. Para ele, o grande problema de revisar os dados várias vezes com um baixo número de infecções é que isso aumenta as chances de achar resultados de segurança e eficácia que não se sustentam.

A Pfizer vai fazer análises com  32, 62, 92 e 120 casos positivos para a Covid-19 antes da análise final, com 164. “São quatro análises, essencialmente engendrando uma pausa prematura no estudo”, escreveu Topol.

O professor de bioestatística da Escola de Saúde Pública da Universidade Emory, David Benkeser, analisou o modelo estatístico usado para monitorar as análises da Pfizer. Ele concluiu que o tipo de monitoramento usado é “agressivo” em termos de interromper o estudo prematuramente.

O protocolo não diz que o estudo será encerrado após as análises – isso significa que os pesquisadores vão continuar acompanhando os resultados por dois anos. Mesmo assim, a empresa pode solicitar a aprovação emergencial após as investigações preliminares.

Análises com um número tão baixo de casos também podem ignorar possíveis efeitos colaterais raros, que seriam cruciais durante a vacinação em massa. “Problemas de segurança podem surgir mais tarde e gerar desconfiança”, escreve Topol.

A preocupação é que efeitos colaterais observados após a liberação do uso na população possam alimentar movimentos que sistematicamente duvidam dos resultados científicos, como é o caso dos militantes antivacina.

Uma pesquisa realizada no ano passado mostrou que dois a cada cinco americanos duvidam da segurança de vacinas. No Twitter, alguns usuários já começaram a espalhar mensagens desse tipo. “Nenhum americano deveria tomar essas vacinas baseadas em jogos infantis de querer ser ‘o primeiro’”, escreveu um deles.

Alguns pesquisadores defendem a liberação emergencial da vacina, mesmo sem 100% de eficácia comprovada. O oncologista Bruno Filardi usou sua conta no Twitter para entrar no debate.

“Imaginem que o estudo seja negativo e a vacina não funcione, para que submeter mais pessoas a uma vacina que não tem eficácia mínima?”, escreveu. “Se for possível determinar eficácia antes do fim do estudo, para que aguardar o uso em populações de maior risco onde a doença é grave?”

Em seu perfil, Topol também é incisivo: “Precisamos fazer uma pressão intensa nas companhias, no FDA [agência reguladora americana] e HHS [Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos] para evitar qualquer autorização para uso emergencial até que a fase 3 dos ensaios clínicos esteja totalmente finalizada.”

Entre as empresas que publicaram seus protocolos de pesquisa, a Pfizer fará a primeira análise interina com o menor número de infecções. A Moderna, primeira a liberar o documento, vai realizar duas análises interinas – com 53 e 106 infecções (o estudo acaba oficialmente quando atingir 151 voluntários infectados).

Outra crítica feita por Topol é em relação às regras que definem os casos nas análises de ínterim. Tanto no estudo da Moderna quanto no da Pfizer, casos leves e médios já são suficientes para realizar a primeira investigação.

No caso da Pfizer, é necessário desenvolver apenas um sintoma para que o caso seja levado em conta. “Isso deixa qualquer assertividade de eficácia menos convincente”, escreve Topol. Esse plano pode deixar de avaliar o comportamento, eficácia e segurança da vacina em casos mais graves.

A AstraZeneca fará apenas uma análise interina, com 75 casos da doença entre os participantes. Em compensação, a eficácia mínima estabelecida pelos pesquisadores da AstraZeneca é de 50% – o valor mais baixo aceito pelo FDA.

A cientista-chefe da OMS declarou que a organização pode aprovar uma vacina que tenha 50% de eficácia. As demais companhias que trabalham no desenvolvimento de vacinas não publicaram o protocolo de seus ensaios clínicos. Entre elas, a SinoVac, que no Brasil desenvolve a vacina em parceria com o Instituto Butantan.

Recentemente, o governador João Doria afirmou que toda a população de São Paulo será vacinada até fevereiro de 2021. Mas nada garante que a terceira fase já tenha sido concluída até lá. Além disso, o governo pretende arrecadar 160 milhões de reais na iniciativa privada para construir uma fábrica de vacinas até novembro.

“Esse é obviamente um trabalho urgente – uma corrida entre companhias com grandes apostas políticas. Uma vez que a aprovação de uso emergencial é emitida, todo o horizonte muda”, escreve Topol.

Ele lembra que a aprovação emergencial para uma vacina só aconteceu uma vez na história, no caso da Anthrax, usada contra infecções bacterianas – e os resultados não foram bons.

Em 2004, a vacinação obrigatória para militares foi suspensa por ordem judicial, porque o FDA não seguiu o protocolo para aprovação. Em 2001, antes de a autorização para uso emergencial ser regulamentada por lei, a vacina foi oferecida a trabalhadores postais sob um protocolo de investigação. A adesão foi baixa. Os trabalhadores se sentiram usados como “macacos de laboratório” e “ratos de experimento”.

No caso das vacinas de coronavírus, a pausa antecipada nos estudos também levanta discussões sobre a ética científica. “Se a vacina for considerada eficaz [nas análises interinas], os participantes no grupo placebo devem, eticamente, receber a vacina também. Nenhuma análise posterior poderá ser finalizada”, escreveu Jeremy Ratcliff, doutorando do departamento de saúde da Universidade de Oxford.

Mas, mesmo com o uso emergencial, não há garantia de que toda a população mundial será vacinada de uma só vez. No começo do mês, a Academia Nacional de Ciência, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos propôs um plano de vacinação de cinco fases para definir os grupos que terão prioridade.

Em primeiro lugar estão os profissionais de saúde. Depois, pessoas com comorbidades que aumentam o risco de morte por Covid-19. Só então seriam vacinados professores, moradores de abrigos, presidiários, ou pessoas com risco médio de adoecer.

Logo depois, os jovens adultos, crianças e trabalhadores com alta exposição ao vírus. Na última fase, a vacina chegaria ao restante da população americana. Por ora, nada está definido. “Precisamos de um tiro na luz, não de um tiro no escuro”, escreve Topol.

No destaque, Intervenção de Paula Cardoso sobre ilustração de ShadeDesign

 

 

 

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