Quem com vazamento fere, com vazamento será ferido

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Rafael Jasovich*

O jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercept Brasil, que vazou as conversas entre o então juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, afirmou que o volume de dados obtidos é imenso, superando inclusive o número de material da reportagem que fez em conjunto com o ex-agente da CIA Edward Snowden, também assinada pelo jornalista.

Moro era um chefe da força-tarefa, que criou estratégias para botar Lula e outras pessoas na prisão. Na ação, se comportou quase como um procurador, não como um magistrado. Têm pessoas dentro da força-tarefa da Lava Jato, outros procuradores, falando que isso iria destruir a reputação da operação.

Isso por entenderem que o vazamento iria criar uma percepção de que o tempo todo não foi uma apuração contra a corrupção, nem uma apuração do Judiciário. Mas uma apuração política para impedir a esquerda de retornar ao poder – e empoderar a direita

As supostas conversas, ocorridas pelo aplicativo Telegram, mostram que Moro orienta Dallagnol em vários momentos da Lava Jato.

Glenn Greenwald, ganhador do prêmio Pulitzer de jornalismo em 2014 pelas revelações de espionagem norte-americana, tornadas públicas pelo ex-agente Edward Snowden. No destaque, Dallagnol e Sérgio Moro (Foto: Felipe Raul/Estadão)

Nas conversas, Sérgio Moro, então juiz da 13ª Vara de Curitiba, teria sugerido a Deltan Dallagnol que trocasse a ordem de fases da Lava Jato, além de cobrar mais agilidade nas operações. O então juiz deu conselhos estratégicos ao procurador – e passou pistas de investigação.

Também teria antecipado uma decisão judicial, sugerido recursos que o Ministério Público deveria fazer. De deu broncas no procurador, como se estivesse em posição hierárquica superior.

Uma das conversas mostra que procuradores e juiz teriam impedido a realização de entrevistas com o ex-presidente Lula antes da eleição presidencial, por temer que isso pudesse ajudar o candidato petista à Presidência, Fernando Haddad.

Em outra conversa, a quatro dias da denúncia contra Lula no caso do triplex, Dallagnol teria manifestado dúvidas sobre as provas colhidas contra o ex-presidente.

Também em nota, a defesa de Lula diz que a reportagem mostra que houve uma combinação na Lava Jato com o objetivo de processar, condenar e prender o ex-presidente. Afirma ainda que os processos estão corrompidos e que é urgente restabelecer a liberdade a Lula.

Recorrências

Os trechos revelados são “apenas o início” de uma série de revelações com base em informações entregues por uma “fonte anônima”. Esse modo de agir politicamente motivado dos principais responsáveis pela operação Lava Jato se deu em várias ocasiões desde 2016.

A mais recente foi em outubro passado, quando os promotores atuaram para impedir que Lula, preso desde abril de 2018, fosse entrevistado por medo de que pudesse beneficiar seu afilhado político, Fernando Haddad, nas eleições presidenciais, vencidas finalmente por Jair Bolsonaro.

Outras mensagens mostram que o principal procurador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol, estava preocupado com a solidez das acusações apresentadas contra Lula para condená-lo como beneficiário do tríplex no Guarujá, que lhe teria sido entregue pela empreiteira OAS em troca de contratos com a Petrobras.

Dallagnol, que considera Lula o “cérebro” de uma organização criminosa para se manter no poder, mostra depois satisfação com a publicação de artigos na imprensa que mencionavam um possível vínculo do ex-presidente com o apartamento, situado no litoral de São Paulo.

Perseguição

Lula, que cumpre por este caso pena de oito anos e 10 meses de prisão, sempre se declarou inocente. E denunciou uma “perseguição judicial” para impedir a volta de seu partido, o PT, ao poder.

Fica evidente até para o mais leigo em assuntos jurídicos que a farsa da Lava Jato foi preparada para prender e condenar o ex presidente Lula. E assim, o retirar do processo eleitoral, que venceria com toda certeza.

Brutalidade comandada por um  Juiz e um procurador com amparo da mídia tradicional. E com farto dinheiro de empresários e do capital financeiro.

Próximos capítulos são aguardados com profunda ansiedade. Eles podem mudar o desastre que esta aí.

*Rafael Jasovich é jornalista e advogado, membro da Anistia Internacional

 

 

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