Quando um príncipe assassina o mensageiro por não gostar da verdade revelada  

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Veladimir Romano*

O mais recente relatório de investigação criminal divulgado pelas Nações Unidas sobre o violento assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi  envolve diretamente altas patentes do palácio de Riade, local familiar e centro político dos mandantes trilionários da velha Arábia Saudita.

As investigações, diante de tamanha barbaridade, deixam claro que o assassinato nunca poderia ter ocorrido sem o consentimento dessas altas patentes.

O jornalista dispunha de muitas matérias comprometedoras contra estratégias da bem conhecida nova geração de candidatos ao trono saudita. Residente e detentor de nacionalidade norte-americana, Khashoggi colaborou com informativos locais quando residiu na capital Washington.

Virou inimigo público número 1, evidente, declarado e “perigoso”, pelo ponto de vista da classe dominante do território árabe. Causava arrepios na coluna óssea e provocava raiva, senão perturbação mental e psíquica, nas consciências tanto do príncipe como de restantes califas perdidos na penumbra estratégica de como parar tal cidadão.

A sua eliminação foi a “melhor solução” dentro do radicalismo subversivo saudita.

O erro fatal do jornalista foi baseado na extrema confiança ao se dirigir sozinho à representação consular na cidade turca de Istambul, diante da necessidade burocrática em resolver assunto de papéis necessários a novo casamento.

Jamal Khashoggi foi assassinado no consulado, em Istambu (Foto: The Times)

Certamente nunca teria passado pela sua  consideração que fosse vítima de tal ato tão macabro em pleno lugar diplomático.

Por certo não imaginava que se defrontaria com a força da polícia secreta do regime saudita, que enviou grupo de 15 agentes militarizados a fim de executarem o crime.

Não fosse pela insistência do governo turco e, ainda graças aos apontamentos oportunos registrados nas câmaras de segurança, estaríamos perante mais um caso perdido. E que aos poucos, com tantos problemas a atormentar o mundo, seria esquecido.

Porém, velhacaria de nível tão repugnante quanto suja, desumana e despida de causa, somente encontra explicação pelo atraso social, civilizatório, histórico, político e profundamente letárgico nos seus aspetos mais espirituais (se entenda, não religioso).

A selvajaria conhecida das épocas mais obscuras do mundo medieval não consegue deixar de ser analisado na plena luz daquilo que a ordem investigadora das Nações Unidas encontrou e passou ao esclarecimento sem qualquer engulho.

Aqui, o problema, é e será apenas o valor financeiro ou (novamente) econômico representado na praça internacional do petróleo, sendo a produção dos depósitos da Arábia Saudita, conhecidos como requisitados.

É assim que não faltarão bajuladores da vida parasitária de declarados assassinos de corda solta, prontos em destruir a vida do mensageiro mais próximo quando as notícias não agradam ao superprotegido príncipe.

Muito jovem, já editor do destacado canal noticioso “Al-Arab”, depois abandonando o canal, Jamal Khashoggi  foi um dos fundadores do jornal progressista “Al Watan” (a palavra tem diferentes significados, aqui, poderá ser o “Notícias da Nossa Terra”). Foi quando começou a incomodar responsáveis do palácio principesco.

Nascido em 1958, na cidade de Medina, o jornalista se viu forçado, já diante de tantas ameaças contra a sua vida, a fugir para os  Estados Unidos, onde conseguiu apoios substanciais na sua causa. Alguns anos depois se naturalizou.

Portanto, as autoridades norte-americanas deveriam agir em conformidade com a legislação local nesse caso, por se tratar do assassinato de um cidadão naturalizado, colunista do “Washington Post”.

Mas nada disso ocorreu… A mão pesada do príncipe e seus comparsas da polícia secreta com preparação militar, ainda sendo disfarçada pelos membros da Casa Branca, entendeu que esse infeliz acontecimento poderia estragar esse brutal negócio de armamentos avaliado em mais de US$ 60 60 bilhões de dólares.

Pelas vantagens financeiras, o poder e seus áulicos fazem por esquecer uma verdade, dando lugar a mentiras, protegendo um príncipe em apuros.

Por sorte, e pela verdade histórica, o relatório divulgado pelas Nações Unidas demonstra como ocorreu esse violento assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi. Se irá continuar impune, isso já é outra história. 

*Veladimir Romano é jornalista e escritor luso-caboverdiano

 

 

 

 

 

 

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