Quadrilha de três mal-amados

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Quadrilha e Os Três mal-amados, poemas de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Meto Neto.

Poucas palavras, a repetição de amar no pretérito imperfeito, Quadrilha, é leitura para um só fôlego em ritmo de cinema mudo. Fala da impossibilidade do amor. Não há infortúnio, apenas a impossibilidade, soluções e o fim de tudo.

Aqui, a transcrição de Quadrilha é a versão publicada em 1927, na revista Verde, de Cataguazes. Versão em que a personagem Lili casa-se com Brederodes, na segunda versão, a mais conhecida, Lili casa-se com J. P. Fernandes.

A essa alteração, o poeta ouviu queixa do Pedro Nava e do professor Arp Procópio, reclamaram ao poeta a falta de Brederodes. Por telefone Drummond explicou ao Arp que Brederodes era um marginal e J.P. Fernandes um industrial português bem-sucedido, um homem ideal para Lili.

Em 1943 João Cabral publica Poemas Reunidos, onde constam três poemas oferecidos ao poeta e amigo Carlos: A Pedra do Sono, O Engenheiro e Os Três mal-amados. Este último foi escrito sob a inspiração de Quadrilha.

Em Os Três Mal-Amados, João, Raimundo e Joaquim ganham fala, expressam o desespero diante da impossibilidade do amor, do desencontro e do fim de tudo. Enlouquecidos de paixão, os homens de Quadrilha desconstroem o verbo amar com a voracidade que move a paixão humana.

A versão de Os Três Mal-Amados e Quadrilha de que nos valemos para esta publicação, é de 1994, extraída de Obras Completas, da Nova Aguilar, do acervo da Biblioteca Nacional-Rio.

#Lula Inocente, Lula Livre!

(Cristina Silveira)

 Quadrilha

Carlos Drummond de Andrade

João amava Thereza que amava Raymundo

que amava Maria que amava Joaquim

que amava Lili

que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Thereza pro convento,

Raymundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com Brederodes que não tinha entrado na história.

Os Três Mal-Amados

João Cabral de Meto Neto

João

Olho Teresa. Veja-a sentada aqui a meu lado, a poucos centímetros de mim.

A poucos centímetros, muitos quilômetros. Por que essa impressão de que precisaria de quilômetros para medir a distância, o afastamento em que a vejo neste momento?

Raimundo

Maria era a praia que eu frequentava certas manhãs. Meus gestos indispensáveis que se cumpriam a um ar tão absolutamente livre que ele mesmo determina seus limites, meus gestos simplificados diante de extensões de que uma luz geral aboliu todos os segredos.

Joaquim

O amor comeu o meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu a minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

João

Olho Teresa como se olhasse o retrato de uma antepassada que tivesse vivido em outro século. Ou como se olhasse um vulto em outro continente, através de um telescópio. Vejo-a como se a cobrisse a poeira tenuíssima ou o ar quase azul que envolvem as pessoas afastadas de nós muitos anos ou muitas léguas.

Raimundo

Maria era sempre uma praia, lugar onde me sinto exato e nítido como uma pedra – meu particular, minha fuga, meu excesso imediatamente evaporados. Maria era o mar dessa praia, sem mistério e sem profundeza. Elementar, como as coisas que podem ser mudadas em vapor ou poeira.

Joaquim

O amor comeu minhas roupas, meus lençóis, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

João

Posso dizer dessa moça a meu lado que é a mesma Teresa que durante todo o dia de hoje, por efeito do gás do sonho, senti pegada a mim?

Raimundo

Maria era também uma fonte. O líquido que começaria a jorrar num momento que eu previa, num ponto que eu poderia examinar, em circunstâncias que eu poderia controlar. Eu aspirava acompanhar com os olhos o crescimento de um arbusto, o surgimento de um jorro de água.

Joaquim

O amor comeu os meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas meus raio-x. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

João

Esta é mesma Teresa que na noite passada conheci em toda intimidade? Posso dizer que a vi, falei-lhe, posso dizer que a tive em toda a intimidade? Que intimidade existe maior que a do sonho? A desse sonho que ainda trago em mim como um objeto que me passasse no bolso?

Raimundo

Maria não era um corpo vago, impreciso. Eu estava ciente de todos os detalhes de seu corpo, que poderia reconstituir à minha vontade. Sua boca, seu sorriso irregular. Todos esses detalhes não me seriam difíceis arrumá-los, recompondo-os, como um jogo de armar ou uma prancha anatômica.

Joaquim

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

João

Ainda me parece sentir o mar do sonho que inundou meu quarto. Ainda sinto a onda chegando à minha cama. Ainda me volta o espanto de despertar entre móveis e paredes que eu não compreendia pudessem estar enxutos. E sem nenhum sinal dessa água que o sol secou, mas de cujo contato ainda me sinto friorento e meio úmido (penso agora que seria mais justo, do mar do sonho, dizer que o sol afugentou, porque os sonhos são como as aves não apenas porque crescem e vivem no ar).

Raimundo

Maria era também, em certas tardes, o campo cimentado que eu atravessava para chegar em algum lugar. Sozinho sobre a terra e sob um sol que me poderia evaporar de toda nuvem. 

Joaquim

Faminto o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

João

Teresa aqui está ao alcance de minha mão, de minha conversa. Por que, entretanto, me sinto sem direitos fora daquele mar? Ignorante dos gestos, das palavras?

Raimundo

Maria era também uma árvore. Um desses organismos sólidos e práticos, presos à terra com raízes que a exploram e devassam seus segredos. E ao mesmo tempo lançados para o céu, com quem permutam seus gazes, seus pássaros, seus movimentos.

Joaquim

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

João

O sonho volta, me envolve novamente. A onda torna a bater em minha cadeira, ameaça chegar até a mesa. Penso que, no meio de toda esta gente da terra, gente que parece ter criado raízes, como um lavrador ou uma colina, sou o único a estudar esse mar. Talvez Teresa…

Raimundo

Maria também era a garrafa de aguardente. Aproximo o ouvido dessa forma correta e exportável e percebo o rumor e os movimentos de sonhos possíveis, ainda em sua matéria líquida, sonhos de que disporei, que submeterei a meu tempo e minha vontade, que alcançarei com a mão. 

Joaquim

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

João

Talvez Teresa…Sim, quem me dirá que esse oceano não nos é comum?

Raimundo

Maria era também o jornal. O mundo ainda quente, em sua última edição e mais recente.

Joaquim

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelos caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

João

Posso esperar que esse oceano nos seja comum? Um sonho é uma criação minha, nascida de meu tempo adormecido, ou existe nele uma participação de fora, de todo o universo, de sua geografia, sua história, sua poesia?

Raimundo

Maria era também um livro: susto de que estamos certos, susto que praticar, com que fazer os exercícios que nos permitirão entender a voz de uma cadeira, de uma cômoda; susto cuidadosamente oculto, como qualquer animal venenoso, entre as folhas claras e organizadas dessa floresta enumerada que leva dísticos explicativos: poesia, poemas, versos.

Joaquim

O amor comeu meu estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo transindo preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

João

O arbusto e a pedra aparecida em qualquer sonho podem ficar indiferentes à vida de que está participando? Pode ignorar o mundo que está ajudando a povoar? É possível que sintam essa participação esses fantasmas, nessa Teresa por exemplo, agora distraída e distante? Há algum sinal que a faça compreender termos sido, juntos, peixes de um mesmo mar?

Raimundo

Maria era também a folha em branco, barreira oposta ao rio impreciso que corre em regiões de alguma parte de nós mesmos. Nessa folha eu construirei um objeto sólido que depois imitarei, o qual depois me definirá. Penso para escolher: um poema, um desenho, um cimento armado – presenças duras e inalteráveis, oposta a minha fuga.

Joaquim

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de um adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão me asseguram. Comeu o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

João

Donde me veio a idéia de que Teresa talvez participe de um universo privado, fechado em minha lembrança? Desse mundo que, através de minha franqueza, compreendi ser o único onde me será possível cumprir os atos mais simples, como por exemplo, caminhar, beber um copo de água, escrever meu nome? Nada, nem mesmo Teresa.

Raimundo

Maria era também o sistema estabelecido de antemão, o fim onde chegar. Era a lucidez, que, ela só, nos pode dar um modo novo e completo de ver uma flor, de ler um verso.

Joaquim

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverso e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Ilustração: Mariah, amor do verbo divino, de Manoel Bersan

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