Preservar o meio ambiente não é só plantar árvores

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A Prefeitura celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente (05/06) com plantio de árvores nas escolas, nos parques da Água Santa (ainda com o córrego homônimo que continua recebendo esgoto) e do Intelecto, com lixo espalhado nas trilhas, sem vigilância e, por consequência, muito pouco aproveitado.

Até parece que não temos aqui uma das maiores minas a céu aberto do mundo como vizinha há 75 anos (ou será que está dentro da cidade?). Nenhum evento foi programado para debater os impactos e as medidas que estão sendo adotadas para mitigar ou pelo menos para amenizar os problemas ambientais decorrentes.

Nada disso, na programação constam apenas atividades “educativas” sobre o aquecimento global como parte de uma “educação ambiental cardíaca”, aquela que pretensamente pretende atingir os corações e sensibilizar as pessoas para que poeticamente preservem o meio ambiente.

Uma pena. O impacto da mineração devia ser agenda permanente na pauta da questão ambiental no município. Como aliás, é debatido na Vale que tem gerência exclusiva para tratar do tema. Existem muitas pendências ambientais que precisam ser melhor equacionadas e também ações já realizadas e que merecem ser debatidas entre a população, empresa e agentes políticos. Afinal, não há como extrair minério do subsolo sem retirar o solo e o que tem por cima – a fauna, a flora, os cursos d’água e a atmosfera são profundamente impactados.

Como desconhecer essa realidade que atinge os nossos olhos, ouvidos, bocas e, sobretudo, narizes? Não são poucas as pendências. Por exemplo, a condicionante da água constante da Licença de Operação Corretiva (LOC) do Distrito Ferrífero de Itabira, concedida em 18 de maio de 2000 pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), foi de fato cumprida? Ela se limita, como defende a empresa, em apresentar alternativas de captação? Ou, ainda, restringe-se à perfuração de poços artesianos, substituição de parte da rede de distribuição, ampliação dos reservatórios e concessão parcial da outorga de captação de água nas barragens de Santana e Rio de Peixe?

O ambientalista Francisco Carlos Silva entende que não. Ele é um entre as poucas vozes em Itabira que tem levantado a questão e questionado o não cumprimento integral da condicionante da água. Entretanto, para a empresa Vale essa condicionante já foi cumprida, assim como todas as demais condicionantes da LOC.

Existem muitas dúvidas a esse respeito. E a Semana do Meio Ambiente que se inicia hoje devia ser uma boa oportunidade para se transformar em palco de debates e promover um balanço entre a empresa e a comunidade, gerando compromissos e ações concretas. Porém, lastimavelmente nada disso consta da programação divulgada pela Prefeitura, restringindo-se ao plantio de algumas poucas árvores, gesto simbólico que em muito pouco muda a questão ambiental.

Na prática, nem mesmo o plantio de árvores no município tem sido feito como a demanda exige. A Prefeitura desativou o projeto Mãe d’Água que propunha incentivar fazendeiros e sitiantes a recompor nascentes e matas ciliares em córregos e rios, além de construir fossas sépticas e conter erosões que possam impactar os cursos d’água. Desativou também o projeto Cercar para não secar, de inventivo à proteção de nascentes.

Conforme defende o ambientalista Francisco Carlos em sua luta solitária contra moinhos e ventos que levantam poeira, principalmente nesta época do ano, se a empresa Vale monopoliza a água existente na serra do Esmeril, e arredores, para operar as suas usinas de concentração de minério, a compensação devia ser em igual volume para que não falte o precioso líquido na cidade.

Afinal, água com água se paga, já diziam outros itabiranos há muitos anos, pelo menos desde quando foi desativada a captação de água na Camarinha e no Borrachudo em consequência da mineração. A administração municipal deve desconhecer esse aforismo. Tanto que a solução apresentada pela Prefeitura e pelo Saae para solucionar o problema é a privatização da captação da água do rio Tanque, que seria a panaceia inclusive para atrair grandes indústrias para o município. Ou será só um bom negócio para os interesses privados – e inconfessáveis?

Não sabemos, inclusive, se a opção de atrair grandes indústrias é mesmo uma boa alternativa econômica para Itabira. Já pensou se a cidade, além da mineração, tivesse também em seu território uma grande usina siderúrgica poluidora como as existentes em João Monlevade, Barão de Cocais?

Além dos impactos do passado ainda a rondar e a exigir medidas mitigadoras permanentes, quais são os novos impactos da mineração decorrentes das usinas de concentração do itabirito compacto? Quais os impactos dos moinhos que tornam as partículas de minério mais finas podem provocar à saúde da população e dos empregados que trabalham próximo e nas usinas? As medidas para conter a sua suspensão sobre a cidade têm sido suficientes? Afinal, como estão os índices de poluição atmosférica após a instalação desses moinhos?

O professor Paulo Saldiva, pesquisador da USP reconhecido nacionalmente como especialista no assunto, concluiu estudo epidemiológico realizado em Itabira afirmando que, pelo tamanho das partículas em suspensão, elas não chegam aos pulmões. Disse que ficam retidas nas vias áreas superiores.

Para alívio geral, pode-se concluir que se elas não chegando aos pulmões não causam silicose, que é doença mais grave e que pode levar ao óbito. Entretanto, provocam rinite, sinusite, faringite, agravam o quadro de quem sofre com asma, além de viroses (resfriado e gripe). Contribuem sobremaneira para formar a famosa “meleca itabirana”.

Mas, e agora, repetimos a pergunta: com a nova tecnologia empregada pela Vale para moer o minério, como fica a qualidade do ar? Essas partículas geradas não estão mais finas? Se diminuíram a espessura, elas continuam sendo retidas nas vias áreas superiores ou podem finalmente chegar aos pulmões?

Com certeza, a empresa tem realizado pesquisas e agido para mitigar esses e outros impactos da mineração – e essa novidade deve estar sendo analisada, estudada. Mas não basta só agir, é preciso demonstrar com divulgação e convencer a população de que tudo o que é possível e necessário para mitigar o impacto da poeira está sendo feito.

Essas e outras questões ambientais constituirão pautas futuras de reportagens para o site Vila de Utopia. Mas convenhamos, na Semana do Meio Ambiente o tema mineração e meio ambiente devia ser pauta recorrente todos os anos, para que população e empresa possam debater o assunto, aprimorar o que já está sendo feito, além de divulgar as novidades tecnológicas empregadas para mitigar ainda mais os impactos decorrentes.

É certo também que o município sofre com outras questões ambientais não vinculadas à mineração. Como exemplos, podemos citar o esgoto que ainda corre nos córregos Água Santa e da Penha. Ou ainda, a ineficiência da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), que não chega a tratar a metade dos efluentes que passam por ela.

A coleta seletiva, que já gerou muita propaganda apregoando o pioneirismo da cidade, parou no tempo. Não evoluiu mesmo tendo sido expandida a área de abrangência. Basta dizer que a cidade não tem ainda uma central de reprocessamento de resíduos industriais e da construção civil, outra condicionante da LOC ainda não totalmente cumprida.

São tantos temas ambientais que afetam uma cidade mineradora e um município do porte de Itabira que não deviam ser “esquecidos” na Semana do Meio Ambiente. Plantar árvores e defender florestas podem até ser algumas das atividades, mas é muito pouco. A menos que se queira tampar o céu e o sol com a poeira em suspensão, esquecendo-se do que é primordial: a qualidade ambiental em uma cidade que tem na vizinhança uma das maiores minas a céu aberto do mundo.

A empresa Vale debate muito mais essas questões entre os seus empregados do que os órgãos ambientais e a Prefeitura com a sociedade local. E o itabirano, como historicamente acontece, cruza os braços e vê a vida passar devagar na Cidadezinha Qualquer. Já perdemos boa parte do Mato Dentro e podemos perder muito mais. Afinal, quem cala, consente. Ainda há tempo e nunca é tarde para começar.

 

 

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2 Comentários

  1. Um exemplo do descaso da Vale é o Pontal, lá onde ela joga o rejeito. Para os desavisados é um terreno abandonado. Tem de tudo lá: assassinatos, desova de carros roubados….. houve mais de um afogamento no rejeito, um velho e duas crianças…. e pra infelicidade dos produtores rurais vizinhos dessa área, lá ainda é ponto de roubo de vacas leiteiras…. não há fiscalização, não há nada… tem até quem cria 50 éguas na terra sem dono, éguas que perambulam pelo asfalto da mg 129, sentido santa maria…..Não acho que Itabira é vizinha da VALE, itabira é área operacional da vale … rsrsrsrs

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