Por um negócio da China, Ronaldo Magalhães tenta atrair dólares de Pequim para Itabira

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Carlos Cruz

Quando surgiu a informação de que o prefeito Ronaldo Magalhães (PTB) iria em missão diplomática à República Popular da China, onde esteve em Pequim e na cidade de Changaha, na província de Hunan, entre os dias 28 de novembro e 8 deste mês, o que primeiramente me veio à cabeça foi de que seria uma visita relacionada à empresa Vale. Afinal, desde 25 de outubro de 1972 Itabira exporta minério de ferro para o gigante asiático.

Como se sabe, a China é um país comunista desde outubro de 1949, quando os comunas liderados por Mao Tsé Tung assumiram o poder do Estado. O gigante asiático tem a maior população (1,3 bilhão de habitantes) – e é atualmente a segunda maior potência econômica do mundo.

Visita de missão chinesa a Carajás, Pará, em 1985, com as presenças do dirigente chinês Zhao-Ziyang e de Eliezer Batista, ex-presidente da Vale (Foto: acervo CVRD)

A relação de Itabira com a China é, portanto, histórica. O primeiro embarque da hematita e do itabirito itabiranos para abastecer as siderúrgicas chinesas ocorreu ainda em plena ditadura, em 25 de outubro de 1972.

Naquele ano, a então estatal Companhia Vale do Rio Doce rompeu com o bloqueio econômico brasileiro ao país asiático.

Isso teria ocorrido mesmo tendo o Brasil, após o golpe militar de 1964, como subalterno aos interesses norte-americanos, cortado relação diplomática com Pequim, que pouco antes havia sido restabelecida pelo ex-presidente Jânio Quadros (1961), o breve.

Essa primeira transação comercial serviu para a Vale dar início às suas vendas para o maior mercado de minério de ferro do mundo.

Para Marx o comunismo só é alcançável com o desenvolvimento do capitalismo

E também para confirmar, mais uma vez, que é a economia que move a história, como já dizia Karl Marx (1818/83), teórico do socialismo científico – e que ainda hoje inspira o capitalismo de Estado desses endiabrados comunistas que só pensam em acumular capital.

Diversificação

Como é a grana que move a história, e como os comunistas chineses dispõem de dólares sobrando, o prefeito Ronaldo Magalhães, que não é bobo, foi à China para ver se consegue um robusto empréstimo de US$ 210 milhões (cerca de R$ 806,4 milhões), que equivalem a quase duas receitas anuais do município.

Esse recurso, caso o prefeito obtenha sucesso na empreitada, será empregado para o município criar uma infraestrutura capaz de assegurar um futuro economicamente diversificado para quando chegar a exaustão de suas minas, prevista para depois de 2028.

Assim como a China deixou de ser um país essencialmente agrícola para se transformar em uma potência industrial urbana, com os dólares dos comunas, Itabira pode também deixar de ser dependente do monoextrativismo mineral. E assim, com a infraestrutura necessária, transformar-se em um grande polo de desenvolvimento tecnológico, como previsto no projeto universitário da Unifei.

Com planejamento e uma boa estratégia isso é bem possível, como fez a China, que até a década de 1970, quando a Vale deu início à exportação do minério de Itabira para o país asiático, tinha 80% de sua população vivendo no campo.

Ronaldo Magalhães expõe os objetivos da visita à China

Com um novo modelo de desenvolvimento planificação e gestão centralizada sob rígido controle do Estado, o gigante comunista seguiu a máxima marxista de que só é possível distribuir riquezas com o desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo. E se transformou em um país industrializado e urbano.

Em 2011, pela primeira vez, a população urbana da China superou a rural, com 51,27% de seus habitantes passando a viver nas cidades. Toda essa transformação trouxe como consequência uma forte demanda por moradias, pontes, viadutos, meios de transporte, bens de consumo – e por muito minério de ferro.

Atualmente, cerca de 90% da produção do minério de Itabira é exportada para alimentar as siderúrgicas chinesas. Segue de Minas Gerais até o porto de Tubarão (ES) para em seguida embarcar em imensos navios graneleiros.

Atravessa o oceano até chegar ao terminal portuário da Vale na cidade de Sohar, em Omã, país do Oriente Médio, onde é misturado com o minério de Carajás para só então seguir para a China.

Independência

Comitiva itabirana em reunião com dirigentes da estatal chinesa (Foto: Divulgação/PMI)

Portanto, repito, diante de todo esse contexto de intensas relações comerciais, era de se esperar que a missão diplomática municipal fosse à China em companhia de uma outra missão da empresa Vale. Mas, não foi o que ocorreu.

Prefeito e comitiva foram ao outro lado do mundo em busca de empréstimo de uma holding estatal, líder mundial em produção de alumínio, a Chinalco/Chinf Engineering e Chalieco/China Aluminum Internacional Engineering.

Segundo Ronaldo Magalhães, a estatal chinesa tem interesse de investir no Brasil. E vê nessa parceria com Itabira como sendo o pontapé para se estabelecer no país em que se plantando tudo dá com os seus negócios. Assim como Itabira, a estatal também pretende diversificar as suas atividades mundo afora.

Compras

Como se sabe, no universo globalizado dos negócios dos cobiçosos chineses, não necessariamente da Chinalco, é de interesse geral ampliar as parcerias com a Vale.

Sendo assim, mesmo que no campo da especulação, não seria de todo improvável que os chineses queiram até mesmo comprar o complexo minerador de Itabira, o maior da Vale em concentração de minérios de baixo teor de ferro.

Registre-se que esse tema não foi tratado pelo prefeito em sua visita diplomática à Pequim. Mas a especulação procede. Como se sabe, já há algum tempo, os chineses por meio da estatal Bao Steel mantêm o controle acionário do complexo minerador de Água Limpa, em Rio Piracicaba. A Vale praticamente só administra o complexo.

Ronaldo Magalhães não foi a China com a missão de atrair uma grande indústria para se estabelecer em Itabira – e assim assegurar o seu futuro sem o minério de ferro. Nem tão pouco lá esteve para fazer um negócio da China para a Vale.

Ele foi mesmo para ver se consegue obter a linha de crédito de US$ 210 milhões. Se terá sucesso na missão, só o tempo e as negociações em curso dirão.

Sonhos

Sonho de aeroporto já tem até ilustração

Se aprovado, o empréstimo é para ser quitado em 12 anos, tendo como garantia a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem), os royalties do minério, pagos pela Vale.

Entretanto, a captação desse recurso depende de aprovação do governo federal e também do aval do Congresso Nacional. Não é uma operação de crédito tão simples.

Otimista, Magalhães acredita que isso não será óbice à aprovação do empréstimo, mesmo estando o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) às turras com Pequim, seguindo a política de seu espelho norte-americano, o presidente Donald Trump, que retorna com a famigerada guerra-fria “pós-moderna”.

É bem possível que essa tresloucada política da falta de diplomacia brasileira não se transforme em empecilho, como acredita o prefeito itabirano.

Afinal, assim como a Vale rompeu o bloqueio em 1973 – e vendeu minério de Itabira para a China em plena ditadura, pode ser que Ronaldo consiga atrair esses tão necessários – e bem-vindos – dólares dos comunistas. E assim livrar o município da bancarrota, do espectro da decadência após a inexorável exaustão mineral.

Infraestrutura

Em janeiro, ou em fevereiro, os chineses retribuirão a visita, conta o prefeito. Virão a Itabira conferir in loco as oportunidades de negócios que o município tem a oferecer.

Projeção do futuro campus universitário com parque tecnológico

Se tudo caminhar bem, durante a visita será assinado um memorando de intenções – o que ainda não significa que os dólares chineses serão alocados a serviço da diversificação econômica de Itabira.

A proposta do prefeito é investir esses US$ 210 milhões na consolidação do projeto da Unifei, com a instalação de um avançado Centro Científico e Tecnológico no Posto Agropecuário, como extensão do campus universitário.

Outra proposta apresentada aos chineses é para que financiem a construção de um terminal de carga (porto seco) – e também do sempre recorrente sonho de consumo de alguns itabiranos que é um aeroporto.

Segundo Magalhães, toda essa infraestrutura é importante para atrair novas indústrias. Dessa forma, diz, será possível isentar de tributos o que for produzido no município para exportação, mesmo que às custas da Lei Kandir, que tantos prejuízos tem causado aos estados e municípios produtores de commodities.

Torcida

Fica a torcida para que tudo dê certo com as negociações do prefeito com os chineses. E que todo esse esforço diplomático não seja em vão.

Que não se transforme em mais uma falsa expectativa, como foram no passado as promessas de se instalar no município unidades das montadoras de automóveis da Hyunday e depois da BMW, como também de uma fábrica de aglomerado de madeira (MDF) e de uma usina de pelotização de minério. Até fábrica da Coca-Cola já foi anunciada para Itabira – e que só “não veio por falta de água”.

O tempo urge e é curto. Afinal, a exaustão vem a galope, enquanto a diversificação patina em malversações mal-explicadas – e até aqui nunca investigadas para se saber o motivo de a política de diversificação econômica, que vem se arrastando desde a década de 1980 (leia aqui e aqui), não ter ainda apresentado os resultados projetados.

Isso mesmo que tenham sido destinados recursos dos royalties do minério até mesmo para indústrias fantasmas, como se sabe, embora ninguém viu, gato comeu.

Que esse empréstimo, com tudo que pode trazer de infraestrutura para Itabira, não se transforme em um mais um sonho de verão que se espalha e desmancha pelo ar.

 

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3 Comentários

  1. GERALDO Victor Cotta em

    Não vou dizer engraçado.Vou comentar o seguinte: Não ví nesses últimos 16 anos nenhum Petralha fazendo algo de bom para o povo Brasileiro principalmente para Itabira.Agora que aparece um homem honrado ,honesto e trabalhador altura do nosso município de Itabira,vem um gaiato falar mal do Prefeito….Tenha a paciência Mauro vá procurar serviço e deixe o Homem trabalhar sô.

  2. Cristina Silveira, A Velha Vermelha em

    Geraldo Cota, o prefeito Ronaldo é a maior sumidade em administração pública e governança do Mundo. E além do mais, com um detalhe, que não vem ao caso, é um Homem Honrada, Honesto, intelectualmente e psicologicamente profundamente capaz, e mais, ele tem plena consciência disso. Sempre que o vejo me emociono e penso assim: porque não seguem o bom e vigoroso e Honesto exemplo desta sumidade? E está aí para quem quer ver, somente os cegos não podem confirmar, como Itabira está limpa, organizada, bela e agradável, sem desemprego, sem violência, o comércio bombando. O Ronaldo tem demonstrado uma capacidade de governo que tem atraído até mesmo a China. Ronaldo é um delírio….

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