Por que escolheram essa região no sopé da Serra do Curral para ser Belo Horizonte, a capital?

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Por Marcelo Procópio de Oliveira

—ora, toda cidade precisa de ter águas por perto. Não tinha um rio, mas tinha dezenas de córregos e um ribeirão, o Arrudas. Todos com nascentes nos tantos morros em volta e descendo para a cidade (quando ainda era só até a avenida do Contorno)

Todos de água límpida, nascida logo ali e desaguando (quase todos) no Arrudas, que segue para o rio (aí sim: rio) das Velhas.

Como as cabeças dos políticos, dos engenheiros, dos etecéteras, eram minúsculas, já nos anos 1960 começaram a fechar as águas e transformar os córregos em canais. E, pior, subterrâneos.

Era a cultura da época e durou muito. Os prefeitos achavam que estavam fazendo o máximo ao construir o que chamavam de avenidas (e ruas) sanitárias.
Porque às águas límpidas com nascentes logo ali, acrescentou-se o lixo das casas, comércios, indústrias. Quando se lê lixo, lê-se esgoto. E foram matando os córregos e o ribeirão.

Tinha córrego na avenida Afonso Pena, na Professor Morais, na Prudente de Morais, Nossa Senhora do Carmo, Uruguai, alguns cruzavam a Bandeirantes, nas ruas São Paulo, Curitiba, Grão Mogol, Montes Claros.

Praça Raul Soares nos anos 1940. Na foto em destaque, a avenida Afonso Pena e a Serra do Curral (Acervo Fotos Antigas de Belo Horizonte)

Dezenas de outros, inclusive os que vinham do oeste pro centro. Os da região Norte, os de Venda Nova. (e …, muitos três pontinhos)

Só que ninguém apostou que a cidade iria crescer e os canais onde estavam os córregos e todo o esgoto da cidade se tornariam pequenos demais para tanto prédio, tanta gente, tanto carro, tanta falta de soluções adequadas, humanizadas, belas.

Tecnologia para tal existia. Mas existia, como existe, a força da grana, o poder de influência, a liberação sem fim da prefeitura e seus prefeitos errôneos.

E tudo seguia assim.
E a cidade mais feia, sem água.

Imagina se tivessem pensado em soluções mais modernas? Mantendo os córregos limpos, azuis, o esgoto passando em paralelo (com ETE, estação de tratamento de esgoto nos finais). E não se permitissem que o uso e a ocupação do solo belorizontino fosse tomado por prédios, asfalto, sem pensar também em espaços abertos, espaços para respirar, espaços para brincar, espaços de ser e estar para todos.

Absolutamente todos. Sem exceção. Cidade de viver. Cidade de olhar. Cidade de pensar. Cidade grande sim. Cidade pré-metrópole: porque não precisa ser mais que isso. Cidade urbana. Cidade sem saudosismo de seu provincianismo passado (ainda restam cheiros e ruídos desse tempo.
Mas a urbanidade final e felizmente venceu. A cidade ficou menos pior.

Apesar de ainda:
Tanto prédio feio, Tanto bairro aglomerado com ruas e calçadas estreitas. Mesmo os mais recentes. Os que vieram a partir dos anos 1960/70 e os novatos como os Belvedere 2, Buritis/Buraco, casas em cima dos morros da serra chocando a visão de alguma poesia que restou.

Mas…

“a cidade é moderna, dizia o cego a seu filho”, como canta Milton Nascimento.

 

 

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2 Comentários

  1. Se não me engano, a foto em destaque é avenida Amazonas.. a av. Afonso pena não esta na área da praça Raul Soares. Afonso pena é perpendicular a amazonas na praça 7. E também não é a Serra do Curral

    • O Prof. Omar se equivocou. As duas fotos são relacionadas entre si apenas como referência em relação ao nome da cidade, que se dizia “que pra todo lugar que se olhasse se via um belo horizonte”. A primeira foto é da Av. Afonso Pena sim. Por mais de vinte anos transitei por essa linda cidade do meu coração. Não faço ideia de quando é essa foto mas com certeza essas duas ruas transversais em primeiro plano são as ruas da Bahia e Tupis. A construção entre elas é onde foi construído o Hotel Othon Palace e seguindo a avenida um pouco mais a frente a torre do relógio da prefeitura de BH e o espigão mais ao fundo é edifício Automóvel Club, um conjunto residencial na rua Goiás esquina com Augusto de Lima e seguindo a avenida até o fim tem -se a esplendorosa Serra do Curral. Vi pelo link do nome do professor, seu blog e o mesmo informando que ele faleceu recentemente. Meus sinceros sentimentos aos familiares do professor Omar que que continuem com garra nesse lindo trabalho em relação ao meio ambiente.

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