Por mais verde novo e menos poeira na cidade. Viva o Instituto Espinhaço

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Carlos Cruz

Com capacidade de produção de 1,5 milhão de mudas nativas por ano, a unidade de produção florestal do Instituto Espinhaço, em Itabira, localizado no Posto Agropecuário, é uma das poucas conquistas que o município obteve nos últimos anos em benefício do meio ambiente – e que ainda permanece.

Surgiu em boa hora, pouco depois de o governo municipal desativar monocraticamente o projeto Preservar para não Secar e também o projeto Mãe D’Água, que era mantido pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) – ambos com o objetivo de incrementar o plantio próximo de nascentes e para recuperar matas ciliares nas propriedades rurais.

As mudas produzidas no viveiro do Instituto Espinhaço são utilizadas na recuperação de matas ciliares, morros e encostas impactadas pela mineração, em áreas onde havia florestas homogêneas (pinus e eucalipto), como também de pastagens desativadas.

Unidade de produção de mudas no Posto Agropecuário: de Itabira para o Espinhaço (Fotos: Carlos Cruz)

A unidade de Itabira foi inaugurada em 2016, em um local onde anteriormente havia um viveiro de produção de mudas de eucalipto. Reformado e preparado para receber e desenvolver mudas de espécies nativas, a unidade ocupa área de 12 mil metros quadrados.

Na unidade de Itabira são gerados 30 empregos diretos, operando nos processos de coleta, triagem e beneficiamento de sementes, além da produção de mudas e gestão dos processos técnicos.

Desde a sua implantação, já produziu mais de 2 milhões de mudas de espécies arbóreas nativas, com variedades que somam mais de 140 espécies dos biomas Mata Atlântica e Cerrado. A produção está abaixo de sua capacidade e pode ser ampliada, pois demanda existe.

Segundo informa a assessoria de imprensa do Instituto Espinhaço, as mudas são distribuídas para plantio em 61 municípios, todos localizados na chamada Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço. Já receberam mudas do Posto Agropecuário os municípios de São Gonçalo do Rio Abaixo, Santa Maria de Itabira, Carmésia, Santo Antônio do Rio Abaixo, São Sebastião do Rio Preto, Nova União, Bom Jesus do Amparo, Jaboticatubas, Santana do Riacho, Buenópolis, Augusto de Lima, Presidente Juscelino, Felício dos Santos, Rio Vermelho e Dom Joaquim.

Viveiro gera empregos e mudas para reabilitar áreas degradadas pela mineração e agropecuária

E o município de Itabira, claro, também tem sido beneficiado, mas é preciso incrementar o plantio. Desde que o instituto se instalou no Posto Agropecuário, foram plantadas pouco mais de 300 mil mudas, principalmente na zona rural. É pouco, é preciso incrementar o reflorestamento com espécies nativas no município, inclusive na cidade devastada e mal cuidada.

Esse plantio ocorreu em propriedades rurais. E, também, no bairro Chapada, na zona rural, em parceria com a Universidade Federal de Itajubá (Unifei), campus de Itabira, onde está sendo feito o monitoramento da qualidade e da quantidade de água na região.

Outro local onde as mudas do Instituto Espinhaço foram plantadas foi no Parque Natural Municipal do Intelecto. O plantio foi feito por meio do programa Cidade Viva, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente – um contraponto necessário ao desastroso projeto Cidade Limpa, pelo qual foram suprimidas inúmeras árvores sem planejamento e laudos técnicos que justificassem os cortes avassaladores por toda a cidade.

No parque do Intelecto foram plantadas 15 mil mudas nativas em substituição à “floresta” de eucalipto que existia na encosta do Pico do Amor. Insisto: é muito pouco.

Triste ranking

O programa Cidade Viva é tímido frente à necessidade de Itabira, uma cidade mineradora cuja população sofre com a falta de sombras e com o excesso de poeira de minério vinda das minas da Vale.

No bairro Campestre, exemplo de como Itabira deveria ser caso a incúria dos que detestam o verde não prevalecesse

É pouco plantio para tanta necessidade, volto a insistir, principalmente na área urbana. Itabira, segundo o IBGE, dispõe de apenas 25,2% de suas vias urbanas arborizadas.

Em decorrência, ocupa a vexaminosa 4.980º posição entre os 5.570 municípios brasileiros no ranking dos mais arborizados. Ou seja, somente 581 municípios no país contam com menos árvores no perímetro urbano que Itabira, a cidade que um dia já foi do Mato Dentro (confira aqui https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/itabira/panorama).

No estado de Minas Gerais, Itabira está na 752ª posição nesse mesmo ranking de cidades verdes, entre os 853 municípios mineiros. Isso significa que apenas 101 cidades mineiras são menos arborizadas que a terra de Drummond.

E na microrregião, a cidade é a 15ª mais arborizada, entre os 18 municípios vizinhos – somente três cidades dessa região que já foi do Mato Dentro, devassado pela mineração e pelas carvoeiras que abasteciam a indústria siderúrgica da região, têm menos árvores no perímetro urbano que Itabira.

Desafetação

Sombra sob árvores na divisa entre os bairros Bela Vista e Nova Vista: raridade em Itabira

Para agravar a situação, no ano passado a Prefeitura “desafetou” áreas verdes na avenida Mauro Ribeiro, espaço nobre da cidade – e também no bairro Novo Amazonas. O objetivo foi obter recursos para abrir a avenida Machado de Assis e executar terraplanagem para construção de apartamentos populares.

Na década de 1990, após um conluio entre Vale e Prefeitura, a cidade deixou de ganhar um bosque verdejante na pera ferroviária da Esplanada da Estação. O jornal O Cometa brigou para que o local fosse transformado em área verde para toda a comunidade, à semelhança do Parque Municipal de Belo Horizonte. Em vão.

O poder econômico coligado com a nefasta política municipal provinciana e elitista preferiu ter no local um condomínio de luxo para poucos apaniguados, inclusive com incentivo para que antigos moradores da Vila Técnica Conceição para lá se mudassem.

Cortes indiscriminados

É fato que árvores nascem, crescem e morrem. Mas o que ainda, infelizmente, se observa é que em Itabira mais cortam do que plantam. Triste sina que se repete entra e sai governo.

No início da década de 1980, a então Companhia Vale do Rio Doce lançou o programa Verde Novo. Prometeu plantar 1,5 milhão de mudas no perímetro urbano, como forma de mitigar a poluição do ar pelas chamadas partículas em suspensão. Com plantio mal planejado e executado de cima para baixo, sobraram poucas árvores desse programa, muitas retorcidas e plantadas em passeios que impedem a passagem de pedestres.

Protesto de moradores contra o corte indiscriminado de árvores na cidade

Sem contar com a participação dos moradores, o programa não teve apoio da população que reclamou da inadequação das mudas plantadas. Poucas árvores vicejaram – e essas fazem diferença: onde foram plantadas geram sombras e ajudam a conter a poeira, melhoram a qualidade do ar.

Algumas espécies remanescentes podem ser observadas nos bairros Campestres, Bela Vista, Penha, Amazonas, mas são poucas.

Que o programa Cidade Viva não se transforme em mais um instrumento propagandístico, como foi o Verde Novo, da Vale. E que mude esse triste cenário devastado pela mineração e pela incúria dos administradores municipais.

O que se espera, ainda que tardia, é que Itabira volte a ser do Mato Dentro, intensificando o plantio de árvores – e abrindo novas ilhas verdes pela cidade tão carente de fotossíntese.

Que se formem bosques e ilhas verdes nas áreas públicas desocupadas, antes que sejam irremediavelmente invadidas com incentivo de políticos nefastos.

Que intensifiquem o plantio nas praças e ruas onde a arborização se fizer necessária, sem prejudicar a passagem de pedestres – e com participação de moradores.

Que aproveitem da permanência do Instituto Espinhaço produzindo mudas em Itabira, um privilégio que o município não pode perder, sob pena de se ter mais uma fotografia na parede. E como vai doer se isso ocorrer.

 

 

 

 

 

 

 

 

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1 comentário

  1. Mauro Andrade Moura em

    Este Posto Agropecuário sempre foi muito mal utilizado, principalmente pelas administrações municipais.
    Esperamos que este viveiro dê conta de suprir boa parte da necessidade de plantio e replantio de árvores em nosso município, nomeadamente nas nascentes.
    É sabido também que por falta de bom uso, a parte do Posto Agropecuário cedida à EPAMIG agora está sendo transferida para a administração do Sindicato Rural.

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