Por mais que eu pense que eu sinta que eu fale

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João Sabali*

A única coisa que existe mesmo é a beleza dos anéis de fumaça que saem do meu cigarro. Todo o resto é ficção. Isso dito, tenho tido a sensação de que o tempo não afeta a alma e de que essa talvez seja a principal diferença entre o corpo e a alma. Não que alguma coisa afete a alma. Ou será que afeta? Isso não sei. Mas gosto de pensar que não afeta, que nada afeta. Não é possível que afete. Um mistério desse tamanho não pode ser afetado por nada. Inabalável. E como a gente precisa de mistérios. E obviamente que as coisas têm alma também. Os animais nem preciso dizer. E é por isso mesmo que eu vou dizer. Veja. Um cavalo pastando perfeitamente em uma planície em chamas. Um tubarão que ziguezagueia sozinho na profundeza do oceano azul turquesa. Ele não pode parar de se movimentar, ele respira através das guelras e, se parar, seu corpo cairá girando lentamente na magnífica desolação do leito azul do oceano. Sem vida. Afetado pelo tempo. Pela relação do tempo com o espaço. Um corpo sem vida adubando o fundo do oceano atlântico. A alma do tubarão então irá se erguer e pairar sobre seu corpo em uma cena que certamente entrará no trailer do grande filme que vem sendo gravado desde o Big Bang.

Magnífica desolação. Essas foram as duas palavras que Buzz Aldrin escolheu pra definir o que estava vendo através do visor do seu capacete de astronauta. As palavras que Neil Armstrong tinha escolhido minutos antes foram outras: ele disse que o que estava vendo parecia um deserto dos EUA. Na Terra, em um prédio construído muito perto de um deserto norte-americano, os homens da NASA estavam completamente extasiados. Queriam saber como era tudo.  Visto de fora, o visor do capacete de Buzz Aldrin reflete uma imensa cratera branca. A curva do vidro do visor distorce a cratera, como acontece nas imagens de GoPro, fazendo com que ela pareça ainda mais redonda e ainda maior que seus 26 km de diâmetro. É acachapante o contraste do preto profundo do ultraespaço cósmico com o branco da cratera distorcida. O nome dessa cratera é Arago, em homenagem a François Arago, astrônomo francês nascido em Estagel, um vilarejo de 2016 pessoas no interior do sul da França. Isso deixa mais que provado que as crateras também têm almas.

Há quem diga que o local onde Buzz Aldrin e Neil Armstrong estão já foi um mar. Por isso a NASA deu a essa região o nome de Mar da Tranquilidade. Não quero ser eu o pobre coitado a dizer o óbvio, que não é impossível que agora mesmo a alma de um tubarão lunar esteja pairando sobre a alma de uma cratera igualmente lunar, em algum lugar entre os desertos dos EUA, a galáxia MACS0647-JD e o interior da França. O coração de Neil Armstrong estava batendo 156 vezes por minuto quando ele pousou a Eagle no solo empoeirado da Lua. A manobra do pouso estava programada pra ser feita no piloto automático, mas, por circunstâncias que sinceramente eu gosto de crer que tenham a ver com o insondável mistério que atravessa todas as coisas vivas e mortas, o comandante da missão teve que pousar na unha. Enquanto Buzz e Neil tiravam a maior onda – eles deram a entender que inclusive estiraram redes e tiraram um cochilo na própria superfície lunar, é mole? – Mike Collins, o astronauta que foi mas não pisou, deu duas voltas inteiras ao redor da lua dentro da Columbia. Nesse momento, os homens da Terra disseram que, por algumas horas, Mike foi o ser humano mais sozinho do universo.

*João Sabali é jornalista e escritor de São Paulo (SP).

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