Pesquisador fala sobre como a Covid-19 tem impactado a saúde mental da população brasileira

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Por Julia Neves – EPSJV/Fiocruz
‘Assim como o vírus pode agir de diferentes formas nas pessoas que se infectam, as respostas emocionais também podem ser muito distintas, dependendo de diversos fatores’

Em tempos de pandemia, como essa que estamos passando atualmente, surgem diversos problemas e urgências de saúde mental, seja por medo da doença ou pela necessidade de isolamento social para conter o avanço do novo coronavírus.

Nesta entrevista, o psiquiatra e professor-pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), Marco Aurélio Soares Jorge, fala sobre como a Covid-19 tem impactado a saúde mental da população brasileira.

Quais os problemas e urgências de saúde mental que podem aparecer nesse contexto de pandemia e isolamento social?

Existem vários fatores desencadeantes ou agravantes de problemas de saúde mental neste período em que o mundo vivencia uma pandemia e as consequentes medidas de contenção do contágio pelo novo coronavírus, como o isolamento social e até o “lockdown”. Não se pode afirmar que existam pessoas que não se afetam de nenhuma forma pela pandemia.

O efeito é global e todos nós somos afetados. Assim como o vírus pode agir de diferentes formas nas pessoas que se infectam; desde casos assintomáticos até casos mais graves, algumas vezes chegando ao óbito, as respostas emocionais também podem ser muito distintas, dependendo de diversos fatores. Questões de diferenças de classes sociais, idade, informações confiáveis, apoio familiar e a capacidade de resiliência em lidar com situações estressantes influenciam na maneira como cada um vai reagir.

Existe um volume enorme de pesquisas sendo publicadas sobre o efeito da pandemia na saúde mental da população. Tem se listado principalmente os transtornos de ansiedade, insônia, irritabilidade, transtornos traumáticos e pós-traumáticos e até casos mais graves como tentativas de suicídio e surtos psicóticos.

Outro ponto importante são os usuários de saúde mental que já vinham sofrendo com o desmonte dos serviços, especialmente com os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e com as equipes da Estratégia Saúde da Família, que estão quase que totalmente desassistidos por conta de precarização ou fechamentos desses equipamentos.

Quais os impactos da pandemia principalmente para os profissionais da saúde e pessoas com transtornos mentais?

O trabalho em saúde mental preconiza que o atendimento dos usuários seja feito, preferencialmente, de maneira presencial, pois se prioriza um contato próximo, afetivo e de confiança mútua, não apenas com os pacientes, mas também com seus familiares.  Além do receio de contaminação pelo vírus, sendo necessário o distanciamento das pessoas e prejudicando, assim, esse contato próximo, a própria condição de confinamento traz angústias, desencadeando ou agravando sintomas mentais.

Assim, é exigido dos profissionais de saúde um trabalho extra e também um esforço de criatividade no enfrentamento dessas condições estressantes. Além disso, a precarização dos serviços deixa os usuários sem saber onde e como buscar ajuda nessas condições. Outra coisa importante é a constatação que o enclausuramento e o isolamento produzem ou agravam transtornos mentais.

Como manter a saúde mental nesse contexto?

Primeiramente, devemos ter consciência que o mundo não vai voltar a ser como era antes. Portanto, precisamos aprender a lidar com as condições novas que nos estão sendo impostas. Não será o caso de aguardar a pandemia passar e “tudo voltará a ser como antes”. Eu sou descrente disso. Portanto, devemos agir agora sabendo lidar com a nova realidade.

Considero importante pensar que a quarentena não implica em afastamento das pessoas. Infelizmente, nem todos no Brasil têm acesso à rede de internet e aplicativos de comunicação. Mas, conversar com as pessoas online traz muitos benefícios, diminuindo os efeitos do afastamento.

A OMS publicou recomendações à população, no dia 18 de março, sobre como lidar com aspectos que afetam a saúde mental. Uma das recomendações foi a afirmação de que assistir, ler ou ouvir em excesso notícias sobre a Covid-19 trazem ansiedade ou estresse.

Portanto, todos devem buscar apenas informações verdadeiramente úteis, que ajudem a proteger a si mesmos e as pessoas que amam. Buscar sempre informações atualizadas em horários específicos durante o seu dia.

Quais medidas alternativas podem ser tomadas na assistência e acompanhamento de antigos e novos pacientes?

As condições da assistência em Saúde Mental são graves, pois os serviços vêm sendo desmontados e precarizados, além do retrocesso nas politicas públicas e falta de investimentos em recursos humanos e materiais. Pensar em estratégias de enfrentamento, coordenadas por lideranças formais, não está sendo possível neste momento, pois existe um desinteresse dos mandatários da nação na ajuda da população mais desfavorecida.

Assim, as medidas alternativas possíveis no acompanhamento de antigos e novos pacientes tem sido a capacitação das equipes da Estratégia Saúde da Família no acolhimento de pacientes com quadros leves. Caso o usuário precise de um cuidado especializado, as equipes devem estar preparadas para atender de forma remota, caso seja possível.

Não é uma situação nova o atendimento por internet ou telefone. Temos uma larga experiência do Centro de Valorização da Vida (CVV), que recebe solicitações de ajuda de pessoas com ideias ou desejo de suicídio e depressão.

Que desafios essa pandemia impõe ao Sistema Único de Saúde (SUS), atualmente e nos próximos anos, em relação à saúde mental?

Primeiramente, nós, trabalhadores, docentes e alunos, temos de ter consciência que o caminho é longo e árduo nessa luta por uma política mais inclusiva, que busque diminuir o abismo socioeconômico estrutural que existe em nosso país. Devemos aproveitar esse momento para repensar nossos papéis como cidadãos e trabalhadores.

Quanto aos gestores, está claramente posto que existe um desejo de retrocesso a um país que não existe nem vai poder mais existir. Portanto, o fortalecimento do SUS depende de cada um dos trabalhadores que doam a sua vida pelo bem-estar da população tão afetada.

Quais desafios a serem enfrentados no pós-pandemia, uma vez que teremos que criar novas rotinas e novas formas de sociabilidade?

Não será possível voltar a condições que experimentávamos anteriormente. A comunicação através da internet e das redes sociais veio para ficar. Portanto, devemos aproveitar o que ela tem de útil. Primeiramente, através da informação em saúde útil, de forma ágil e confiável. O acompanhamento de casos clínicos, nos quais a presença do profissional pode ser substituída pelo contato remoto, deve ser algo que pode permanecer e ser útil para a área de saúde.

Da EPSJV/Fiocruz, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/06/2020

Foto: ABr/EBC

 

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