Pesquisa revela impacto da pandemia na vida de pessoas com diabetes no Brasil

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Pesquisa inédita* com 1701 brasileiros com diabetes revelou como a pandemia por Covid-19 alterou seus cotidianos, controle da doença, padrão de alimentação, atividade física, acesso a medicamentos e serviços de saúde.

EcoDebate – Realizada entre 22 de abril e 4 de maio, em ambiente online, o estudo identificou que 59,5% dos entrevistados apresentaram redução nas atividades físicas; 59,4% observaram variação na glicemia e 38,4% adiaram suas consultas médicas.

A pesquisa foi coordenada pelo Dr. Mark Ugliara Barone, vice-presidente da International Diabetes Fedaration (IDF) e membro do Departamento de Educação da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).

Realizada por meio de questionário de múltipla escolha, a pesquisa contou com público majoritariamente feminino (75,5%), de 18 a 50 anos (70,7%). Dentre eles, 60,7% afirmaram apresentar Diabetes Mellitus Tipo 1 e 30,7% Diabetes Mellitus Tipo 2.

O grupo com mais jovens, com DM1, mostrou-se mais suscetível a apresentar sintomas de Covid-19, embora não tenham sido testados. O grupo com DM2, por sua vez, demonstrou maior propensão a relatar comorbidades – fatores de risco que elevam as chances de agravamento da doença causada pelo novo coronavírus, como hipertensão arterial, obesidade.

Por meio dos dados coletados, constatou-se que 95% dos entrevistados realizaram isolamento social e 27% não saíram de casa após o início da pandemia.

Características e hábitos de saúde

De acordo com o estudo, 91,5% das pessoas mantiveram a rotina de monitorização da glicemia em casa. A partir desse acompanhamento, constatou-se que 59,4% apresentaram variações (8% observou hipoglicemia, 20% hiperglicemia e 31,2% grande variabilidade, em comparação a período anterior à pandemia). Segundo os dados, pessoas que utilizam serviços públicos de saúde relataram mais episódios de hiperglicemia. Usuários do sistema privado apontaram maior estabilidade nos índices de glicemia.

Paralelamente, investigaram-se comportamentos alimentares e relacionados à prática de atividades físicas. Dentre os entrevistados, 29,8% revelaram aumento na ingestão de alimentos. Ao mesmo tempo, 59,5% diminuíram a frequência de atividades física (44,8% correspondente a um declínio elevado). Perguntados sobre o tempo dedicado à TV e internet, 48,8% apresentaram aumento junto ao primeiro equipamento. Quanto ao segundo dispositivo, o tempo despendido cresceu 53,5%.

“Um alerta que traduz a importância dessa pesquisa é que as pessoas com doenças crônicas, como Diabetes, não podem ser deixadas para trás. Tem havido impacto importante no controle da glicose, seja por alteração dos hábitos, seja pelo estresse causado pela pandemia. Por outro lado, o sistema de saúde enfrentará a “terceira onda” da pandemia que implica em demanda reprimida diante de consultas desmarcadas ou por faltas dos pacientes ao agendamento com receio de ir ao hospital, centros de saúde ou consultórios”, comenta a endocrinologista dra. Hermelinda Pedrosa, assessora de Relações Governamentais da Sociedade Brasileira de Diabetes e coautora do trabalho.

Assistência Médica

Dos entrevistados, 61,2% afirmaram serem usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) – de modo exclusivo ou parcial – para a realização de consultas e outras a serviços médicos. No período aferido, 78,6% das pessoas deixaram de fazer suas consultas regulares – 38,4% adiaram suas consultas médicas. E 40,2% não efetuaram agendamentos desde o início da pandemia.

A endocrinologista aponta que as faltas às consultas podem estar diretamente relacionadas ao receio de sair de casa para buscar atendimento médico. “Opções em telemedicina e tele orientação têm crescido, mas ainda não alcançam as pessoas idosas, que não se sentem à vontade a usarem esses meios, nem aquelas com menor poder aquisitivo”, complementa.

O estudo investigou ainda o acesso à medicação para continuidade de tratamentos. Os dados mostraram que 64,5% receberam remédios e suprimentos por meio do SUS. 49,9% precisaram sair de casa para pegar a medicação.

Outros 44,3% apontaram ter amigos ou familiares que se disponibilizaram a realizar tal atividade. Usuários do sistema privado de saúde mais comumente, revelaram efetuar compras de medicamentos por meio de delivery (entrega) ou possuírem estoques de remédios e suprimentos médicos para sua aplicação ou para aferição glicêmica.

*A pesquisa foi publicada no periódico científico Diabetes Research and Clinical Practice (https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0168822720305568), que publicou uma edição especial com trabalhos realizados sobre Covid-19 em vários países, inclusive esta, do Brasil.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/07/2020

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