Pérolas para poucos

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Marina Procópio de Oliveira*

“MATEUS 7:6
Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem.”

Mandaram pra mim, já faz algum tempo, um e-mail sob o título “Pérolas do ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio”. A palavra pérolas, lógico, tinha um sentido pejorativo e era clara a intenção de depreciar a educação dos jovens no Brasil.

Deixei arquivado no computador, porque na verdade tinha gostado muito, achava divertido quando lia, tanto que de vez em quando ia até lá, lia e relia as frases e ria muito de toda a confusão da língua e das novas possibilidades que aquelas frases, inadvertidamente, tinham criado. Não podia deixar de pensar nos jovens, por esse Brasil afora, à tarde, naquele calorão, tentando escrever sobre o aquecimento global (era o tema naquele ano).

É que na verdade, sem querer, pelo desconhecimento e consequentemente pela liberdade que aqueles jovens tinham com a palavra, com a língua, percebi que eles tinham produzido algumas frases que causariam inveja em muito comediante ou poeta, já amarrados à inevitável formalidade do conhecimento.

Era claríssima a intenção dos estudantes de escrever dentro do padrão da tão decantada norma culta, mas a semelhança fônica entre as palavras acabou conferindo significado novo para as frases, como, aliás, acontece com todo mundo. Quem já não se confundiu, por exemplo, com letras de músicas, e saiu cantando por aí a letra com um significado novo, só dele, enganado pelo próprio ouvido?

Eu mesma cantava uma música do Titãs assim: “Homem de lata, capitalismo selvagem”, quando minha sobrinha me corrigiu e disse que era “Homem primata, capitalismo selvagem”. Eu morri de rir, mas para falar a verdade, a minha versão tinha sentido pra mim: Homem de lata: homem sem coração, duro.

Outra frase que todo mundo usa quando quer falar que o filho é a cara do pai (ou da mãe): “cuspido e escarrado”. Eu me lembro da minha professora de português explicando que a origem da expressão vinha da longínqua “esculpido em mármore de Carrara”. Não sei se é por aí mesmo, já vi versões distintas, mas na verdade, nesta altura do campeonato, nem mais me interessa.

A expressão cuspido e escarrado fala por si. Pra mim significa que o filho era tão parecido com o pai que só podia ter saído de dentro dele, como uma cópia cuspida e escarrada, uma coisa meio mitologia grega, como os filhos que nasceram de partes de Urano lançadas ao mar.

Todo mundo se engana, fala fora dos padrões ditos cultos, escreve idem, mas ninguém admite, porque a língua tem poder e o idioma culto é um símbolo justificador da dominação. Mas é assim que a língua avança e se transforma, como tudo na vida. Não fosse, estaríamos ainda falando e escrevendo no mais puro latim (ou pior, talvez estivéssemos apenas soltando gritos guturais por aí).

Essa, aliás, em idos tempos, uma das críticas mais ferozes contra o Lula (agora existem outras, para mim não menos fruto de puro preconceito y otras gigantes cositas más) como se ninguém, além dele nesse país, cometesse qualquer erro gramatical e como se todo o governo Lula – e a proposta de governo do seu partido, o PT, que eu acompanho desde a década de 80 – soçobrasse ante o uso incorreto de uma reles preposição ou de uma concordância inventada.

Eu acho que, na verdade, muitas vezes ele está é jogando pérolas aos porcos (mas ainda bem que nem sempre, já que foi nosso presidente por duas vezes consecutivas, elegeu a Dilma e agora, mesmo preso, está aí, firme e forte, tentando de novo mudar os rumos da política desse país).

Dito isso – e voltando a vaca fria – em defesa da nossa fala, das deliciosas modificações da nossa língua e da grande criatividade do povo, que quando não entende uma frase, cria outra, resolvi resgatar algumas das orações da prova do ENEM e postar aqui, porque eu acho que elas são realmente pérolas, mas pérolas que a gente vai encontrando aos poucos, porque pérola é isso, um corpo estranho que se imiscui dentro da ostra e que pela irritação que nela causa termina por se transformar numa pedra preciosa.

Aí vão elas:

1 – “A floresta tá ali paradinha no lugar dela e vem o homem e créu.”

Quer explicação mais contundente?

2 –“Grande excesso de desmatamento exagerado é a causa da devastação.”/ “A Amazônia está sofrendo um grande, enorme e profundíssimo desmatamento devastador, intenso e imperdoável./ “O aumento da temperatura na terra está cada vez mais aumentando.”

É isso aí. O problema da Amazônia é que há um grande excesso de desmatamento exagerado, profundíssimo, devastador, intenso, imperdoável e que o aumento da temperatura está aumentando cada vez mais. Não é um desmatamentozinho qualquer, não é um aumentozinho qualquer. Pra explicar o desmatamento da Amazônia e o aquecimento global, só com muito pleonasmo…

3 – “Espero que o desmatamento seja instinto.” (…)

Segundo o Houaiss, instinto é impulso interior, independente da razão e de considerações de ordem moral, que faz o indivíduo agir, especialmente se a ação é antissocial. Então, eu também espero que o desmatamento seja instinto…

4 – “A floresta está cheia de animais já extintos. Tem que parar de desmatar para que os animais que estão extintos possam se reproduzirem e aumentarem seu número respirando um ar mais limpo.”

Esse aí disse uma coisa assim, meio Jurassic Park. Esperançoso… E por que não?

5 – “A emoção de poluentes atmosféricos aquece a floresta.”

Essa aqui eu não sei o que ele quis dizer, mas não ficou lindo? A emoção aquece a floresta.

6 – “Animais ficam sem comida e sem dormida por causa das queimadas.”

Bonitinho demais, né. Absolutamente ecológico. Digno de qualquer bom escritor de estórias infantis.

7 – “Precisamos de oxigênio para nossa vida eterna.”

Essa frase é pura poesia! Acho que nós precisamos mesmo de muuuuuito oxigênio para nossa vida eterna!

8 – “Os desmatadores cortam árvores naturais da natureza.”

O que é uma pena, né? As árvores naturais da natureza levam um tempão pra crescer e os homens vão lá e créu.

9 – “A principal vítima do desmatamento é a vida ecológica.”

Em todas as suas manifestações.

10 – “A amazônia tem valor ambiental ilastimável.”

Realmente, se perdermos a Amazônia, será ilastimável. Não vai ter nem jeito de lastimar, nem com muita lástima vai dar pra se consolar.

11 – “Explorar sem atingir árvores sedentárias.”

Gostaria de conhecer as árvores sedentárias da Amazônia. E, com certeza, deve haver muitas, já que elas ficam lá, paradas naquela boa vida, só dando frutos e esperando chegar os passarinhos e outros bichos para espalhar suas sementes por aí.

Árvores sedentárias é um novo adjetivo espetacular para árvores. Manoel de Barros, que sempre quis ficar em estado de árvore, talvez tenha querido dizer árvores sedentárias.

12 – “Os estrangeiros já demonstraram diversas fezes enteresse pela amazônia.”

De fato, os estrangeiros são mestres em demonstrar fezes fora de seus países…

13 – “A floresta amazônica não pode ser destruída por pessoas não autorizadas.”

Concordo, porque é exatamente isso que acontece.

14 – “Retirada claudestina de árvores.”

Neologismo: mistura de claudicante com clandestina; ou seja, a retirada das árvores é coisa de gente claudicante, que apresenta imperfeição, falha, deficiência, além de ser clandestina.

15 – “Temos que criar leis legais contra isso.”

É isso mesmo, as leis têm que ser legais, bacanas, lei sacana que termine incentivando a exploração claudestina não vale.

16 – A amazônia está sendo devastada por pessoas que não tem senso de humor.”

Realmente, quem está destruindo a Amazônia não tem o menor senso de humor. Ou alguém acha que tem?

17 – “A cada hora, muitas árvores são derrubadas por mãos poluídas, sem coração.”

Essa não é pura poesia?

18 – “Vamos gritar não à devastação e sim à reflorestação.”

Essa ficou entusiasmada com a possibilidade da rima, que dava mais força às palavras de ordem. Vamos usar na próxima manifestação (ou talvez a gente deixe pra Marina, nossa candidata “ecológica”.

19 – “Uma vez que se paga uma punição xis, se ganha depois vários xises.”

Por que não? O plural de nariz é narizes; o plural de xis, é xises e se uma punição xis não resolve, melhor uma punição xises.

20 – “A natureza está cobrando uma atitude mais energética dos governantes.”

Está mesmo. Se os governantes não tiverem uma atitude mais energética, mais cheia de energia, a natureza vai dar o fora!

21 – “O povo amazônico está sendo usado como bote expiatório.”

Na Amazônia, com tantos rios, é mais sensato que o povo esteja sendo usado como bote expiatório. No Nordeste, seria bode expiatório.

22 – “Na floresta amazônica tem muitos animais: passarinhos, leões, ursos, etc.”

E tem também o boto cor-de-rosa, o saci-pererê, a curupira, a iara, o boitatá, a mãe d’água, a mula sem cabeça e qualquer animal que nossa criatividade quiser inventar.

23 – “Na cama dos deputados foram votadas muitas leis.”

Sábia a criança, heim? Na pena do Millôr Fernandes, ia matar muita gente de rir.

24 – “O que vamos deixar para nossos antecedentes?”

É, do jeito que está, não vamos ter nada para deixar pros nossos descendentes. A pergunta, então, já traz em seu bojo a resposta. A única esperança ficou lá nos antecedentes, porque pros descendentes não vai sobrar nada.

25 – “A fiscalização tem que ser preservativa.”

Preventiva, preservativa, tudo vai para o mesmo lugar: não deixar que aconteçam surpresas desagradáveis.

26 – “Não podem explorar a Amazônia de maneira tão devassaladora.”

Neologismo dos bons – devastar com avassalador: devassalador.

Pois é. Eu gostaria mesmo é que a Amazônia não fosse explorada de forma tão devassaladora e claudestina e que os políticos, porque na cama, créu!, aprovassem leis de forma mais preservativa, já que as leis criadas até agora, com raras exceções, não são legais.

Senão, só vão sobrar árvores sedentárias nas fotos dos nossos antecedentes e vamos perder a oportunidade de ver animais na mata, sempre com comida e dormida: a iara, o boitatá, os ursos, a mãe d´água, animais não extintos e também extintos, da forma que nossa imaginação mandar.
Quem está destruindo a Amazônia tem mãos poluídas e ausência de coração e não tem, é claro, o menor senso de humor, deve ser porque fica sempre lambendo a caca dos estrangeiros. Vamos gritar não a devastação e sim a reflorestação, porque só assim teremos e tão almejado oxigênio para nossa vida eterna.

*Marina Procópio de Oliveira é poeta e escritora itabirana. Mora em Belo Horizonte

 

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