Pelo fim definitivo dos hospitais psiquiátricos, não ao retorno do sistema manicomial

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Ana Carolina Drumond Couto*

Ontem, segunda-feira, 18 de Maio, foi uma data histórica que simboliza a importância da Reforma Psiquiátrica Brasileira (RPB) e pontua que a luta antimanicomial e a desinstitucionalização não acabaram, já que os hospitais psiquiátricos ainda existem no Brasil e no Mundo.

Pelos seus termos legais, a RPB coloca o nosso país em destaque no cenário mundial diante dos avanços nos direitos das pessoas com transtornos psíquicos, pelo modo de cuidado centrado na atenção psicossocial por meio da liberdade, do autocuidado apoiado e da cidadania.

Além disso, foi a RPB que abriu as portas para a criação do nosso Sistema Único de Saúde (SUS), com a redemocratização do país que pauta a importância da garantia dos direitos sociais e políticos à população.

Atualmente, o dia 18 de Maio é uma data que precisa de mais destaque frente às últimas reformas da Política Nacional de Saúde Mental deste governo, que ferem diretamente a vida das pessoas que têm transtornos psíquicos.

A nova política, que de nova nada tem, financia o retorno do sistema manicomial, onde há restrição da liberdade, e das comunidades terapêuticas, que prezam pela abstinência como forma de cura, rompendo com as diretrizes de humanização do cuidado, da assistência viabilizada pela articulação em rede multisetorial e intersetorial, guiada por uma perspectiva da liberdade e de apropriação da cidade.

Sendo assim, é importante nos conscientizarmos sobre o contexto político-assistencial atual, ampliarmos os nossos olhares para as pessoas que serão diretamente afetadas e nos unirmos para que esses retrocessos não se perpetuem como política de atenção à saúde mental.

Itabira tem um histórico de pioneirismo na criação da Rede de Atenção Psicossocial, o que coloca a cidade em um contexto que caminha para a desinstitucionalização, um ponto-chave para a garantia da dignidade dos usuários e usuárias dos serviços de atenção psicossocial. Leia também aqui.

Obviamente, é um processo disruptivo de lutas e conquistas dos movimentos populares, das trabalhadoras e trabalhadores de saúde, das usuárias e usuários e das famílias.

Na cidade, a rede de cuidado articula-se – ou deveria se articular – entre o Centro de Convivência Interagir, o Centro de Atenção Psicossocial II, o CAPS Álcool e Drogas, o CAPS Infantil, os leitos psiquiátricos no Hospital Nossa Senhora das Dores e toda a rede de Atenção Primária à Saúde.

Rede essa que se mantém pelas mãos e corações de todas as trabalhadoras e trabalhadores que se dedicam a construir um cuidado qualificado.

É assim que doam, além dos seus saberes técnicos, seus saberes políticos e a capacidade de afetação com a imensidão do outro e da outra.

“O que melhora o atendimento é o contato afetivo de uma pessoa com a outra. O que cura é a alegria, o que cura é a falta do preconceito.” Nise da Silveira.

*Ana Carolina Drumond Couto é terapeuta ocupacional, especialista em Atenção Primária à Saúde.

No destaque, pacientes no pátio do hospital Colônia, em Barbacena (Foto: Luiz Alfredo/O Cruzeiro)

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Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Joana d'Arc Torres de Assis on

    Vejo em Ana Carolina, minha sobrinha neta, a graúda presença de uma guerreira. Algo que, aliás, poderia surpreender a alguns que a conhecem no dia a dia itabirano, por ser ela pessoa meiga e atenciosa. E talvez seja, esse aparente contraste, a sua maior força nesta causa a que se dedica, na qual só têm ingresso real os mais ousados também no campo do sensível, a exemplo da sua mestra de ideal, Nise da Silveira. Cumprimento-a, Carol!

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