Para não dizer que não falamos de girassóis, livros e poesia

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Nathalia Gontijo Cançado Araújo*

Ontem quando soube do resultado das eleições fiquei extremamente vulnerável, comecei a me organizar, mochila, sandálias, tive um ápice de raiva e discussão com quem amo muito, e sai de perto dos meus.

No meio a raiva e tristeza fui ao colégio eleitoral e fiquei ali, vendo aqueles vários resultados parciais, onde aproximadamente 2/3 dos eleitores da minha cidade natal, Bom Despacho, votaram no Bolsonaro. Se tem um sentimento que me arrebatou, para além da tristeza, dor ou qualquer outro, que também senti naquele momento, foi a sensação de estar IMPRESSIONADA.

Eu fiquei IMPRESSIONADA! Eu estou ainda impressionada. Conversei com muitas pessoas ao longo dessme tempo, a maior parte das pessoas que declarava apoio ao tal se diziam apolíticos. Não gostam de política. Não queriam se envolver com política. Querem mudança. E decidiram agora entrar como propagadores de uma possível mudança na qual eu só vi campanha de ódio.

Caminhada das mulheres em Itabira na campanha eleitoral (Foto: Carlos Cruz)

Quando em conversas os argumentos acabavam, muitos faziam sinais de armas e em algum momento dessa repetição eu comecei a gritar: uma, duas e outras vezes mais, como braço esticado, mão aberta: “parem de nos matar, virem suas armas, não apontem para mim nem para os meus. Os meus são as mulheres, são lgbt, são negros, somos todos nós.”

Em geral as pessoas não esperavam aquela reação, nem eu esperava que me empoderaria ao ponto de elevar minha voz e força daquela forma, mas sempre minha gente, sempre em momentos em que eu senti segurança em fazer isso, entendem?

Mas agora, eu me pergunto. Onde erramos? Em que nós poderíamos ter feito diferente para que nosso povo tivesse mais esperança na educação do que nas armas? Com quais argumentos poderíamos explicar a quem não gosta de política que não se trata de futebol? Ganhar e perder? E que a decisão impacta no coletivo do país?

Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Como poderíamos ter explicado mais e mais que ódio disseminado ao pt estava intimamente associado às políticas públicas voltadas para os grupos mais vulneráveis?

Sim, meu povo, várias críticas, mas vocês veem que nossa pouca capacidade de clareza nos levou a um ódio idiota e que agora estaremos todos em uma situação tão deplorável politicamente?

Não estou orgulhosa de sair de perto dos meus amigos quando explodiu a notícia. Fiquem perto dos seus, cuidem-se uns aos outros, amem-se. Mas eu vou contar para vocês que enquanto eu sentia tudo isso, não vi um cidadão de bem comemorar com alegria sua vitória.

Vi uns carros buzinarem, vi umas pessoas gritarem dos seus prédios, vi até uma pequena criança segurando uma camisa da seleção brasileira, mas não vi felicidade, não vi sentimento de contemplação, de vitória. Pareceu mais uma vitória amarga, mas enfim…

Fui ao bar onde sempre vou, tomei uma água, fumei um paieiro. E vi meu candidato a presidente Haddad cercado por seus companheiros, mesmo com a derrota vi eles manterem a cabeça erguida e até sorrirem, vi Manuela com sua criança no colo com carinho no afeto e firmeza no olhar.

A televisão estava sem som, não ouvi uma palavra, mas me reconheci naquele ato. Eu sei que se tivéssemos vencido a eleição pela democracia a festa teria sido linda, mas é o que tivemos para ontem.

Para hoje é lavar a cara, continuar a caminhada, manter nossa segurança e sorrir a cada possibilidade, resiliência e resistência. Vamos fazer nosso melhor na construção deste mundo mais justo e solidário que queremos, porque estamos na transição de um presidente golpista #foratemer para outro pior #elenão #elenunca.

Vamos permanecer vivos! A semente antifascista foi lançada! Para quem votou no Bolsonaro lidem com o que fizeram, examinem suas consciências, decidam-se se gostam ou não de política e não deixem que o assunto se torne tabu, conversem sobre o assunto quando possível, não deixem o assunto retomar só nas próximas eleições.

Para os mais velhos, escutem as meninas e os meninos que vocês criaram, que vocês estudaram com tanto sacrifício, e que voltam pra casa trazendo novas formas de pensar.

Entendam que nós mulheres somos novas protagonistas de nossas vidas e que quando voltamos ao interior depois de estudar, queremos que todos os nossos tenham iguais direitos de educação pública de qualidade.

Para nós trabalhadoras da saúde queremos saúde pública 100% estatal para soberania do nosso povo, saúde integral e universal. Queremos políticas públicas feitas com seriedade, organização, queremos combater a fome e tudo de ruim que tem aí nesse mundão brasileiro, com muito direito humano pra nosso povo.

Para nós, acredito na revolução popular brasileira e nossas armas serão poesias, músicas, flores, bicicletas e muitos livros. E para você? O que não pode faltar na revolução brasileira popular?

*Nathália Gontijo é terapeuta ocupacional, bom-despachense. Trabalha em Itabira, na equipe de saúde mental do Caps

Sobre o Autor

5 Comentários

  1. Ahhhh… Compreendo muito bem cada linha desta cronica. Ontem dormi mal. Hoje eu estou muito triste também porque não consegui mostrar às pessoas o que eu estava vendo. Mas eu não vou julgar ninguém que não tenha conseguido me ouvir. A surdez de hoje é resultado de muita mágoa, indignação, dor e muito descaso. Ser brasileiro não é fácil não. A grande revolução será sair dessa ressaca pra viver o que mais vale a pena nessa vida. Não poderá faltar a família, os amigos, um bom vinho e uma boa prosa. Afinal a regra de ouro dos próprios políticos é: te escracho aqui e te dou tapinha nas costas ali”. Vai depender da situação. E a gente? Vamos definhar? Não! Vamos continuar vivendo, amando e dizendo o que pensamos. Esses quatro anos serão a escola que faltou pra muita gente. Incluindo acredito que será escola para as esquerdas também. Todo mundo vai ter que se reinventar.

  2. Moisés Damião de Souza em

    Obrigado, Nathalia. No geral senti foi nojo, nojo do nosso país eleger essa figura grotesca e nojo de “amigos” que cometeram essa burrice. Mas suas palavras dão lenitivo à minha dor, come pede a musica, e por isso agradeço.
    Moisés!

  3. Cristina Silveira, A Velha Vermelha em

    Nathalia, a reação é ato importante. Você tá certa pois o o justo é o certo. Mas te falo uma coisa: revolução só se faz com armas, único recurso pra espalhar poesia, bicicletas, bolas e a alegria pra Vida Boa. Abraço você Reagindo #ELE NÃO.

  4. A revolução acontece. Na periferia o Estado é violento e autoritario. Bolsonaro vai intensificar. Revolução é com os jovens das periferias ! Ótimo texto, triste realidade..

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