Para Karl Marx, tudo que é sólido desmancha no ar

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Veladimir Romano*

Muitas têm sido as celebrações mundiais durante este mês de maio. A primavera do hemisfério norte começa e lembranças renascem de momentos históricos que não podem ficar reservados aos arquivos com apontamentos mergulhados na poeira. Depois da Primavera revolucionária de 1968, que abalou a Europa e mexeu com o mundo, mês de maio é sinônimo do nascimento de um dos grandes filósofos, personagem humano dos mais empenhados, fascinantes, inteligentes – um humanista que dedicou toda a sua vida pelo bem social, pensador nato da dimensão das injustiças praticadas numa época ainda saboreando resquícios escravocratas. Uma realidade que persiste contemporaneamente com baixos rendimentos limitando crescimento, desigualdades através de parcos salários que afetam qualquer expansão, inclusive do desenvolvimento do produto interno de sociedades submetidas a fórmulas com efeitos financeiros repressivos.

Karl Marx: há duzentos anos decifrando o capitalismo. No destaque, destemida menina enfrenta o touro de Wall Street, em Nova York (Fotos e ilustrações: Google)

Analisando o comportamento social do homem quando este se subordina a certas condições e se vê compreendido ao serviço das vontades influenciadas na força do capital resolvendo subscrições de um sistema, de pouco serve ter a fonte dos recursos; no entanto, a consciência, permite, por outro lado avaliar capacidades como identificar o manifesto da outra natureza desse mesmo homem e assim descobrimos que o trabalho e o trabalhador são a primeira ação entendida idos daqui ao coletivismo, interajuda, diagnóstico político, responsabilidade; tudo numa importante contribuição primeiramente solidária desta corrente humana tendente ao progresso e ao bem-estar social para todos.

Marx com Engels, inseparável amigo e parceiro intelectual

Levando na consciência a capacidade de avaliar o seu estado comportamental, entre capacidades destacamos: perseverança, tenacidade e raciocínio, permitindo identificar propriedades essenciais, tanto como ativas massas trabalhadoras numa avaliação necessária dedicada ao crescimento da riqueza social, fornecimento científico, força unida das ideias, sentimento pela arte, estados de espírito únicos em norma comportamental a qualquer instante, capazes de aliarem energias proletárias dentro da alma combativa. Com isso se criou a “Conferência Democrática” no início do século XX, logo aproveitada, monopolizada pelo sistema capitalista.

Como diria José Gomes Ferreira [1900-1985], jornalista, cronista, escritor, poeta e diplomata lusitano: «Apenas os cérebros humanos governam este pequeno universo onde vivemos e nos torna mais responsáveis diante de nós mesmos» [em “Sabor das Trevas”]. Como difere a filosofia teórica depois colocada na prática quando Karl Marx [1818-1883, em Trier, antiga Prússia, hoje Renânia com 115 mil habitantes] afirmou para alguns considerada ideia “vaga”, dizendo “maximizar utilidades”, referindo-se ao termo técnico aplicado na linguagem mercantil: “aumentar fortuna”… como se riqueza material fosse objeto de qualquer virtude.

Karl Marx nem diria porque antes dele Adam Smith o disse… «A opulência dos ricos pressupõe a indigência da maioria». Dentro do seu arguto compreender, examinando energias da composição capitalista, diferenciou seus pontos críticos entre conexões de continuidade acumulativa mas sem efeitos benéficos ao todo composto pelo serviço prestado. Resumindo, benefícios sempre caindo a um só lado da balança demonstram que o capitalismo não apareceu espontaneamente, como nem a formação do ideal socialista nasceu por qualquer casualidade.

Podemos rebuscar mil tentativas semânticas ou esboçar toscas narrativas sobre este processo, mas é indispensável esclarecer como a base feudal ainda resta nos fundos, resistindo à fragmentação aventureira e dos efeitos subversivos não somente financeiros mas inclusive políticos que dominam e minam o mundo desde uma calculada ascensão generalizada do capitalismo, envolvendo dúvidas suficientes, mas adornando de bonitos momentos foi conquistando seus adeptos.

A visão gradual analisada pelo saber de Karl Marx, levou-o a subir fasquias de uma moralidade rara. Estudioso deste fenômeno, sofreu na própria pele a partir do seu lar quando os pais o expulsaram da família [pai alemão, mãe holandesa]desconsiderando este filho que viria a ser uma das pessoas mais influentes da história humana, pela sua retidão esclarecida sobre a vida dos burgueses, gente da qual ele mesmo descende e se mal foi com familiares, pior ainda com vários países, incluindo a sua Alemanha, quando o perseguem e expulsam [idem na Suíça, Holanda e França].

Não fosse a Inglaterra o piso certo das suas observações olhando como este pedaço europeu se desenvolvia em valor acelerado, augurava-se nova era industrial quando ao papel passaram observações marxistas sobre esta força, nascendo uma obra que ainda hoje não se encontra na sua totalidade traduzida em virtude dela ser extensa, abranger todas as áreas sociais e das mais complexas. “Das Kapital” [O Capital], compõem-se de 250 volumes, estando apenas disponíveis três volumes nas mais diferentes línguas, dando uma boa ideia do que realmente Karl Marx deseja transmitir, ensinar, esclarecer com a exigência de um pensador que ao mesmo tempo constrói ideias dentro da revolução a curto, médio e longo prazo.

Com a existência de Karl Marx, rompe-se o claustro do capitalismo, profecias, inumeráveis anomalias sociais e a temida reverência a quem detinha o privilégio financeiro, mercados e orientações básicas. Importante foi o amanhecer sindicalista como resultante de escaramuças civis, influência do clássico relato discutido pelo sistema ao não aceitar ceder direitos e monopolizar obrigações: ordenar e organizar regras estáticas do sistema, caíram quando os primeiros acordes marxistas se fizeram sentir.

Ao testemunhar as condições laborais nas usinas ou fábricas inglesas, o nível desenfreado e poluente com efeitos danificadores nos operários e trabalhadoras, como no ambiente; “O Capital”, não deixa fugir esta oportunidade e tão atual como no presente, indicações, críticas, sugestões incluindo estudos atentos, imaginam uma sociedade capitalista em declínio ambiental destruindo processos ecológicos conquanto uma sociedade configurada na desgraça consumista, agressiva, incompatível consigo própria ausente de bom senso e gradualmente fragmentada.

Se o autor de “Das Kapital” pudesse assistir ao mundo de hoje, diria certamente repetidamente… «Eu bem vos avisei; mas, alguém leu minha obra na sua completa e dispersa edição?». Sim, ao encarar escritos de Karl Marx logo se depara com a condição do profundo pensador, reformista, frontal, e sem esforço, o completo destemido permanente revolucionário, nunca teria acontecido.

Não será por obra casual que a China na comemoração dos 200 anos do nascimento deste, que uma estátua bem expressiva em pedra com mais de dois metros quer perpetuar na terra natal de Karl Marx esta figura da história mundial. Personagem dos mais eloquentes discursos sobre o proletariado, inspirador a outros não menos históricos que possivelmente não teriam chegado tão longe, acaso Karl Marx não tivesse existido, separado e disciplinado o comportamento de toda a dinâmica funcional da economia no seu geral contexto.

O seu poderoso testemunho de uma época extraordinariamente sensível na viragem do século por entre avanços tecnológicos mas mantendo periferias subdesenvolvidas, indicou poderes da exploração e daqui o crescente abismo entre países ricos e pobres ou aqueles que sendo de certa maneira ricos, continuam pobres, endividados e perdidamente corruptos.

Os efeitos colaterais de épocas diferenciadas do capitalismo são desde muito tempo conhecidos, contraditórios, programador de déficits, criador de inflações e depressão, verdadeira fonte de trabalho mas igualmente destruidor de empregos, saqueador dos bens alheios, e rei em processos de acumulação. Gera-se riqueza na criação da miséria.

Dois séculos depois ao seu nascimento, a figura, pensamento e a queda revolucionária de Karl Marx, continuam e estão tão vivas como no seu primeiro dia. Antecipar o futuro ninguém consegue, mas apela a nossa atenção esta contaminada situação global em que a minoria bilionária estagna o mundo a belo prazer, provoca declínio calculado apenas como estratégia dominante, controlando crescimento, metas consumistas da produtividade; vendo bem, a expansão capitalista criou obediência democrática favorecida em fundamentos ditatoriais. O Capitalismo é uma política centralizada embriagando a sociedade predominantemente estratificada.

Fica a sociedade proletária consciente como então ficou Karl Marx que o Estado ao limitar-se na sua autoridade, entregou as regras deste jogo ao poder privado imiscuindo este por falsas e mais tarde marginais atividades fornecedoras das tão bem conhecidas crises, promiscuidade cultivada, construção de grupos elitistas, adulteração de regras e abuso de poder. Esvazia-se o dever de proteger, obras públicas frequentemente atrasadas ou adiadas para sempre e garantias constitucionais corrompidas no ato de cada avanço político dos donos do dinheiro sobre ordens sociais.

Deste modo, atual continuará Karl Marx e de admirar na sua estrutura mental, tal poder observador onde leu muito bem à frente de bastantes outros, a presença dos alicerces privados impunemente vulgarizando o trabalhador/a no modo da organização econômica por entre ligações onde vive também a uma estrutura mental amante da liberdade e do progresso, a força motriz das mãos e braços de milhões de trabalhadores.

Assim, “Das Kapital” [o primeiro volume sai em 1867 e em 1872 a primeira tradução para francês], é uma revelação sobrevivente aos tempos, tal como o é o seu legítimo autor, tendo nós este privilégio ainda que sumariamente ter conhecido uma pequena parte, então fica-nos a responsabilidade de lhe dar defesa e continuidade; é a luta do proletariado contra a burguesia.

Tristeza aos indiferentes perante tamanha inquietude, intensidade das injustiças cada vez maiores como ameaça expressa tanto das legislações repressivas como pela convicção da inércia de quem governa sem vitalidade nem ideal, colocando em risco sério uma convicta contribuição para a paz mundial. Bom lembrar como o capitalismo pariu seu filho bastardo bem conhecido pelo apelido de Fascismo.

A vassalagem da servidão em pleno século XXI vem sendo a mais direta manifestação de como processos capitalistas já entraram na sua derradeira derrapagem; adiante em transformação, da Ásia chegam notícias do Partido Comunista Chinês ultrapassando metas capitalistas, mas comprometendo dissolução da pobreza até 2030 em toda a China. Será pela primeira vez o alcance da igualdade social e ampliação geral da cidadania em nação mais populosa do planeta. Talvez igualmente por isso tenha sido das que mais comemorou e maior dignidade deu aos 200 anos comemorativos do nascimento de Karl Marx, dando nova diretriz ao capitalismo do século XXI.

A última opinião sobre a obra marxista chega-nos da insuspeita Inglaterra, diretamente do parlamento britânico onde um dos seus mais conhecidos interventores, John McDonell, se refere na sua opinião… «There is so much to learn from reading Karl Marx´s Das Kapital» [Há muito que aprender lendo O Capital de Karl Marx]. Nem o bom de António Vieira com toda sua grandeza consegue alcançar latitudes iguais quando escreveu “História do Futuro”, publicado em 1718.

Veladimir Romano é jornalista e escritor luso-caboverdiano, colaborador deste site Vila de Utopia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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