Panorama sócio econômico de Itabira do Mato Dentro no século XIX

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Maura Silveira Gonçalves de Britto[1]

O desenvolvimento sócio econômico da Itabira do Mato Dentro ao longo do século XIX há muito tem sido negligenciado pela historiografia local. Presos a interpretações de viajantes europeus que estiveram na região no período e a uma visão historiográfica predominante até a década de 1980 que dava por certa uma situação de estagnação e decadência econômica em função da diminuição da extração aurífera, a maioria dos relatos existentes poucas vezes buscou elementos para sua construção em fontes cartoriais e relatórios administrativos do oitocentos.

Atentos a tais aspectos da estrutura produtiva de Minas Gerais no século XIX, buscamos nos inventários, nos dados do relatório de 1855 e do recenseamento de 1872 elementos que nos permitam caracterizar economicamente as Minas do Ferro. Tentaremos identificar qual a importância das atividades agropecuárias, se eram subsidiárias ou coexistiam em grau de importância à produção e transformação do ferro.

Um breve panorama das principais atividades de cada um dos distritos do Município de Itabira temos ao observar as considerações feitas pelo Juiz Municipal de Itabira em reposta ao inquérito provincial de 1855.

A partir desses dados, nota-se tratar de um núcleo populacional em que os lucros advindos da mineração ainda são significativos em uma parte das lavras em exploração. Outras já apontam para o esgotamento.

Mas o esgotamento aurífero de parte dessas minas abre-se em outra possibilidade, por ser seu solo aurífero e ferrífero, como destacado no início da descrição. Ao mesmo tempo, vê-se grande articulação mercantil, tanto dentro da Província de Minas quanto inter-provincial, destacando-se a importação de gêneros da praça do Rio de Janeiro. Um quadro que nada se assemelha a visão de declínio e estagnação recorrente entre os memorialistas itabiranos.

O quadro que surge a respeito do município é de uma economia mineradora (de ouro e ferro), cuja exploração ainda oferece bons resultados e prevê um “futuro lisonjeiro” – pelo menos são essas as expectativas do Juiz Municipal para a Cidade de Itabira.

Identificam-se também nas circunvizinhanças algumas áreas de produção agrícola e agropecuária. Ao que informa o relatório do juiz municipal essa produção agropecuária tende a abastecer o comércio local, embora não seja capaz de eliminar por inteiro a necessidade das importações.

Mas mesmo essas importações, apontam para a existência de redes mercantis ativas dentro da Província, confirmando a tendência á sua diversificação econômica no século XIX.

Outra fonte que nos permite identificar os aspectos econômicos de nossa região de análise faz parte do já referido relatório do Juiz Municipal de Itabira ao Presidente da Província, de 1855. O mapa demonstrativo do Município, além de dados censitários, oferece também informações acerca do número de casas de negócio, engenhos (de serra e de açúcar, movidos por água e por boi), tavernas, lojas, enfim, um conjunto de estabelecimentos que nos permitem observar o grau de beneficiamento de produtos e de ralações comerciais do município.

A relação dessas casas de negócio e engenhos presentes no município de Itabira no ano de 1855 está representada na tabela 1:

Fonte: Arquivo Público Mineiro, Seção Provincial. Mapa Demonstrativo das Freguesias, Quarteirões, Lojas, Boticas, Tavernas, Engenhos e mais como do mesmo se vê pertencente ao Município de Itabira que presta o Juiz Municipal do mesmo Município á Excelentíssima Presidência da Província. 1855. SP 570 [403].

Mais uma vez, está posta a questão da diversificação econômica. O grande número de fazendas de lavoura e de criação de animais demonstra a importância da agropecuária para a região, mesmo com a manutenção da atividade mineradora e o desenvolvimento das forjas.

Dessas fazendas sairiam os produtos agrícolas a serem comercializados nos armazéns e lojas, que também importavam de outras regiões da Província e mesmo do Rio de Janeiro, como já apontado no mesmo relatório.

Os animais de gado vacum e muar têm sua importância evidenciada também no tipo de motores predominantes nos engenhos de serra e de açúcar listados, onde a utilização de boi como força motriz é maior que os engenhos movidos a água em todos os distritos do município.

Impressiona também o grande número de tavernas existente na cidade de Itabira, mesmo sendo este um grande núcleo populacional. O que demonstra a importância do beneficiamento da cana-de-açúcar para o comércio local, uma vez que a aguardente era um dos principais produtos comercializados neste tipo de estabelecimento.

A presença das fábricas de ferro descritas evidencia mais uma vez o que seria o diferencial dessa região para o quadro de diversificação apontado para o restante da Província.

As fundições e forjas ali existentes poderiam diminuir a necessidade da importação de ferro para esta área, assim como fornecer instrumentos a menor custo para as fazendas de cultura e de criação de animais da região. Somente na cidade de Itabira, constam 16 dessas fundições, destacando a importância dessa atividade para sua economia.

Mineração de ouro de aluvião (Fonte: https://www.achetudoeregiao.com.br/mg/itabira/gifs/acidade.jpg

No que se refere a estrutura populacional, os números totais para a população do Município de Itabira, no ano de 1855, indicam a presença de 30.106 habitantes, entre livres e escravos.

Na Cidade de Itabira, há certo equilíbrio entre os números relativos à população do sexo masculino e feminino, com pequena maioria de mulheres (3.697 homens para 3.844).

Como esta população não está dividida entre brancos, pardos e negros, conforme feito no censo de 1833, não podemos afirmar as proporções desses segmentos, mas podemos levantar algumas questões.

Embora o equilíbrio das razões de sexos já pudesse ser observado em 1833 entre a população branca e entre os pardos livres, para os dados de 1855, o fim do tráfico internacional a partir de 1850, com a Lei Euzébio de Queiroz. pode ter acentuado essa tendência.

Considerando o que diz a bibliografia, poderíamos atribuir esses números às características comuns aos centros mais urbanizados. Paiva afirma que, para as áreas de ocupação mais antiga, como é o caso do Município de Itabira, há o predomínio das mulheres entre a população livre.

Isso pode indicar uma participação de pardas e negras livres na proporção final dessa população. Contudo, o fato de a população livre estar descrita em conjunto dificulta maiores conclusões.

Ao compararmos os índices da cidade com as demais freguesias, observa-se certa similaridade entre os números de homens e mulheres na maioria das áreas. Embora com uma diferença pequena, as mulheres são a maior parte da população livre em praticamente todas as freguesias do município de Itabira. Difere deste quadro apenas a freguesia de São José da Lagoa, onde o número de homens é bem maior que o de mulheres (1.208 homens para 774 mulheres).

Entre os escravos, há maior proximidade entre os números de homens e mulheres. A maior diferença encontra-se na freguesia de São Domingos do Prata  (onde os homens compreendem 585 indivíduos e as mulheres 458; uma diferença de 127 indivíduos do sexo masculino).

Embora não possamos identificar esses escravos entre africanos e crioulos para os dados de 1855, o equilíbrio das razões de sexo aponta para um quadro que apresenta condições mais favoráveis para a possibilidade de reprodução natural da escravaria. O que pode ter sido favorecido pelo fim do tráfico internacional.

Os dados do recenseamento de 1872 apresentam para o total da população da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Itabira, 7.810 habitantes. Não se trata da população do município, mas de sua sede, na cidade de Itabira. Entre os livres, aponta um total de 5.989 (3.051 homens e 2.938 mulheres), entre brancos, pardos, pretos e caboclos. A população escrava, distribuída entre pardos e pretos compreende 1.821 indivíduos (1.019 homens e 802 mulheres).

Ao contrário do quadro apresentado no início do século, vê-se que a população desta paróquia é, em sua maioria, composta por homens e mulheres livres, entre os quais, podemos identificar 1.467 pardos e 515 pretos. Nota-se que a possibilidade de alforrias aí se faz presente.

Como não temos a distribuição etária dessa população de cor entre a camada dos livres, não podemos afirmar ainda a que se deve tal processo. Se resultado da legislação que ao longo do século tendeu a conceder a liberdade a crianças e idosos, como as Leis do Ventre Livre e dos Sexagenários, ou se fruto da possibilidade de compra de alforria que a vida na cidade permitia a esses escravos.

Sobretudo aos que estivessem envolvidos no trabalho nas forjas. Sobre essas atividades de transformação do ferro entre escravos e libertos, e as formas de transmissão e aprendizagem do ofício de ferreiro, falaremos em outro texto…

[1] Maura Britto é nascida em Itabira, filha de Antônio Aluízio Gonçalves (o falecido professor Aluízio) e Rosa Angélica Silveira Gonçalves. Reside hoje na cidade de Ouro Preto, onde leciona na educação pública e é Doutoranda em História pela Universidade Federal de Ouro Preto.

 

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