Os velhos e o mar

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 Marina Procópio de Oliveira*

Estou pensando numa possibilidade terrível; talvez a gente volte a viver numa ditadura.

E se a gente tiver que viver em uma, penso que teremos que estabelecer algumas regras de civilidade para quem já esteve nesse lugar, agora se encontra em idade avançada, mas não abre mão de lutar por seus direitos e por um futuro digno.

Então, pensei, pensei e cheguei a seguinte proposta. Vamos usar o Estatuto do Idoso! É do idoso guerrilheiro o direito de dar o primeiro tiro ou facada, de se esconder nos melhores esconderijos e de permanecer na linha de trás. Ele também tem que estar na frente na fila do rango. Ou talvez seja melhor que ele fique em casa, contando histórias para os filhos dos jovens libertários e, nessa condição, será totalmente proibido que ele seja obrigado a correr ou tomar qualquer atitude rápida.

Eu sei que o destino do  ECA é o de ir para a latrina, mas eu proponho que o Estatuto do Idoso continue valendo, em defesa de um mínimo de civilidade para quem já chegou na terceira idade e já viveu uma ditadura; logo agora, que a gente ia começar a viver na (limitada) tranquilidade da terceira idade e ia usufruir do Estatuto, será que também vão querer rasgar? Pelo menos ainda não falaram disso, o que me dá uma certa esperança. Afinal, no artigo 40 do Estatuto está garantido que nenhum idoso pode ser objeto de violência, crueldade ou opressão e que todo atentado a seus direitos será punido na forma da lei.

Eu sei que o Estatuto do Idoso jamais foi cumprido, também já foi pra latrina, mas numa guerra a gente podia decretar, como eu direi, um “Estado do Exceção” e fazer o Estatuto do Idoso valer, como uma possibilidade de manifestação política dos sessentões e daí pra diante.

Afinal, o candidato da direita com certeza já chegou lá. Então fazer valer o Estatuto do Idoso, mesmo na guerra,seria garantir a ele mesmo seus direitos. (Será um argumento convincente?)

Não é pedir muito. Já entramos perdendo. Mas não podemos passar em branco. A não ser que já estejamos com Alzheimer, aí já esquecemos mesmo tudo o que a ditadura representou, quando direitos foram jogados na latrina, como a ditadura era uma latrina. Bem suja. Daquelas de rodoviária de interior sem água.

Mas se ainda estamos lúcidos, suspiramos fundo, muito fundo, e pensamos no que vamos fazer.

E minha proposta, então, é essa: vamos brigar para que nessa luta continue valendo o Estatuto do Idoso. Aí a gente vai fundo nessa guerra e talvez nossa participação seja até mais efetiva e importante do que na ditadura de 64 a 85.

Ainda mais se tivermos uma ajudinha de uma bengala metralhadora.

*Marina Procópio de Oliveira é poeta, escritora itabirana. Reside em Belo Horizonte.

 

 

 

 

 

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