Os três reizinhos

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Maria Julieta Drummond de Andrade

Assim como certo poeta inventou um Papai Noel às avessas, resolvi imaginar um Natal pelo avesso.

Organizei uma festa mínima e especial, só para três menininhos engraçados, cujo endereço conheço bem: moram juntos, há muitos anos, em meu coração, embora tenham (espero) outra casa, ou melhor, três, pois cada um deles há de estar vivendo dentro dos quase senhores em que, por arte do tempo, se transformam. Mas como, por parte do amor, este pode ser reversível – eis-me aqui às voltas com os meus molequinhos, que se chamam, digamos: Toto, Abiça e Gugu.

Os três aceitam o convite, sem hesitação, e chegaram limpinhos, cheirando a talco e sabonete Phebo, com as cabeleiras – duas douradas, uma escura – ainda gotejantes do infindável banho de imersão que gostam de tomar (de vez em quando). Nada de roupa domingueira: puseram os pijamas curtos e iguais, de algodão estampado, que a avó acaba de mandar-lhes, e que ela mesma coseu na máquina de pedal. Os mais velhos, de sandálias japonesas; o caçula, descalço, como sempre. Contemplo-os orgulhosa: como são bonitos, bem-feitos, nem gordos nem magros, intensos. Toto e Gugu têm olhos azuis; no rosto redondo de Abiça há uma covinha morena. São, ao mesmo tempo, diferentes e parecidos.

Tiro do armário a pequena árvore artificial de todos os anos e a caixa com bolas de aljôfar e fitas de lã colorida. Imóveis e deslumbrados, observam cada movimento que faço; subitamente decidem participar do jogo e se precipitam sobre os adornos, arrebatam-nos, discutem. Toto grita mais forte; Abiça é plácido e ardiloso; Gugu chora. Acabam se entendendo, e a árvore vai sendo composta com precipitação e prazer, enquanto fiapos de algodão desfiado completam a decoração.

Chegou a vez do presépio. Ganhei-o de presente quando fiz nove anos e, apesar de algumas figurinhas se terem perdido e outras estarem quebradas (falta uma pata do camelo, há ovelhas sem rabo, a própria Virgem ficou sem o nariz de papier mâché), ele continua enfeitando os meus Natais – este sobretudo. Os garotos se ajoelham em volta da cesta de vime, de onde vou retirando as peças, que reconhecem com exaltação.

Para evitar brigas, imponho autoridade: aceito sugestões, mas sou eu quem dará forma ao conjunto. (bem sei que daqui a pouco cada um deles mudará as personagens de lugar, os bichos, as casas, os anacrônicos palácios de madeira que não combinam com as outras peças, mas foram se incorporando imperceptivelmente ao conjunto.) Os meninos parecem cada vez mais ardentes, natalinos.

Os sapatos, depois, ao pé da árvore! Cada um vai buscar o par mais novo; Gugu traz botinhas brancas, cujas as pontas, arranhadas desde o primeiro dia de uso, não há alvaiade que possa recobrir. De agora em diante, será preciso esperar, e os três menininhos não primam – ai de mim! – pela paciência. Sugiro que cantemos, para tranquiliza-los. Acendo duas velas vermelhas e puxo o coro de Noite Feliz, que eles seguem, desafinados e sérios.

A expectativa é grande demais, entretanto, e os garotos pulam, se empurram, se beliscam, dão pontapés nas paredes, às gargalhadas. Essa agitação, que tantas vezes, antes, me deixou exausta, hoje não me incomoda – pelo contrário: rio com eles, e sinto vontade de acompanha-los nas cambalhotas, nas piruetas que executam com os seus reduzidos músculos de borracha. Como esses meninos me tornam feliz, que Natal mais encantador!

Papai Noel ainda vai demorar, jantemos primeiro. Sendo a noite de alegria, cada convidado encontrará na mesa o seu manjar predileto. De resto, os três são de paladar singelo: Toto pediu, de entrada, raviólis, e raviólis como segundo prato; Abiça quis doce de abóbora, doce de banana e bolo de fubá, tudo preparado por dona Dodô; Gugu exige apenas doce de leite comprado pronto, mas dos que se vendem em vidros, pois despreza esses que se grudam nos envoltórios de papelão.

Eu nem provo nada, de tal maneira me sinto alimentada pelo espetáculo dos três garotos que comem por comer, pois neles a emoção é maior do que a fome. Receiam não serem dignos de, em jejum, receber a visita que aguardam com a alma aflita. Tão pequenos (estremeço) e já submissos às angústias vitais, à dúvida, ao medo de serem defraudados. Temo de repente pelos três, e aflijo-me com essa aprendizagem que iniciam, em que todos os matizes das ansiedades futuras já se manifestam. Só que hoje é pura noite de Natal, e não cabimento (compreendo) para lamentações precoces.

Vamos dormir, está na hora! Ué, a festa acabou? Não, mas Papai Noel não entra em casa de criança acordada. Ninguém tem sono, todos reclamam, choramingam, imploram. Então deitem só um pouquinho e fechem os olhos bem fechados. Fica com a gente, fica. Não posso. Por quê? Para abrir a porta. Mas você não disse que ele era mágico, que passava pelo buraco da fechadura? Gugu põe na minha a sua mãozinha rígida de susto; o próprio Toto, que finge coragem, está tremendo; Abiça escondeu o rosto no travesseiro.

Saio devagar e, do corredor, ouço o cochicho disfarçado dos três. No outro canto da casa, escondidos na parte mais alta do armário, estão a pistolinha que passa cinema, a cadeira que solta fumaça, o robô prateado, a piorra musical, o velocípede verde em forma de automovinho, o chapéu de cowboy, as chuteiras de futebol, o violão que toca sozinho, a…

Pé, ante pé, volto, carregada para a sala. Paro, olho ao redor: e a árvore? e o presépio? e os meus três reizinhos magos? Todos sumiram, esconderam-se nesse lugar seguro onde os mantenho comigo sempre. Suspiro, sem maiores melancolias: afinal, qualquer Natal pelo avesso deve ser assim mesmo.

(In O valor da vida, de MJDA, Nova Fronteira, 1982, p.46)

 

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