Os três Andrades: o Oswald que amava o Mário que amava o Carlos

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Cristina Silveira, da sucursal Rio/Glória

Oswald o mais velho dos três deu a graça de sua presença em 1890. O Mario veio ao mundo em 1893, predestinado a caminhar e navegar pelo interior do país a conhecer os caipiras e, deles registrar a cultura, o folclore e principalmente a música. Os dois primeiros, nascidos na paulicéia desvairada e aquele Carlos iluminou as montanhas do Matto Dentro, em 1902.

Os três Andrades, filhos dos donos de terras sem fim das fazendas de campear gado, de lavouras de café, algodão e tudo mais que em se plantando a terra dá. O Mário, cosmopolita de nascença. O Carlos, quem diria, acabou em Copacabana. O Oswald rompeu o farpado das divisas e caiu na estrada rumo Oropa.

Os três ‘primos’ são cultos, educados e preparados para herdar fortuna e poder. Desviantes “abusaram da goiabada” e se fizeram fazendeiros do ar, três antropófagos.

Abre-Alas

Fotomontagem com os três Andrades: Carlos, Oswald e Mário (Fotos: acervo Cristina Silveira

Em 11 de janeiro de 1928, Tarsila do Amaral comemora o aniversário de Oswald, dando-lhe de presente uma das obras mais significativas das belas artes brasileira, o quadro Abapuru.

Em língua ancestral – Tupy-Guarany – abaupuru significa, antropófago. A imagem do pé gigante e o cactus, sem lhe fazer sombra, espinhou a Cobra Norato, inspirou Raul Bopp sugerir ao modernista inquieto a criação de um movimento em torno da obra de Tarsila.

Da observação e inspiração, criaram o Clube de Antropofagia e a Revista de Antropofagia (1928-29).

Rodeio de Estrelas

A história da “aferração mental” entre os dois Andrades foi contada pelo próprio Mário ao Sérgio Buarque de Holanda, que contou ao Antonio Candido, que relatou a peleja no ensaio, Digressão sentimental sobre Oswald de Andrade, incluído na 3ª. edição de Serafim Ponte Grande (1987).

CDA por Tarcila do Amaral

“Nos anos 20, Oswald encontrou Villa-Lobos na Europa e ficou surpreso com a deficiência da sua cultura [….] De volta, falou disto no salão de dona Olívia Guedes Penteado, dizendo que o grande compositor nos comprometia lá fora. E entrando pela exageração que o tomava quando estava em veia polemica, terminou afirmando que ele nem música sabia e era um ignorantão instintivo. Como alegassem que não tinha autoridade para dizer isto, retrucou mais ou menos:

“– Não sou eu quem diz. O Mário, que entende, falou que o Villa não sabe harmonia nem contraponto”.

As pessoas estranharam, lembrando que Mário dissera sempre o contrário. Oswald então foi mais longe e explicou:

“– Isto é porque não tem intimidade com vocês. A mim ele diz a verdade.”

[…] Um dos presentes não se conformou e telefonou a Mário, censurando sua dubiedade: como é que pensava uma coisa e dizia outra? Ele protestou e ficou danado. Saiu em busca de Oswald e, encontrando-o por coincidência na rua Quinze, chamou-o às falas. Mas o amigo o desarmou, retrucando simplesmente, com a limpidez risonha de seu olhar azul:

– “Eu menti!”.

Comidas

A consequência do petit moquém refletiu sobre a Revista de Antropofagia. Mário de Andrade desaderiu e nunca mais os amigos se falaram diretamente. Em seguida, do lado da amizade, o poeta Drummond também deixa de colaborar e tira um sarro canibal da antropofagia em carta publicada na edição 11, da 2ª. Dentição, em 19 de junho de 1929.

Cartas na mesa

Por Carlos Drummond de Andrade

Os Andrades se dividem

(o nosso colaborador Oswald de Andrade recebeu do sr. Carlos Drummond de Andrade, a seguinte carta, desaderindo).

Estou ciente de que você me conta na sua carta sobre a Revista de Antropofagia. Também estou ciente da Revista, que leio sempre no Diário de S. Paulo (a propósito: obrigado pela remessa do Jornal, que só posso atribuir a você). Agora o que me recuso a tomar conhecimento é da antropofagia em si. Não posso acreditar num movimento que conta com a adesão do Álvaro Moreyra e que ainda não jantou o Benjamin Péret. O primeiro por ser o mimoso escritor do “Para Todos” que nós bem conhecemos. E o segundo por ser supra-realista e francês. Ora, por muito menos o índio jantava um portuga.

Manifesto Antropófago, publicado na Revista de Antropofagia, datada de “ano 374 da deglutição do Bispo Sardinha”.

A Antropofagia não é, pois, um movimento decente. Nem é blague. Sinto muito, mas não posso aderir.

Num dos últimos números da Revista você escreveu que “os meninos” de minas precisam se decidir, literatura será questão de amizade? etc., etc.” Para mim toda literatura não vale uma boa amizade. Mas aqui não se trata de amizade, é pura literatura. Quando apareceu a primeira dentição da Revista eu já implicara com o título e lembro-me de ter escrito a respeito a alguém daí. E só me senti á vontade para colaborar nela quando verifiquei que o título não tinha nada com a direção liberal que davam à Revista.

Não posso, pois, colaborar na decida antropofágica. Não participo do estado de espírito índio e considero acadêmicas as discussões sobre os jesuítas.

Quanto aos outros “meninos” de Minas, cada um decidirá por si. O João Alphonfus concorda comigo e o João Dornas fundou o criolismo, cujo órgão oficial sairá no dia 13 deste.

[In: Revista de Antropofagia, n. 11, da segunda dentição, 19 de junho de 1929, p.1 /Consulta: BN-Rio/pesq.mcs/1375].

 

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