Operários vivendo sob regime de escravidão. A situação dos mineiros da Cia. Vale do Rio Doce, em Itabira

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História da luta de classes na cidade de Itabira. Empreiteiros itabiranos fizeram grandes fortunas à custa da mais-valia absoluta, que era chamada de “boró”

Deu na Folha Mineira, Juiz de Fora, 1 de janeiro de 1954

Trabalhadores de empreiteiras da Vale recebiam salários em mercadorias fornecidas pelo patrão (Fotos: O Observador Econômico e Financeiro)

Belo Horizonte, 11(ERxp) – Em Itabira, a maioria dos empreiteiros em extração de minérios, para a Companhia Vale do Rio Doce remunera seus empregados com vales descontáveis em armazém de gêneros alimentícios de propriedade dos empregadores, abatendo-os porém, de por cento de seu valor em moeda sanante aos alimentos.

Esta tentativa de revigoramento da escravatura em pleno século XX processa-se sobas vistas complacentes de uma emprêsa da qual o governo federal é o principal acionista, e da Delegacia do Trabalho, que faz ouvidos de mercador às queixas que são apresentadas.

Responsabilidade de um sistema

Condena-se, de princípio, o sistema de dação empreitada adotado pela Cia. Vale do Rio Doce na exploração de suas jazidas de ferro.

Idoneidade moral e financeira, condição precípua a ser preenchida pelo candidato à relevante função econômica e social não vem por ela sendo exigida. Via de regra os concessionários da exploração são indivíduos de diminutas posses financeiras.

O serviço de quebrar minério era feito no muque, em condições precárias de trabalho

Isso quando não preferem gozar de uma disponibilidade remunerada, subempreitando o serviço a indivíduos em piores condições do que a sua.

Mercê dessa situação anômala, vivem os operários ao refluxo de seus caprichos, inibidos de qualquer conforto ou assistência, colocados à margem da proteção trabalhista e ao desabrigo da previdência social, por não figurarem, ao menos, em folhas de pagamento ou simples registros de empregados.

O cumulo do abuso

Não bastassem tais abusos e outro, de consequências mais graves, cometem os ditos empreiteiros, – manobra  indecorosa equivalente a aprisionamento dos seus operários.

O “boró” (denominação popular do vale com que o empreiteiro de minério remunera seus empregados, para desconto em mercadorias pertencentes ao próprio patrão) é hoje uma instituição viva em Itabira, produto de especulação e transação, costumes incorporados pela habilidade do uso.

Sem meios de defesa, os explorados operários ficam à margem da legislação trabalhista vigorante, que proíbe a totalidade do salário seja percebida “in natura” e que há percentagens a serem obedecidas para determinadas utilidades.

Especulação com trabalho

Folha Mineira, 1 de janeiro de 1954 (BN, pesq. Cristina Silveira)

Por conveniência, esquecem-se os empreiteiros que mesmo o mais simples dos operários possui necessidades mínimas para uma existência possível (abrigo, vestes, remédios etc.) e se algum deles manifesta o desejo de converter em dinheiro o “vale” que lhe dá direito apenas aos alimentos, o patrão não nega a conversão, mas faz com desconto de 20 por cento sobre o valor do “boró”. Especula-se com o trabalho, o esforço, o suor de seres humanos.

Cala-se a Vale do Rio Doce

Capacitada para coibir o brutal atentado, a Cia. Vale do Rio Doce, emprêsa controlada pela União, cala-se, procedendo como se nada houvesse. Eis o governo do sr. Getúlio Vargas, cúmplice no desprêzo de direitos de brasileiros, iguais apenas perante a lei.

Delegacia do trabalho inexiste

A Delegacia Regional do Trabalho recebeu mais de uma queixa contra tal ignomínia praticada à legislação do trabalho.

No entanto, nenhuma medida cerceativa ou punitiva foi, até o momento, posa em execução por esse órgão da administração pública, evidenciando seu descaso por um grupo enorme de operários.

Deu na Folha Mineira, Juiz de Fora, sábado, 20 de agosto de 1950

Em greve os mineiros de Itabira

Belo Horizonte – Estão em greve os operários da Companhia Mineração da Acesita, situada em Itabira. Informações dali recebidas adiantam que o movimento tem caráter pacífico.

Não obstante, seguiu para o local o Coronel Fabriciano, que se fez acompanhar de reforços da Polícia Militar do Estado e de investigadores da Ordem Política e Social, para guarnecerem as instalações da companhia e prevenirem qualquer ato de sabotagem ou manifestações subversivas. São ignorados ainda os motivos do movimento.

Deu na Folha Mineira, Juiz de fora, 31 de agosto de 1950

Preso o agitador comunista, chefe da greve de Itabira

Confessou seus propósitos subversivos

Belo Horozonte – Chegou preso a Belo Horizonte o agitador comunista Evaristo Garcia de Matos, cabeça principal da greve recentemente deflagrada na Companhia de Aços Especiais de Itabira, Acesita.

Contra o agitador, que confessou o seu proposito de subversão, foi aberto inquérito na Delegacia de Ordem Pública.

(m.c.s/glória, 2020)

 

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5 Comentários

  1. Virgínia Silva on

    A CVRD / Vale sempre operou escravizando funcionários, com a máscara de mãezona que paga bem e os benefícios valem a pena, pressiona e oprime. Tenho lido comentários de pessoas que dizem que a Vale sustentou a família a vida toda e que deve tudo a esta empresa. Meu pai trabalhou nesta empresa e afirmo: não gosto e nem devo nada

  2. Virginia, que bão ouvir a voz da lucidez, coisa rara entre itabiranos em relação a famigerada CVRD/VALE. Me deu o maior alívio, obrigada por não ser submissa à serventia.

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