O talento de Maíra Baldaia solta no CD Poente e outras paisagens

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Lenin Novaes*

À artista itabirana Maíra Baldaia, em entrevista que fiz à distância, literalmente – ela lá em Belo Horizonte e, eu, no Rio de Janeiro – perguntei qual a sua opinião sobre a atual conjuntura brasileira na área política, social, econômica e cultural.

Maíra Baldaia, cantora e compositora itabirana (Fotos: Divulgação)

“Vivemos – observou – um momento difícil, repleto de intolerância, censura, crescimento da violência e de dificuldades econômicas. E, ao mesmo tempo, de muita resistência. Em momento de crise como esse nos mostramos mais criativos e acabamos por nos unir mais. Na arte o momento é delicado e com poucos recursos. Mas, cada vez mais, vejo artistas e coletivos buscando saídas e se organizando. O processo é lento e profundo. São muitas entranhas e entrelinhas nas questões políticas do país, mas acredito que (mesmo que a passos lentos) estamos caminhando e que a união é o caminho para acharmos as respostas e reivindicar nossos direitos”.

Leonina, nascida em Itabira, Minas Gerais, dia 23 de julho de 1989 – no ano em que se celebrou o centenário da Proclamação da República do Brasil – , ela avalia o Poente e outras paisagens, CD de estréia lançado há menos de um ano, no qual expõe as vísceras de compositora em trabalho autoral. Ousado e que revela forte personalidade de uma artista consciente do seu tempo e do compromisso que tem com a arte.

A cantora, compositora e atriz Maíra Baldaia tendo em volta as artes do Poente e outras paisagens

“Gosto muito do meu primeiro disco. Gosto de ver que ali tem minha verdade e que é um trabalho que leva algo de bom para as pessoas. Gosto de ver que de lá pra cá amadureci bastante, musicalmente e pessoalmente. É cíclico. O disco é um retrato de uma fase na minha vida artística e pessoal. Um retrato do meu olhar para o mundo naquele momento e esse olhar vai sempre evoluindo e se modificando. Isso é mágico. E é um trabalho que representa meu primeiro passo de coragem nessa empreitada autoral, marcando a passagem de intérprete para cantautora”.

Poente e outras paisagens contém “De chegada em canto”, Maíra Baldaia + “Saudação”, domínio público; ”Ensaio sobre o amanhecer”, “Prá Ieiê, Maíra Baldaia e Verônica Zanella; “Espelho d’água”, Maíra Baldaia; “Valsa para Maria”, Maíra Baldaia e Verônica Zanella; “Pororoca”, Maíra Baldaia, “Insubmissa”; “Poente”, Maíra Baldaia e Verônica Zanella; “Só por um instante”, Maíra Baldaia; “Lua azul”, Maíra Baldaia; “Negra rima”, Maíra Baldaia e Elisa de Sena; e “Axé”, Maíra Baldaia, Nath Rodrigues e Eneida Baraúna.

A artista conta que “o disco tem minhas canções autorais, desde as mais antigas a algumas compostas pouco tempo antes das gravações. Ele se dá como em uma dramaturgia que vai do amanhecer, passando pelo pôr-do-sol, desembocando na alta noite. O disco abre e fecha fazendo referências à minha ancestralidade. Junto comigo, nesse trabalho, estão as musicistas parceiras que sempre me acompanham: Débora Costa, Larissa Horta e Verônica Zanella. Zanella também é compositora junto comigo de três das 12 canções do álbum. Em outras três canções conto também com parcerias com as compositoras Elisa de Sena, Talita Barreto, Nath Rodrigues e Eneida Baraúda, mulheres negras e atuantes na cena musical mineira. Assino a direção artística e, o Clayton Neri, a direção musical. Conto com as participações especiais de Maurício Tizumba, Alysson Salvador, Bia Nogueira, Caetano Brasil e Nath Rodrigues”.

A artista em cena: voz e postura firme no palco

Ela realizou shows alusivos ao disco em palcos em cidades como Serpa, Beja e Lisboa, em Portugal. Também se apresentou em São Paulo, na Aparelha Luzia e na Casa Lúdica. E em Minas Gerais, no Suricato, no Teatro Francisco Nunes, na Semana de Artes Negras, no Sonora –  Festival Internacional de Compositoras e no 43° Festival de Inverno de Itabira.

Maíra é nome escolhido pelos pais itabiranos Cleber Camargo e Cássia Almeida, ambos atuantes no setor de produção cultural. Mas, Baldaia é sobrenome da bisavó – incorporado ao nome artístico, e não de batismo –  que ela garante trazer “muita força”. Fala com muito carinho da irmã Ana Laura, de 10 anos, e recorda que teve infância simples, mas repleta de ludicidade e aprendizados. Uma infância vivida em cidade do interior, de pé no chão, carrinho de rolimã, queimada na rua e também momentos brincando sozinha desenhando, criando músicas e histórias.

Maíra Baldaia conta que “até o ensino médio estudei em Itabira, passando pelos colégios Coronel José Batista, Didi Andrade e Premen. Fui boa aluna e me identificava, sobretudo, com as aulas de Artes, História e Filosofia. E canto desde sempre, não sei dizer (risos). Minha primeira participação na música foi aos quatro anos de idade, gravando e me apresentando nos shows de lançamento do disco Nem tudo é verdade, do compositor itabirano Tony Primo. Desde então a música sempre esteve em mim. Quando criança passava horas brincando de compor músicas com radinho gravador de fitas. Meus discos preferidos na infância eram Circuladô Vivo, do Caetano Veloso, e Monjolear, do Dércio Marques e Doroty Marques. Aos doze anos eu redescobri o canto no teatro. Foi meu primeiro desafio musical. O espetáculo começava comigo, cantando “Rosa”, de Pixinguinha. Aos 14 anos montei minha primeira banda de rock autoral e, aos 16, já estava cantando profissionalmente um repertório de música brasileira. Mas só aos 20 anos fui de fato estudar música na Bituca – Universidade de Música Popular. “Formei-me em canto na Bituca em 2011 e, na Universidade Federal de Minas Gerais, em teatro, em 2016”.

Feminista e negra na luta pelo seu espaço na cena musical

Ela revela que atua como atriz desde os 12 anos. “Já atuei em espetáculos como O negro, a flor e o rosário, de Maurício Tizumba, com direção de Paula Manatta; e Galanga, Chico Rei, de Paulo César Pinheiro, com direção de João das Neves. No teatro escrevi o espetáculo Sarau atemporal ou A mulher as águas do tempo e fui responsável pela pesquisa e canções do espetáculo Elekô – mulheres guerreiras”.

As teses “no teatro, minha formatura foi em cima da pesquisa sobre dramaturgia negra e feminina, onde escrevi um artigo, um espetáculo e também me apresentei como atriz sob a orientação do professor Marcos Antônio Alexandre. Na música, a minha formatura foi sob a batuta do baterista Lincoln Cheib e do Grupo Ponto de Partida e me apresentei com canções bem mineiras dos compositores Milton Nascimento e Maurício Tizumba”, relembra.

Perguntei à compositora, cantora e atriz se não era bandeira demais – sem patrulhamento, cabe aqui ressaltar – as declarações em entrevistas de “as parceiras de composição somente mulheres negras”;  “todas as participações são de artistas negros de Minas Gerais, que possuem trabalhos que admiro e que dialogam com o que eu acredito”;  e “a mulher negra tem ainda espaço mais reduzido nesse contexto, por todas as questões e diferenças que tangem ao feminismo negro”.

Quis saber também se a arte deve estar comprometida com as questões sociais. E ela respondeu o seguinte: “Comentarei de forma geral, pois pra mim tais declarações falam de uma mesma temática: representatividade. As lutas existem para que algum dia haja igualdade e elas deixem de existir. As mulheres, os negros, os lgbttqia’s lutam (lutamos) por algo básico que é igualdade sem que se descarte as individualidades e se sentir representada em todos os campos da sociedade é importante para isso. Quanto mais mulheres negras na composição, mais mulheres vão se sentir encorajadas a se mostrar artistas e por aí vai.”

Maíra, terceira à direita, com Verônica Zanella, Larissa Horta e Débora Costa

A artista prossegue: “No meu disco essa representatividade se deu de forma natural pelo meio em que convivo e atuo. Eu não defini que a maioria das pessoas seriam negras e mulheres, mas quando percebi era assim que estava desenhado meu trabalho. E percebi que isso era uma potência artística e também política, presente ali. Eu não posso dizer a um artista como a arte tem que ser e que a arte tem que ter compromisso com a questão. Não há uma obrigatoriedade aí, mas posso e devo dizer como acredito, penso e vejo a arte no meu contexto.”

Para ela, o papel da arte, seja política ou não, é ser arte em primeira instância. Maíra Baldaia acredita que o discurso é um dos elementos presentes na obra. “Pra mim a arte não se separa das questões sociais, mesmo que essas questões não estejam presentes diretamente na temática.” Como exemplo, ela cita que uma mulher se destacando em um meio musical até então considerado masculino é um ato político, mesmo que seja inconsciente. “Eu acredito em uma arte que leva algo melhor pras pessoas, que olha ao redor, que vê as diferenças, que escuta as pessoas e que busca melhorar a sociedade e isso (seja consciente ou não) é ter compromisso com as questões sociais”.

E prossegue:

“E sobre ser bandeira demais, respondo com o questionamento de onde está o problema em se posicionar, se vivemos em um momento que nos pede um engajamento. É necessário deixar que a arte seja facilitadora do rompimento de barreiras, preconceitos, desigualdades e intolerâncias. Brecht tem um poema que diz que levam os negros, os operários, os homossexuais e ele não se importa, chegando então o momento em que o estão levando também, mas como ele não se importou com ninguém, já é tarde demais. Deixou essa reflexão e algumas reticências sobre arte e sociedade e que cada um encontre sua verdade nessa caminhada”.

No Casarão Altamente com o cantor e compositor Luiz Gabriel Lopes

O olhar dela sobre o fato de Itabira ter mais mulheres que homens e quais posições têm na estrutura política, social, econômica e cultural do município é visto da seguinte maneira:

“Apesar de não morar em Itabira há onze anos, percebo a cidade como um solo fértil de mulheres empreendedoras. Quase sempre que observo os grandes eventos e ações, sobretudo culturais e educacionais, vejo mulheres na autoria e coautoria desses projetos. Já no campo político acho que já houve um avanço, mas ainda é preciso mais espaço para as mulheres na área. Itabira é também berço de grandes poetas, cantoras, autoras, atrizes, artesãs”.

Maíra Baldaia me conta que “o novo CD ainda está em processo de gestação. Tenho previsão de lançar no meio de 2018. Ainda está tudo muito embrionário, mas posso adiantar que trarei a novidade de, além das autorais, uma releitura de um compositor que admiro na música brasileira. Em breve divulgo mais detalhes e novidades sobre esse novo projeto”.

A venda de Poente e outras paisagens se dá sempre nos shows da artista e através do site www.mairabaldaia.com. E ainda na fanpage www.facebook.com/mairabaldaiaoficial e e-mail contatomairabaldaia@gmail.com. Está à venda em Belo Horizonte na Discoteca Pública e nas lojas A Autêntica, do Suricato e do Tambor Mineiro. O disco virtual está disponível em todas as plataformas digitais como Spotify, YouTube, Deezer, ITunes, entre outras.

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesias para jornalistas, em homenagem ao poeta e jornalista Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS. É Assessor de Imprensa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

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Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Entrevista maravilhosa, Maíra Baldaia dando um show de personalidade, maturidade e um potencial artístico que a muito não se vê; acredito que existem muitas Baldaia por aí e Maíra está abrindo portas para que elas possam brilhar também!
    Parabéns à Lenin Novaes que conduziu a entrevista de forma maravilhosa, vimos a essência da artista e isso também é mérito de um grande profissional, como Lenin…
    Palmas aos dois!

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