O Santo Sudário: a racionalidade científica e o enigma religioso

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Cecília Camilo*

A exposição Quem é o Homem do Sudário?, aberta no dia 22 de fevereiro e que prossegue até 30 de abril no Museu de Itabira, é um aprendizado cultural multidisciplinar.

Os painéis dispostos nesta Casa Cultural narram os processos científicos empregados pelas diversas áreas de conhecimento (patologia forense, botânica, física, iconografia, química, palinologia, dentre outras) para averiguar a fidedignidade ou não do tecido denominado Sudário de Turim.

Esse pano citado acima é uma relíquia cristã que supostamente teria envolvido o corpo de Jesus Cristo após a sua crucificação. Além dos painéis explicativos é possível aferir as réplicas das moedas dispostas sobre os olhos do Homem do Sudário, as reproduções dos instrumentos de suplício como os pregos que foram cravados na cruz, e a coroa de espinhos.

A apresentação museológica enfatiza as descobertas de inúmeras pesquisas. Revela o comprometimento dos investigadores na busca de vestígios históricos e as suas interrogações sobre a autenticidade do Sudário.

Para tentar compreender o enigma os pesquisadores investigam o percurso geográfico desse tecido que revela as marcas de um ser humano que provavelmente foi flagelado e crucificado. A ciência não confirma a autenticidade desse símbolo, mas também não nega e nem desmente a saga do sofrimento descrita nos dogmas cristãos.

Na perspectiva da fé cristã, o Sudário é um símbolo que convida o fiel a admirar as marcas do flagelo de cristo. Portanto ele é venerado e preservado como uma relíquia autêntica.

Escultura de Luigi Enzo Mattei reproduz o que supostamente teria sido a posição que o Homem do Sudário se encontrava quando foi encoberto. (Fotos: Carlos Cruz)

Esses signos arbitrários distinguem aquilo que é sagrado do que é profano. São mistérios e transcendem a lógica científica. Os emblemas religiosos conectam o ser humano a uma ordem supranatural, a um universo invisível, inacessível e alimentam-se do contexto social em que foi criado e em que se faz presente.

Entretanto, as relíquias simbólicas precisam ser nutridas e rememoradas por uma verdade inquestionável, porque se elas forem negadas e desmitificadas pela sociedade perder-se-ia o seu sentido e a possibilidade de interpretar os acontecimentos transcendentais da vida. A significância do objeto sagrado precisa ser internalizada pelos indivíduos para ser legitimada.

Do ponto de vista da ciência, todas as conclusões apresentadas sobre o Santo Sudário podem ser revistas no futuro, dada a provisoriedade das teorias científicas que permanecem verdadeiras até o momento em que são contestadas por outras pesquisas e análises.

Réplica da coroa de espinhos

Para conhecer a fidedignidade dos fatos é necessário ter uma prática permanente de busca. Cabe ao pesquisador estabelecer um diálogo crítico com as fontes documentais e executar uma atividade metódica de aproximação sucessiva da realidade que nunca se esgota.

Na exposição relativa ao Santo Sudário, não se percebe a disputa e a incompatibilidade entre a razão e a fé, o que se pode averiguar é a complexidade do objeto de estudo e o questionamento intermitente da ciência sobre a autenticidade das marcas do passado.

Talvez a Igreja católica continue a delegar aos cientistas o trabalho de indagar e buscar as respostas pertinentes à historicidade do objeto sagrado, já que o sentido dado aos símbolos por um determinado grupo não possui necessariamente o mesmo significado para o observador externo.

Serviço

A mostra ficará aberta para visitação no Museu de Itabira (Praça do Centenário, Centro) até 30 de abril, de terça a sexta-feira, das 9h às 17h, e sábado, domingos e feriados, das 10h30 às 16h30.

A entrada é gratuita. Mais informações pelo telefone (31) 3839-2992.

*Cecília Camilo é historiadora e cientista social

 

 

 

 

 

 

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Sobre o Autor

1 comentário

  1. Cristina Silveira, Sem Esperanza on

    Cecília, delícia encontrá-la aqui em nossa Vila de Profunda Utopia. Seu artigo é ótimo. Eu, de minha parte não creio que este pano seja o que enrolou o Jesus de Nazaré. Sabe-se, pela história, que pedaços da cruz, onde ele foi torturado, andou mundo; o menino russo, czar hemofílico, chegou a comer um desses pedacinhos e também as rainhas fervorosas tinham pedaços do tecido mortuário. O bom é para a ciência que vai em frente, embora a ciência somente tem comprometimento com os ricos donos do mundo.
    Penso que esses símbolos são forjados para que o cristianismo mantenha-se na estrutura do poder dominante. E já dizem por aí que o Diabo venceu Deus. Que Deus recusou-se a debater com o Diabo. Para mim tanto faz, Deus ou o Diabo pois não leio na cartilha do inventado.
    De onde são estas peças? do Vaticano?
    Mas o bom é ler o seu artigo, bem escrito como deve ser o dos historiadores. Deixo meu beijo de afeto por você, que é tão linda…

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