“O perigo está no ar e não é para brincadeira”, diz neurocientista. Itabira vive o espectro dessa grande ameaça, embora muitos achem que o pior já passou

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Médico e cientista, coordenador do comitê científico do Consórcio Nordeste e líder de um grupo de pesquisadores da área de neurociência na Universidade de Duke, em Durhan, Estados Unidos, o brasileiro Miguel Angelo Laporta Nicolelis considera que a batalha no enfrentamento à Covid-19 está longe de ser vencida.

E, para ele, o risco de agravos decorrentes da doença na população é maior em cidades onde se convive com casos acentuados de doenças respiratórias, com o vírus se espalhando pelo ar poluído pelas queimadas – e também pela poeira de minério, acrescente-se.

Combinação imperfeita: baixa umidade do ar, fumaça e coronavírus (Fotos: Carlos Cruz)

É o caso de Itabira, que todos os anos, nesta época de estiagem, convive com as indefectíveis queimadas no perímetro urbano, tendo ainda o agravo de ter as maiores minas de minério de ferro tão próximas do perímetro urbano, ao ponto de não saber se a cidade está na mina ou se foi a mineração que avançou para a cidade.

“Num momento de pandemia, as pessoas ainda estão respirando fumaça das queimadas, do ar poluído, o que agrava os problemas respiratórios”, acentua Nicolelis. “As pessoas já estão sob o risco de infecção por um vírus ainda desconhecido e ainda sofrem com a fumaça das queimadas”, disse o neurocientista em esclarecedora entrevista ao blogueiro Eduardo Moreira, no Youtube (assista aqui).

Vírus complexo

Poeira das minas agrava as doenças respiratórias, outra combinação imperfeita em tempos de pandemia

Nicolelis considera a atual pandemia com o novo coronavírus (Sars-Cov-2) tão perigosa como a gripe espanhola (1918/20), que infectou mais de 500 milhões de pessoas em todo o mundo, cerca de um quarto da população mundial no início do século, tendo matado entre 17 e 50 milhões de pessoas.

“Este evento que estamos vivendo não é o maior em extinção. Por não ter letalidade alta, não compromete a existência da espécie humana. Não é tipo o Ébola que mata 60% das vítimas. Ele é assustador por ser um vírus muito mais complexo que imaginávamos”, compara.

Segundo explica o neurocientista, o Sars-Cov-2 age sistemicamente – e não é só no aparelho respiratório. “Além de atacar a parede dos vasos sanguíneos, ele desencadeia, por criar uma lesão na superfície dos vasos sanguíneos, uma resposta hematológica disseminada que ataca o rim, o coração, o pulmão, o intestino”, relaciona.

Com preocupação, ele diz que a ciência ainda conhece muito pouco de sua fisiopatologia. “Começaram a surgir relatos, que para mim são assustadores, dos efeitos sobre o sistema nervoso central.”

Foi o que, segundo ele, acometeu o jornalista esportivo brasileiro Roberto Rodrigues, que faleceu jovem, em decorrência de uma trombose no vaso cerebral, vítima da Covid-19.

De acordo com Nicolelis, não se trata de caso isolado, sendo que relatos como dessa triste morte têm surgido com muita frequência, com as doenças do sistema nervoso, ditas psiquiátricas.

O neurocientista conta que um estudo realizado na Itália, entre 400 pacientes que foram internados por algum tempo em hospitais, não necessariamente em UTI, constatou que mais da metade relataram doenças psiquiátricas, como depressão profunda, insônia, ansiedade, distúrbio excessivo compulsivo.

“É assustador. Eu nunca tinha ouvido falar que um vírus respiratório pudesse ser causa dessas doenças psiquiátricas.”

Guerra biológica

Miguel Angelo Laporta Nicolelis, médico e cientista, coordenador do comitê científico do Consórcio Nordeste e líder de um grupo de pesquisadores da área de neurociência na Universidade de Duke, em Durhan, Estados Unidos (Foto: Laura Marinari/Brasil De Fato)

Para Miguel Nicolelis o mundo está lidando com uma guerra biológica só comparável com a gripe espanhola de 1918. Só que esse vírus não foi produzido em laboratórios chineses, como disseminam as fakes news.

“Mas não deixa de ser uma guerra biológica. A natureza, quando agredida, também cria guerras biológicas como temos visto nos últimos anos”, diz ele, que teme surgir um novo coronavírus tão perigoso como o atual a parir da devastação da floresta Amazônica.

Triste previsão

De acordo com o neurocientista, a maioria das previsões sobre a disseminação da pandemia no Brasil se concretizou. “A previsão inicial, em março, era de 250 mil óbitos”, recorda, acentuando a dificuldade de se fazer previsão devido ao erro associado à medida em que o tempo passa.

“Mas, infelizmente, vamos chegar lá até o fim do ano”, disse ele, que está preocupado com a onda de flexibilização das medidas de enfrentamento ao novo coronavírus em todo o país.

Nicolelis teme, agora, o “efeito bumerangue”, que consiste no crescimento de casos nas capitais depois de o vírus seguir em direção ao interior. É o que se observa com o retorno expressivo nas principais capitais, conforme ele alertou em entrevista ao Brasil de Fato, ao chamara atenção para o fato de que as flexibilizações no país estão ocorrendo fora dos parâmetros da Organização Mundial de Saúde (OMS).

 

 

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1 comentário

  1. Cristina, A Velha on

    Miguel Nicolelis , finalmente aparece aqui na Vila!!! No começo da pandemia , aqui na Vila de Utopia chamei atenção da PMI para se integrar ao Consorcio Nordeste, por ele estar conectado com o mundo científico nacional e internacional. O grupo liderado por Nicolelis – todos trabalham de graça – é uma das maiores frente contra o vírus e o seu maior legado é o acúmulo de informação numa plataforma digital de interesse mundial…. Mas Itabira está presa na cava do Caué, e não tem mais solução, estará sempre na última ponta da fila da civilidade.
    Num artigo postado aqui ontem, a turma do candidato Beócio Ronaldo Magalhães do Posto Alvarenga, discriminou o candidato Marco Antonio Lage chamando-o de forasteiro, ora pois pois , a Itabira/CVRD de agora foi construída por “forasteiros”, portanto tudo é vergonhoso, humilhante em Itabira… E é uma pena que não nasça itabiranos como Luís Camilo, Domingos Martins Guerra, José Casimiro de Andrade. e alguns outros…

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