O perigo da obediência estudantil. Eu tropeço e caio e o corpo aguenta o inútil pranto

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Por Cristina Silveira

Escrever bem é mijar. É deixar que o pensamento flua com a vontade da mijada feliz, a frase antes da vírgula é do Monteiro Lobato. E ajuda explicar minhas mijadas infelizes decorrentes de trauma de infância, tatuado a ferro pela professora das primeiras letras. Ela me odiava. Foi ódio à primeira vista, ódio cultivado até o último dia, sem trégua.

Tinha cara de fuinha, dos olhos pululavam as raivas dela sobre eu menina. Lábios espremidos um no outro grunhiam palavras histéricas, virulentas. Doíam músculos, como doía! Ela não relaxava, as unhas bem aparadas torciam os traços perfeitos de minhas orelhas translúcidas, belas, Claudel. E a danada beliscava até que o mijo ardesse meia a baixo,empossando na fortaleza Vulcabrás do sapato preto, o corpo envergonhado, encurralado.

Cala-boca jacaré,senão Saci vem ti pegá! 

Pássaros de Nova Iorque (Fotos: Marcelo Prates)

O mundo vira e para o poeta Drummond, “a orelha pouco explica”, mas, aliviada sente a força da poesia de Cecília Meireles, Drummond, Bandeira, Alvarenga Peixoto, Gonçalves Dias, Bilac, do livro As mais belas Poesias, ainda na estante de livros meus.Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… e vivo escolhendo o dia inteiro. Enquanto meu pai montava a cavalo e minha mãe ficava sentada cozendo. 

De todo modo, foi com a danada que aprendi as noções básicas da falta de respeito à dignidade humana e da violação dos direitos. Como não havia o ECA, a categoria tinha como missão fingir ensinar e esbanjar punição.Longos anos sofri o ódio dela em mim.

Foi preciso rasgar as palavras faladas em sessões terapêuticas. O recurso da escrita fazia-me lembrar os sentimentos daquele tempo e outras recordações significantes. Recompus as minhas palavras em cartas a ela,compus três cadernos com o título – Pulsão de Ódio. Ao longo da mastigação do trauma senti vontade de encontrar a professora e nela vomitar o ódio dela em mim, devolver a porcaria.

Com o tempo, o queixume desinflou e a dor se aquietou em mim, já não ardia tanto. E aí, que certa noite um amigo chega em casa e eu escrevia o diário Pulsão de Ódio, ele bisbilhotou, contei a minha derrota. E falando, eu entendia o resultado do tratamento contra as ‘dores das cabeças’. Pensei que podia enviar aquelas cartas, mas não fazia ideia por onde andava esse desassossego. Milhas, léguas ou logo ali? Nunca havia pensado nela no presente, o foco travara no passado. 

Naquele Agora, senti ao impulso do direito de defesa. E estava diante de mim. O amigo conhecia ela, sabia onde morava e tudo, deu até notícias e prometeu o endereço. Cumpriu o prometido, era sábado de verão quando recebi a rota da forra, nome da rua, o número, o cep, agora era só embrulhar Pulsão de Ódio, amarrar bem e despachar pelos Correios.

Mas malquerença é malquerença e bateu vertigem, suor frio pegajoso empolando a pele até o vomitaço da bílis contaminada. O alívio pedia mar. Banho nas águas de Yemanjá. De volta pra casa reli os cadernos Pulsão de Ódio, lia página-por-página e rasgava em picadinhos miudinhos, varei noite na tarefa predadora.

Antes do sol me adormecer subi até o centro da Escadeia do Fialho, acendi fogo no picadinho de Pulsão de Ódio enquanto olhava a rua espreguiçar o domingo. Me sentia aliviada sob o sol. Do fogo morto, as cinzas voavam escada a baixo, seriam nadano ar…

Pintassilgo da mata

Do outro lado da rua Benjamin, os amigos, Gerson Rastafari (cariocada gema), o Raimundo Nonato, do Ceará, o Brás Jacaré, do Pernambucano, colhiam água do sistema Cedae para lavar automóveis e me ofereceram um banho de lata, tavam zuando de mim, mas era o banho de Yara, duas latadas de frescor, desfazendo toda a malquerença. Voltei para casa e o sol iluminou o sono justo da ofendida.

Do ódio dela em mim, sou alforriada. Agora sei que o certo é o justo e sinto de lá para trás no tempo, não lhe ter cuspido na cara. E é certo que eu seria brutalmente castigada, mas ficaria pura, aliviada, sem o peso do trauma. Muito depois, quando já não me lembrava de tudo, encontrei uma carta avulsa da Pulsão de Ódio. Li, rasguei e resumi essa narrativa cruel e ainda em prática nas escolas. 

O mundo vira. E eu fui pelejar na EEMZA do padre Zé Lopão onde conheci as melhores professoras de toda a minha vida bandida de estudante, de pronto da memória me saltam nomes de nove mulheres, de que fui aluna ou não aluna, o certo é que eu as vejo de longe e afirmo que me fizeram muito bem. Saúdo e louvo! Lindas, como “as par de jarro barroco”, uma procopada de Arp Procópio ao se referir as professoras, Graça e Ana Lima. Duas lindas irmãs. Graça e Ana, me ofereceram seus chás diuréticos e me disseram que escrever transforma, civiliza, fortalece o espírito.

Graça e Ana me são reais e imaginárias. As duas têm os lábios iguais movendo palavras de encantamento sinfônico, límpidas, sem rasuras, sem o pedantismo do português casto. Palavras, elas são palavras escritas e eu as imagino num retrato de corpo inteiramente tatuado com tinta esferográfica delineado em arte literária. Mentes inquietas de fina ironia.Eu as tenho em mim para sempre. 

– Que horas são?

– São horas de tomar vergonha. 

O Suiriri da Liberdade

A belíssima ilustração desta quase-epistola, o pássaro Suiriri – Tyrannus, copiei do livro Pássaros da Liberdade (2009) do fotógrafo Marcelo Prates. Olhos permanentemente abertos para a natureza e as mãos ocupadas com a câmera, Marcelo flaina pela cidade atiçando a adrenalina de percepções agudas de seu amoroso olhar sobre o mundo. Marcelo vê os pássaros sobreviventes no espaço urbano e registra o que sobrou daquilo que foi. 

Aves da Liberdade

O resultado, a fotografia dos pássaros, esteticamente em harmonia com as cores, o concreto, o mobiliário urbano, aquilo o que não é da natureza e que se fosse produzido não resultaria no espetáculo da comunhão entre os que dançam no ar e o inanimado do chão. 

É instigante de se ver, porque é a rua, a rua que se percorre diariamente sob o comando do relógio que rouba o tempo de ter consciência da beleza refugiada entre os galhos das árvores, invisível aos apressados. 

A fotografia do Marcelo é arte e documento histórico. E é, um alerta ecológico. Como a crônica, Olhe bem as Montanhas… do poeta Drummond, publicada em 1975 no JB, nos chamando a atenção para a obra do artista plástico Manfredo Souzanetto, mineiro do Vale do Jequitinhonha. É assim com a fotografia do Prates, é preciso olhar bem os pássaros da Liberdade, é a arte atraindo o olhar para os acontecimentos da natureza que o relógio neblina e a ganância mutila ou mata. 

A ditadura 64 fechou o espaço para a fotografia como arte, que retorna ao sentido arte, no começo dos anos 80, no processo de redemocratização. É nesse feliz ano velho que a fotografia do Marcelo chega ao público, sintonizada com a vida na rua, das ruas, olhando a natureza.

Em exílio voluntário em NY, Marcelo Prates agora flaina pelos mais de 3 mil quilômetros do Central Park fotografando os pássaros de lá, que não gorjeiam como os de cá…Depois de Pássaros da Liberdade (2009), Palácio da Liberdade (2013) e Grande Hotel Araxá (2014), está na boca do forno o New York Wings (belíssimo título), o quarto livro do fotógrafo. Saúdo e louvo o Pássaro Marcelo Prates.

 

 

 

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