O nobre continente africano e seus camaleões amestrados

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Veladimir Romano*

Maio, continuadamente marcando dias históricos, chega também ao continente africano comemorando seu dia a 25, quando nunca faltam discursos carregados de lugares comuns, hipocrisia, fantasias e programas gerais de quantos sem vergonha prometendo ou reclamando azares do mundo: o nobre continente alimentando seus camaleões amestrados localizados em parlamentos e forças do poder político ao financeiro.

Marca ainda no presente nossa memória, o processo traiçoeiro na República Democrática do Congo contra Patrice Lumbumba e o brutal conflito armado na região do Biafra, liquidando mais de um milhão de pessoas. Independências mal geridas; depois, tentativas neo-coloniais das forças financeiras mundiais procurando recuperar riqueza petrolífera da Nigéria ou riquíssimos minérios do Zaire. O resultado: dramáticas guerras étnicas. A frenética selvagem acabou com líderes étnicos em momentos comemorativos lendo tais famosos discursos vazios e fantasistas.

Baía da cidade de Mindelo, capital da Ilha de São Vicente em Cabo Verde (Foto: Mauro Moura)

Depois de seis décadas e das fórmulas protagonizando cada qual algum especial instante lendo palavras vãs de ocasião [para não ficarem calados], quanta excitação somente nas salas da dita cuja União Africana, parlamento medíocre no coração da capital etíope, ninho dos debates que em pouco ou nada resultam ao melhoramento na vida de tantos povos. A festa no velho e grande salão da O.U.A., fundada precisamente no dia 25 de maio de 1963 na capital Adis-Abeba, coloca em prática a cada ano mais doses frustrantes dos castigados povos africanos.

Ambição de poder e a manutenção desse mesmo poder tem sido decorrente nas presidências africanas com dinâmicas baseadas para promoção social, progresso econômico das elites, mais injustiça, enganada participação cívica, proteção de refugiados e direitos evitando conflitos não fosse proteção das missões de paz. Mas é isso mesmo, sim, tudo em contrário contra essa emergência ao desenvolvimento africano pela modernização dos Estados do continente berço da nossa civilização.

Faltam centros hospitalares, rodovias, pontes, energia, escolas, telecomunicação, redes digitais [certas nações apenas uma vez semanal podem usar aplicativos], confirmam enchente de culturas ofensivas, contra dignidade, visam todo e qualquer tipo mais rigoroso do qual depende a mais elementar valorização dos seres humanos. Dessa cultura sofrem comunidades albinas, crianças diminuídas, viúvas, e múltiplas populações sem condições alimentares. Alertas da ONU assustam qualquer mentalidade mais tranquila, mas são igualmente gritos no escuro ainda que atentamente o Conselho de Segurança das Nações Unidas se esforce. A fuga financeira das elites poderosas dos meandros políticos africanos ultrapassa anualmente US$  60 bilhões depositados em bancos esternos e estranhos.

Depois das independências, concretizações nacionalistas sob efeito das duas grandes guerras mundiais, aproveitaram esse efeito causando a saída sucessiva dos alemães, italianos, belgas, holandeses, ingleses, franceses; ocupados ainda alguns territórios africanos, apenas mesmo somente os portugueses, últimos na debandada colonial. Contudo, seis décadas mais tarde, o sangue derramado como causa de tanto conflito inqualificável, definitivamente criou outro nível mais agudo do subdesenvolvimento empatado no tempo pelas 54 nações componentes do imenso território negro.

Mapa do continente africano

Quando o imperador etíope Haile Selassie se juntou ao legendário ganês Kwame Nkrumah e ao malogrado Malcom X; sonhar não custa criando intenções renovadoras quando aparentes lideranças foram ocupadas pela noção ideológica na construção do “Parlamento Universal Africano”, como ainda diria o próprio Patrice Lumbumba: «Devemos nós responsáveis pela ideia, exigir de fazer o melhor pelos nossos povos»… não levou muito tempo até que do outro lado das ambições e cupidez: Mobutu Sese Seko, servindo na fria traição, satisfazendo infiltrações secretas da CIA, deu o golpe fatal que até hoje a imensa república congolesa está pagando com miséria e quanta mais desgraça. O velho ditado africano: «Se você educar um homem estará educando um indivíduo, mas se você educar uma mulher, você estará educando uma nação»; revela a Global Literacy Challenge, que 40% dos cientistas são mulheres mas que a derrocada social de tantos países obriga este valor e saber a uma emigração indesejada, ainda que países como o Mali, Senegal, Burkina Faso, triplicaram orçamentos, o problema reside na base estabelecida da hemorragia financeira provocada no hábito doentio de todo este processo encravar na corrupção.

Alguns apregoam culpa à “imaturidade”, disfarçando incompetência, ausência bem formada de mentalidade no aproveitamento dos recursos humanos [o continente africano tem enorme rede de cientistas obrigados a procurar trabalho na Europa, Ásia e continente americano], devido ao baixo reduto social, falta de investimento dos governos, ainda aproveitando da cooperação internacional lucrando suas boas contas bancárias colocadas em oásis fiscais.

Berço da humanidade, a fome ainda graça no continente africano, enquanto os políticos locupletam

África não tem classe dirigente que consiga aprender com Nelson Mandela, não sendo sonhadores, subiram a escala para zombadores e desse modo qualquer Estado africano ficou refém dos níveis de corrupção… com isso, 75% da população africana não tem acesso a novas tecnologias; apenas líderes preocupados com a própria riqueza aplicando todo o tipo de golpes e parcerias maliciosas, vencem personalizando políticas e organizando clientelas favoráveis.

Igualmente muito benefício retiram as classes dominantes africanas com a importação de bens alimentares [mas, África precisa dessa importação?] quando anualmente atinge mais de 40 bilhões de dólares. Gigantescos centros urbanos sem habitação acumulam altos números no desemprego. Exemplo flagrante como Joanesburgo onde 33% não tem trabalho ou no Cairo com 30%, convidam mais tarde ao elevado crime e marginalidade urbana.

Nada proveitoso ao sistema financeiro. São pormenores da economia informal que em algumas nações chega aos 72%, sem governantes capazes ou competentes de encontrar inovação e reforma. Passaram já em alguns países suas seis décadas independentes sem infraestruturas… faz dez anos agora em Kampala, capital ugandesa, começou eletrificação das ruas e rodovias, não existia. Outras prioridades como infraestruturas, serviços públicos, transportes, higiene, segurança hospitalar e apoio cívico caminham timidamente.

Na Etiópia, somente uma vez por semana se consulta rede social. Em Moçambique, unicamente 37% da população urbana consegue ter acesso no transporte citadino pelo quanto custa ao cidadão suportar mais despesas do magro salário de 4.244 meticais [70 dólares] mensal e sendo uma das nações mais atingidas pelo AIDS/SIDA. O continente negro alberga 10% da população atingida pelas doenças sexualmente infecto-contagiosas; mais violência inter-religiosa, duzentos conflitos continuam agitando várias nações como o Mali, Nigéria, Níger, Sudão, Etiópia, Congo… provocaram quase quatro milhões de refugiados. Depois de 2014, mais 50 mil crianças morreram de fome, a mesma faminta provocando onze milhões e meio de deslocados no continente não esquecendo a questão dos albinos, minorias étnicas e falsas democratizações.

Não é a União Africana e seu parlamento de nababos, os informadores, mas antes a ONU que aponta o lado menos bonito deste panorama humano e social africano onde nem mesmo nos países componentes da CPLP se poderá levantar a voz. Angola, com investimentos e reformas importantes efetuadas depois do longo conflito interno, vai fazendo tremendo esforço logo agora que na sua maior riqueza, o petróleo, com baixa de venda, cortou muito desse efetivo esforço continuando com salários mínimos rondando 78 a 90 euros [16 mil kwanzas a 18mil]; Cabo Verde, ainda assim, vai melhor classificado onde o governo aumentou salário base de 11 mil escudos a mais de 13mil [117 euros]. Pior mesmo, estão Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe quando a pobreza atinge números vergonhosos de 40% e a pobreza extrema chega aos 11%, ainda que sigam discursos comemorativos entre caprichos do teatro político africano.

Quando o PIB per capita anual num país de quase dois milhões não ultrapassa os mil e trezentos dólares, mas o presidente parlamentar ganha 10 mil euros, o presidente da nação menos três e primeiro-ministro seis mil; mas o Estado gasta apenas 6,3% na percentagem do PIB na saúde e paga ao enfermeiro 140 euros [1 euro=655.975 francos CFA], sendo salário mínimo de 20 euros. Fica pois muito claro que esperança de vida se mantenha para homens em 48 anos e mulheres nos 52. Não muito distante: nas ilhas pérola sãotomense, salário base de 50 euros [milhão e cem mil dobras], dá para pouco ou apenas para sustentação da pobreza agravada pelo alto desemprego.

Depois de 2008, com situações e degradação pronunciada, cresceu em pouco tempo a 20%, terrorismo fornecido na maioria pelo Sudão, Nigéria, Somália e Mali com mais de 17% desses terroristas… enquanto os mortos como resultado flagrante entre 2015/6, cresceu 80%; informa a Southern African Development Community [Comunidade Sul-Africana pelo Desenvolvimento]. A mesma porém, relata que 14 nações com casos evidentes como Sudão, Egito, Uganda, Níger, Somália, Mauritânia, Líbia, Nigéria e até no país de Mandela; diferenças de gênero/género, são regra assombrosa do quanto mal o continente vai. A mutilação perigosa e selvagem afeta também ambos os sexos quando se chega na idade adolescente, tal como casamentos desnaturados no meio duma imensidão de analfabetismo: em todo o continente existem pelos números da UNESCO 163 milhões de pessoas, sendo o Mali a nação mais atingida com 74%… embora vão melhorando taxas de alfabetização, discriminar em África é também cultura secular.

Outra vez: dos sete milhões e meio da República Centro-Africana, mais de um milhão vivem com altas carências alimentares. No Chade, três em cada dez, no Burundi são quase dois milhões, no Sudão chega quase aos quatro milhões e em Cabo Verde pela casa dos 140 mil habitantes desnutridos numa população de meio-milhão.

Que pode significar comemorar África num belo dia 25 de maio, mês revolucionário, tendência reformista, esperança reforçada ou vivendo transformação tecnológica se o próprio centro decisivo da Organização da Unidade Africana, de pouco unido tem servindo de base alimentar aos camaleões amestrado.

*Veladimir Romano é jornalista e escritor luso-caboverdiano, colaborador deste site Vila de Utopia

 

 

 

 

 

 

 

 

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