o Medo do Rio. o Rio do Medo.

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Cristina Silveira

Desde ontem nuvens cinzas cobrem a cidade, não se vê o Corcovado. Hoje, no fim da tarde, a chuva leve intermitente melancoliza as ruas. Dizem por aí, que as ruas são perigosas. Sei que são, mas não aceito ser vítima da política do medo.

Hoje, 16/08/2017, quando cheguei em Cidade de Deus (CDD), e dei o primeiro passo na rua Edgard Werneck ouvi uma saraivada de tiros. A antiga guerra voltou, depois do Golpe 16 a truculência delirante atira sedenta.Quem se importa?

Ao chegar no CECFA –, um ponto solidário dedicado a crianças e adolescentes – as mulheres, pelo telefone,orientavam as suas crianças a não irem à escola, que ficassem em casa; depois, nos silenciamos em nossas tarefas, sem nos preocuparmos com lá fora. Nos adaptamos em viver no país mais violento do mundo? Mas em um dos momentos de tiroteio intenso,a companheira Jordana grita pra fora da janela: Volta Lula!

De 11h às 17h as balas disparadas enricavam a indústria bélico-fármaco e paralisavam a economia de CDD. No mês passado pela mesma razão, 3.300 crianças não foram as escolas.Que país é este?

No Cecfa havia algumas crianças aprendendo, com um professor da favela da Maré, a dança Passinho – que é linda. A moçadinha da Favela do Jacarezinho exibiu o Passinho no Theatro Municipal, esta possibilidade ocorreu no governo da presidenta Dilma Rousseff. Agora, o Passinho só na favela, se a polícia deixar!

Em casa, leio o Tijolaço, artigo do velho e excelente jornalista Fernando Brito, que reproduzo para que se possa entender através de minha história de hoje que não se pode ter medo das ruas, que é necessário resistir a violência.

Se é guerra, porque não se ganha nunca?

POR FERNANDO BRITO · 16/08/2017

 

Corre hoje no Facebook uma intensa discussão – boa parte entre jornalistas – sobre a capa do jornal Extra, que anuncia a “guerra” que vive o Rio e aponta “843 territórios” que teriam sido “perdidos para o crime”.

Embora a questão seja relevante, não é absolutamente novidade.

É como guerra que a questão é tratada não agora, mas há muitos e muitos anos.

Anos? Décadas ou mais de século até.

O crime e o império que ele exerce em muitas regiões da cidade – e o medo que em toda ela espalha – tem raízes profundas que as “capinas” executadas pelas operações policiais ou militares não vão extirpar.

Aos que acham que exagero, peço que recordem a origem do nome favela – o morro onde foram amontoados os veteranos da campanha de Canudos – e, até antes disso, busquem no mapa da cidade uma encosta que leva o nome de Serra dos Pretos Forros, para onde subiram para morar os escravos libertos do Segundo Império.

Guerra e gueto são as palavras que dão boa ideia do que acontece aqui – e vai acontecer em toda parte, se é que já não está acontecendo – porque existem, a cada hora em maior ou menor escala, dependendo da crise ou da afluência econômica o talhe divisório entre o Brasil moderno e relativamente rico e o Brasil dos miseráveis, dos excluídos.

Existe uma divisão entre os “brasis” que ora é membrana, permeável, ora é parede.

Ela, como o muro de uma fronteira, é controlada pelo poder e o poder, para isso, se exerce pela polícia ou, por vezes, pelas Forças Armadas.

Mas, para que esse controle se exerça, é preciso que haja um “governo” nestes territórios excluídos, que imponha sua ordem interna e faça a drenagem de recursos – a “caixinha” – que sustente a “polícia de fronteiras”.

Ao leitor que volte a achar que eu exagero, proponho que lembre, como, há 40, 50, 60 anos atrás, era o poder do “bicho”, volta e meia com seus caixotes quebrados a pontapés e sua promiscuidade com a polícia.

Não há nada de novo sob o sol, exceto o tamanho – ou o calibre – desta história.

Nem mesmo a “tática” de enfrentar esta situação pela via das armas, exclusivamente.

Não acho que o papel da imprensa, nisso, seja o de “vigiar” se os direitos humanos são respeitados nestas operações, apenas.

Certamente é um deles.

Mas é também o de fugir do alinhamento automático com mais uma guerra e, como tantas, nunca termina e tem sempre um degrau mais brutal, se me perdoam o eco.

Temos consciência de que o discurso de guerra, quando desvirtuado, serve para encobrir a truculência da polícia que atira primeiro e pergunta depois. Mas defendemos a guerra baseada na inteligência, no combate à corrupção policial, e que tenha como alvo não a população civil, mas o poder econômico das máfias e de todas as suas articulações, diz o editorial do jornal, para explicar-se.

Francamente, como seria um discurso de guerra “virtuoso”? Bombardeios cirúrgicos? Pretender que o jovem recruta, de fuzil 7.65 não se assuste com um movimento brusco numa viela não dispare e mate uma criança que passou correndo? Crucificá-lo, por fazer o que lhe mandaram fazer, um assalto a “posições inimigas”?

Quem será o general ou jornalista que defenderá este pobre infeliz que, numa reação instintiva, pratique um ato assim, enquanto aquele que o mandou lá com armamento embalado e ordens vagas fica impune?

Claro que se exigem providencias policiais, até, eventualmente, com suporte militar. Rotas de armas, de drogas, paióis podem e devem ser enfrentados com todo o apoio que ações militares possam dar, para minimizar danos a pessoas.

Mas atribuir às Forças Armadas o papel de p0nta de lança de uma “guerra” de antemão perdida é colocar uma instituição essencial ao país no papel de “alegoria e adereço” de um desfile hipócrita.

 

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10 Comentários

  1. Lendo a matéria me vejo muito confusa sobre qual o caminho para a solução de tantos problemas, a corrupção política, a bandidagem das polícias…
    Enfim não temos falta de dinheiro e nem de gente que quer trabalhar e fazer acontecer! Ah temos muitas riquesas territoriais, só não sabemos como fazer acontecer.
    E AGORA JOSÉ?

    • cristinica de cervantes on

      guiquerida, só há um caminho, a resistência. e veja que o presidente lula da silva mantém a expectativa em nós, as massas, na Caravana Lula Pelo Brasil. mas é foda a resistência sem trégua.
      E agora José? piores dias virão?

  2. ótima reflexão!!!

    pais marginal no capitalismo é assim. Hipocrisia sobre a guerra de classes pós golpe 16 e antes com o liberalismo PTucano. E a imprensa manufaturando a opinião pública….Vamos esperar por alguém que quebre as pernas desse modelo econômico?!….rsrsrsrs

    • cristinica de cervantes on

      igor, meu benzinho. não podemos esperar por Alguém pois quem sabe faz a hora e a horta. hoje comi couve e rabanete e fiquei verde e vermelha. resistir sempre resistir.

      • isso aí !!! vamos de couve, rabanete e resistencia ! mas espero um governo que rompa com esse modelo. algo realmente de esquerda. Pois os liberais de esquerda e os de direita manufaturam a guerra de classes. Inclusive a violência e o medo no Rio. Adiante e a esquerda, abraços

  3. Texto sem nexo e politico. Como se entende o Ladrao do Lula fosse resolver a bandidagem do RJ. PT e PSDB nunca mais. Chega de roubalheira. Chega de sofrimento. Quanto aos bandidos do Rio: Exercito e bala neles. Sem do nem piedade. Alimentam a cidade com mortes e drogas em prol do dinheiro.

  4. a causa e a solução da violência são politicas. o texto deve ser político. porque não legalizar como no Uruguai ?ou vamos nos alimentar do sensacionalismo das tvs? pois o tráfico existe porque há consumidores.não seria a classe média a maior consumidora de drogas ? enquanto houver consumo ilegal, haverá tráfico e violência dos bandidos e da polícia….

    • cristinica de cervantes on

      heleno, permita-me lhe dizer, que é fascista a frase bolsonariana de que: bandido bom é bandido morto. o meu texto é político porque sou um ser politico. quanto a falta de nexo por você alegada, não procede. se não houvesse nexo o editor deste jornal que não é chapa branca não o publicaria.
      continue lendo o que eu escrevo que você vai aprender um pouco mais.

    • cristinica de cervantes on

      igor meu chuchu com camarão bem carioca, você precisa escrever mais nesta Vila da Utopia. escreva mais e mais. imagine que o heleno do post acima quer contrariar o exercito brasileiro, que na figura de seu comandante maior o general eduardo dias da costa villa bôas, contrário a presença do exercito no combate ao tráfico de drogas, roubo a carga, porque não é função das forças armadas. por causa destes equívocos é que sua escrita lúcida é valiosa. escreva meu benzinho escreva que eu gozo.

  5. cristinica de cervantes on

    um outro papo reto. respondi ao heleno por que ele não poderia dizer que o texto do fernando brito é confuso; político sim, porque afinal é o fernando brito, de texto irretocável, uma grandeza da imprensa nacional. e é verdade que o meu texto pode ser confuso. heleno, quantas horas são?

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