O futuro de Itabira foi ontem

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|Uma crônica especialmente para leitura do prefeito de Itabira, Marco Antonio Lage|

“Itabira, tesouro fechado de homens e mulheres”. Cornélio Penna, o itabirano de Petrópolis nasceu em 20 de fevereiro de 1896 e ficou encantado aos 61 anos, no dia 12 de fevereiro de 1958, em sua casa-museu no bairro Laranjeiras, Rio.

Um Busto no Jardim

“Não sei se Itabira prestou ou prestará qualquer homenagem ao romancista falecido há pouco, mas se alguém já mereceu de uma cidade um busto no jardim ou pelo menos dar nome a uma rua, esse é Cornélio Penna”. Trecho da crônica Itabira e Romance, de CDA, em 1958.

Em 1958 era prefeito de Itabira, José Eliziário Barbosa (1957-1959). Ele governou a cidade em tempos duríssimos para a Prefeitura. Há dezesseis anos a lei e a ordem da expropriação territorial e devastação cultural, asfixiava toda a Cidadezinha com o pó expelido da sangria do Cauê. Foi uma pandemia, deixou sequelas crônicas, inclusive a Cauêite.

Mas o prefeito daquela época não ouviu o poeta Drummond sugerir um busto-homenagem do escritor e pintor Cornélio Penna para Itabira. Não vislumbrou que aquele busto no jardim suavizava o futuro da cidade. Ao correr do tempo, o pedido do itabirano Andrade foi recolhido, mas agora a expectativa revigora-se com o prefeito Marco Antônio Lage, que é jornalista e de sensibilidade literária.

Ilustração de Cornélio Penna para o romance, Espelho d’Água, Jogos da Noite, de Onestaldo de Pennafort (1902-1987)

No governo do PT – também duro, com o pancadão da privataria Fernandiana –, o prefeito Jackson Tavares (1997-2000) inseriu Itabira na história da arquitetura mundial ao construir o Memorial Carlos Drummond de Andrade, arte assinada por Oscar Niemeyer – o Anjo Comunista.

Agora é a vez do novo prefeito ampliar a visão de futuro da cidade, ao reconhecer Cornélio Penna como cidadão itabirano – não honorário – sim, na RUA. Porque ele, Cornélio, é quem declarava em profundidade metafísica: “Itabira, minha melhor amiga”.

A inspiração de publicar uma crônica especialmente para o prefeito veio depois de ler, na Vila de Utopia, que a Prefeitura está conectada com as vozes das ruas, que dialoga com o Comitê Popular dos Atingidos pela Mineração e que estuda reabrir o Banco do Povo –, tecnologia social importantíssima para o desenvolvimento econômico e civilizatório da cidade. E lembra também, do Restaurante Popular, outra tecnologia fundamental pra depois da vacina contra a Covid-19.

Se cheguei até aqui, não custa sugerir jardins para Cornélio que ficará bem colocado no jardim do calçadão do Centro Cultural, esquina da avenida desdrumondizada – uma procopada do poeta Drummond, advogada pelo professor Arp Procópio e sustentada pelo jornal O Cometa.

Ou no Pico do Amor em simetria com a rua Santana, a Casa da Ponte, a Casa de Didina Guerra. Cornélio lá no alto, de frente para a sua melhor amiga. Ou na rua Tiradentes, na Itabira Antiga e sem nenhum monumento. Ou nas proximidades da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, dado que o Cornélio Penna nasceu católico e fez a profissão de fé. Viva Cornélio Penna, o itabirano!

PS.: Acabei de lembrar de dar mais um toque ao prefeito: Marco Antonio, faça uma visita ao Cemitério do Cruzeiro – construído em 1855, pelo empreendedor Cassemiro Carlos da Cunha Andrade – que abriga a maior coleção, a céu aberto, de obras do santeiro e ativista político pelo Partido Operário, o mestre Alfredo Duval.

Dá tristeza ver cruzeiro, esculturas, túmulos, lapides, tudo decompondo como se não houvesse o significado afetivo e histórico. À esquerda da entrada do Cruzeiro tem o prédio da antiga cadeia, um lugar que o promotor cultural Bitinho Norberto de Jesus sonha criar um museu da história das (os) afro-descentes de Itabira.

Já imaginou prefeito, um lugar de história e cultura no ponto mais alto do Centro da Itabira? Dois pontos do futuro no passado: o eterno e o permanente. Vai lá prefeito, veja, sofre e chore o descaso inaceitável. Da penúria do Cruzeiro você pode ouvir o funcionário zeloso que é o Wilson Couto, o Knor. Boa leitura, ao prefeito, às leitoras e aos leitores!

(Cristina Silveira)

ITABIRA, a do poeta

– Crônica de viagem a Itabira do escritor e crítico literário Waltensir Dutra

Uma cidade cheia de sugestões literárias – Cornélio Penna, menos popular do que Carlos Drummond – Didina Guerra, vizinha do poeta – Quando param os motores – O Itabirano.

Itabira é uma cidade difícil.  O contraste violento que o forasteiro desavisado encontra logo ao entrar na cidade, dificulta a aproximação. Pelas ruas estreitas e empoeiradas, cujas casas, de tão mal conservadas dão a impressão de que vão desabar, transitam em média, duzentos e cinquenta caminhões no transporte do minério de ferro. O aspecto de decadência das ruas tortuosas não se harmoniza com o movimento de veículos.

Depois, é a topografia que dificulta uma noção do conjunto. Itabira é, praticamente, uma rua comprida que dá volta ao morro. Daí as perspectivas que oferece serem sempre incompletas, e só de avião é possível ter-se uma visão panorâmica da cidade. Já disseram que Itabira se oculta atrás dos morros…

A princípio, tudo é desconfortável, fechado, quase hostil. A agitação é a poeira dos caminhões, a dureza dos “pés de moleque” que calçam as ruas (70% de ferro…), o aspecto pardacento da cidade, criam no visitante uma quase sensação de mal-estar. Não obstante, sente-se que atrás de tudo aquilo há uma outra cidade, uma outra vida que a custo iremos descobrindo, uma força e uma unidade que não sabemos bem qual seja. Não é o movimento do minério, é quase alguma coisa que existe apesar desse movimento, um clima de antiguidade que resiste a todo o moderno, do bairro do Pará, a Vale do Rio Doce e até aquele pretensioso edifício dos correios, moderno de mal gosto espremido entre sóbrios coloniais.

QUANDO PARAM OS MOTORES

Mas há um momento em que a cidade é tranquila e silenciosa, como deve ter sido antes da Vale do Rio Doce, antes que o minério tomasse as proporções atuais. É no domingo pela manhã, entre sete e nove horas, quando os caminhões estão nas oficinas, as escavadeiras dão um descanso ao Cauê, os funcionários da companhia estão dormindo e os itabiranos estão na missa. Com o silêncio, a austeridade dos casarões coloniais enriquece a calma das ruas, Itabira retoma a face antiga.

O próprio calçamento parece já não ser tão impraticável. O forasteiro abandona o Hotel dos Viajantes e vai andando devagar pelas ruas, que ele não consegue dissociar de alguns dos mais belos versos da nossa língua. Porque Itabira, o sabemos todos, é a terra de um poeta.

Um dos edifícios mais característicos é o hospital, que pelas suas proporções e pelo curioso da sua arquitetura colonial atrai logo o olhar do visitante. Também o Itabira Hotel é um belo exemplo de edificação colonial, embora o precário estado de conservação da sua fachada.

Subimos uma ladeira, e encontramos a igreja Nossa Senhora da Saúde. Apenas a fachada remotamente o esplendor de outras igrejas mineiras – Itabira é uma cidade pobre; o interior das igrejas é sempre modesto e descaracterizado por sucessivas reformas. A única que tem algum valor artístico é a do Rosário, num canto tranquilo de Itabira, e que foi tombada pelo Serviço do Patrimônio, cremos que devido a uma solicitação do poeta.

Junto a igreja do Rosário está a casa de Didina Guerra, que os leitores de Cornélio Penna e dos Contos de Aprendiz conhecem bem. Da janela onde Didina passava as horas, descortinava-se uma paisagem realmente bela: ao fundo o Cauê, ao lado de uma estrada que sobe para o Pico, à direita um trecho da cidade. Dalí ela apostrofava os passantes e recebia xingamentos e as pedradas dos meninos.

Bem próximo à casa da personagem real, vamos encontrar a do poeta. Fica na rua principal, naquela rua que dá voltas num dos poucos trechos em que é larga. Dá frente quase que para a mesma paisagem que se vê da janela de Didina Guerra. É um bonito sobrado de cinco sacadas, de esquina, próximo à Matriz. Bem conservado, o casarão tem excelente aspecto. Situado em ponto não muito central, parece ter sido poupado pela poeira ferruginosa.

Detemo-nos a contempla-lo, pensando no dia em que, ao lado da porta, uma placa de bronze esclarecerá: “Aqui nasceu e, por algum tempo viveu o poeta Carlos Drummond de Andrade”.

O ITABIRANO

Mas Itabira não é apenas casas, é antes de tudo um clima, e dele fazem parte os homens. O itabirano é reservado, mas tão logo percebe o amor que a sua cidade desperta no visitante, tão logo descobre o interesse do forasteiro por aqueles velhos casarões, o seu desejo de andar pelas ruas íngremes perde muito da desconfiança. A hospitalidade é perfeita, mas só desaparece a reserva depois de ficar constado que, ao contrário do que geralmente acontece, a cidade não nos parece detestável, mas atraente, curiosa, como se tivesse um mistério a ser desvendado. (No Hotel dos Viajantes, alguém disse, ao almoço, “Nunca vi cidade tão desgraçada de ruim”).

Somente depois de ter vivido Itabira num domingo de manhã, depois de ter conhecido a falta de caráter do Pará, bairro de casas novas, depois de ter conversado com os itabiranos é possível começar a compreender a cidade de Itabira, “noventa por cento de ferro nas calçadas e oitenta por cento de ferro nas almas”.

A CIDADE E O SEU POETA

A rigor, não se pode dizer que o poeta seja popular na sua cidade. O cidadão sim, é conhecido e muito. Todos sabem da sua existência, sabem que é escritor, mas os que realmente leram alguma coisa dele não são muitos. Os mais velhos o aceitam ainda desconfiadamente, e é entre os da sua idade que ele vai encontrar melhor compreensão.

A nova geração, essa só o conhece de ouvido e de ver seu nome nos jornais. Desconhece o poeta como desconhece a cidade – todos desejam abandoná-la, votam-lhe um desprezo que nos parece melancólico; contemplando o Cauê semiarrasado, compreendemos de onde chega aos jovens a inquietação, o desejo de partir. E nos perguntamos se o poeta terá sofrido o mesmo, se algum dia a sua cidade terá sido para ele a prisão que é para os moços de hoje.

Cornélio Penna, o cronista de tantas cenas itabiranas, é bem menos conhecido. Somente as gerações mais velhas leram algum livro seu. Os novos placidamente o ignoram.

A OUTRA CIDADE

Já agora a impressão de hostilidade desapareceu completamente. Descobertos os pontos de contato com a cidade, o resto se vai revelando como que por acréscimo. As ruas intermináveis, pelas quais os personagens de Cornélio andam longas introspecções, são realmente maravilhosas na sua humanidade, no seu jeito ressentido de cidade ofendida.

Se estiverem sem pretensão e sem plano, gratuitas, cheias de recanto, de sugestões e de vozes. Esta casa que antes não notávamos, como nos parece agora plena de sugestões, como se silenciosamente nos contasse uma história!

E à noite, os postes muito compridos colocam ilhas de claridade numa cidade que tem um aspecto estranhamente irreal, como se pertencesse apenas ao mundo da ficção e da poesia.

DADOS ESTATÍSTICOS

Itabira tem dois hotéis, um cinema bom, dois hospitais (um da Vale do Rio Doce, S.A), e segundo os dados do IBGE sua população urbana é de 7.002 habitantes, estando colocada em 307⁰ lugar entre as cidades mais populosas do país.

[Correio da Manhã, 28/3/1953. Fonte: hemeroteca da BN-Rio]

No destaque, o antigo paredão, no centro histórico de Itabira (Foto: Miguel Bréscia)

 

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4 Comentários

  1. Mauro Andrade Moura on

    Cornélio Pena deixou sua ligação à Itabira em seus escritos, nada mais justo do que fazermos uma justa homenagem a este escritor que sempre prezou nossa terra.
    Vamos lá, Marco Antônio Lage, faça valer seu gosto pela boa literatura e consiga erigir esse busto em homenagem ao Cornélio Pena bem ali no Paredão da Rua Tiradentes.

  2. Cristina Silveira on

    Depois de ler o artigo saboroso do Rafael, uma elegia ao café nosso de todos os dias, fiquei pensando: se Itabira fizer Cornélio Penna um cidadão itabirano pra todo o mundo saber e ver e se, principalmente, restaurar o Cemitério do Cruzeiro, eu prometo uma noitada com café de Santo Antônio do Rio Abaixo de onde recebo café do produtor (só pra família e amigos), do Walter Lacerda….
    Vamos prefeito, me faça encher a cara de café…

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