O drama de Monteiro Lobato. Um cabra marcado por calundus

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Por Cristina Silveira 

“Não há mortos em literatura! Tenho observado que a modernidade, atacando violentamente uma porção de preconceitos antigos, não se dá conta de que cria uma porção de preconceitos novos…” (Cassiano Nunes, ML vivo).

Em 2019 a obra do escritor e editor Monteiro Lobato (1882-1948), o “Victor Hugo” do petróleo,cai em domínio público. E espera-se, finalmente, que se publicite a obra fenomenal do editor iluminado.Em 2007, o STF pôs ponto final na querela entre a família Lobato e a Editora Brasilense. Contenda cruel, que por anos a fio inviabilizou novas edições, de modo que os ‘livros velhos’ de Lobato estão se esgotando nos sebos.

A Constituição Federal de 1988 e os 14 anos do PT no poder atiçaram, sobretudo a juventude, ao empoderamento cidadão. Também fizeram emergir as mazelas, as rudezas, a atávica ignorância deste “vastíssimo arquipélago de ilhas humanas”, como um desencravamento desentidos reprimidos, cruéis…Liberdade, ainda que tardia!

Em 2010 o Instituto de Advocacia Racial (Iara) impetrou mandado de segurança para que o MEC retirasse da lista de leitura obrigatória nas escolas, Caçadas de Pedrinho. Racismo, o objeto do reclame. Lobato é dito racista, eugenista e simpatizante da Ku Klux Kan. E também falam, que Narizinho e o pó de pirlimpimpim são apologia à cocaína.

Agora, não se pode mencionar Lobato e Gilberto Freyre sem que a esquerda espume o ranço nosso de 500 anos. É o julgamento popular e consequente, a possibilidade de compreendermos quem somos e o que queremos como Nação.

O quê? E como? Neste século, Lobato responderia a estas questões?

Nem por isso vou renegar os 16 volumes com artigos, entrevistas, cartas e contos. Quero mais Lobato, desejo A Barca de Gleyre e o raríssimo Zé Brasil (1947).Quero assistir Lobato –, reconhecido excelente fotógrafo –, na década de 30 dirigiu um filme de 16 milímetros. São 4 minutos de cenas de família no quintal de casa, de ruas de SP, para terminar com 20 segundos de desenho animado feito com caneta nanquim direto na película.

O cronista Lobato é gênio, visionário, aflito, afoito, oleífero, petrolífero, nacionalista passional. Lobato não nasceu pra tapiá, nasceu para ser Grandeza do Brasil.

Editou livros e como devoto indelével publicitou os livros, as vezes de forma simples e genial, como a sugestão que fez ao governo do Rio, de trocar o tíquete de passagem de bondes por livro.

Ousa, teima, pesquisa, prova e publicita a existência de petróleo no Brasil. Mas se não tem petróleo para quê? uma Secretaria do Petróleo. Se não tem petróleo, por que? os EUA pesquisam petróleo no Brazil. Castigado pela infâmia,acusado de chefe de quadrilha pagou seis meses de cadeia, à que ele respondeu:

“O mal da justiça humana está na falta duma lei que vou fazer quando for ditador: todos os juízes, depois de nomeados e antes de entrar no exercício do cargo, tem que gramar dois anos de cadeia, um de penitenciária e um mês de “cela”, a pão e água, e nu em pelo. Só depois, então, assumiria a vara – e as varas iam ficar macias como veludo.”

As velhas casas do Saber

Os sebos são casas, de modo geral as velhas do Rio Antigo. E nelas coabitam a ficção e a realidade, assombrações e gatos. O Sebo Academia do Saber é um negócio de família, de pai para filhos – três livreiros e 3 casas com o mesmo nome. E lá está a bela Taís, filha do Renato Pereira, terceira geração de livreiros se preparando para o futuro, entre livros.

Buscar em sebos é uma ciranda de alegria, de prazer. E de tristeza quando não se pode comprar o que se deseja. Livro deveria ser de graça –, subvencionado pelo Estado e pelos autores ricos –, a serem entregues de porta-em-porta.

Quis o acaso me oferecer uma outra face de Lobato, entre livros no Sebo Academia do Saber,quando lá entrou uma mulher, dona de casa e nela se distinguia o martírio do sacro-ofício de criar filhos e netos, a procurar pelo Lobato. Pois ela queria um ‘livro velho’, não importa o título, mas há de ser ‘velho’. Mas Lobato, pasmem, está esgotando nos sebos.

A mulher se abateu, impaciente revelou que precisava do objeto para fazer uma infalível simpatia. Sim, simpatia para curar o neto de 7 anos que não lê, não escreve, não gosta de ir à escola (porque a escola não é amável, bem sei!). Fez de tudo para salvar o neto da descrença na escola, pagou explicadora, levou ao psicólogo e de nada valeu. Até que uma outra avó lhe deu a receita de uma simpática simpatia: escrever o nome completo da criança num papel e colocar entre as páginas de um ‘livro velho’ do Lobato. É batata, garantiu a outra avó.

Por duas vezes os homens bons da ABL negaram cadeira de acadêmico ao Lobato. Não fez falta! De tanto levar pedradas vivo e pós morte, resiste, e provoca preconceitos novos. Ao mesmo tempo que se torna beato, salvador dos desamparados estudantes brasileiros. É o reconhecimento da importância e grandeza da figura impressionante de, José Bento Renato Monteiro Lobato.

O mundo vira. Que horas são?

[“Quem está com o Brasil é criminoso. Só vale, só tem recompensas quem está com os abutres que devoram o país e vendem-no.” ML, década de 30] 

[“Incrível esta terra. O Oscar Cordeiro foi o descobridor do petróleo na Bahia e graças a ele surgiu o poço número 1. Pois bem: em vez do monumento ao qual fazia jus, perseguem-no. O programa. Meu caro, é aquele mesmo: transformar isto aqui num imenso filha da putal…” Década de 40]

 

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Sobre o Autor

6 Comentários

  1. Everaldo Gonçalves on

    Bom dia Carlos Cruz. Parabéns pela postagem.
    Sou um estudioso de Monteiro Lobato o precursor da pesquisa de petróleo e ferro no Brasil, além de ter iniciado a indústria gráfica e editoria de livros em nosso pobre país. Sou geólogo incentivado pela leitura do Poço do Visconde . Ab Everaldo

  2. Mauro Andrade Moura on

    Quase que perdemos a Tia Nastácia e seus causus, por conta de visões deturpadas e descontextualizadas do nosso meio e da transformação social que o Brasil vem sofrendo desde finais do século XIX.
    Belo texto, Cristina.

  3. Cristina Silveira on

    Caro Mauro, você tem informações sobre o deputado do império, Arthur Itabirano e Menezes? Ele também foi editor do Jornal O Tempo em Itabira e A Sentinela em Villa Rica, se vc tiver alguma coisa, fico grata.

  4. Moisés Damião de Souza on

    Obrigado, Cristina. Coincidentente eu lia o seu texto e ouvia o Programa Recitais Brasileiros na Inconfidencia FM e foi uma mistura muito prazerosa. Fechei bem o meu domingo.

    • Cristina Silveira on

      Moisés, você ‘leu eu’, ouvindo musica brasileira…., é uma declaração de pureza com as coisas do Brasil. sou ouvinte de radinho de pilha, durmo com ele ligada na rádio mec; não consigo sintonizar na Inconfidência. Abraço para você Moisés.

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