O Cometa Itabirano, o fim do regime militar e a liberdade de expressão estão expostos no Centro Cultural

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Em novembro de 1979, quando surgiu o jornal alternativo (ou “nanico”) O Cometa Itabirano, o general presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo (1979/85) estava há poucos meses na presidência do país, e, com enfado, dizia preferir o cheiro de seus cavalos nas estrebarias que o odor do povo, dos trabalhadores suados, protestando nas ruas ou fazendo greve geral por melhores salários e condições de trabalho.

Ou ainda do cheiro dos estudantes mobilizados nas universidades pelo fim da ditatura militar, participando do movimento pela anistia e pelas eleições diretas já para presidente da República. Contrariado, Figueiredo se viu obrigado a dar prosseguimento à “distensão lenta, gradual e segura” de seu antecessor, o também general Ernesto Geisel (1974/79).

A ditadura militar vivia o seu crepúsculo, mas ainda existiam os bolsões de resistência à redemocratização do país, os grupos paramilitares como o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) – e de outros setores considerados duros das Forças Armadas que se opunham à política de abertura forçada pela força das ruas.

Esses milicos se apegavam às “benesses” das “maracutaias”, traduzidas em polpudas propinas que rolavam com a construção de megas projetos como a ponte Rio-Niterói, a usina hidrelétrica de Itaipu, no Paraná, para gáudio de conhecidas empreiteiras nacionais mancomunadas com os militares, todos saudosistas do AI-5 com o qual se prendia e arrebentava, com torturas e mortes, todos aqueles que se opunham à ditadura.

Terrorismo

Esses grupos paramilitares, que hoje continuam existindo na forma de milícias amigas do presidente que hoje ocupa o palácio do Planalto, montaram um grande aparato para promover atos terroristas com o intuito de criar clima para um novo retrocesso, o que, imaginavam, colocariam fim à onda redemocratizante que avançava por todo o país.

Puma explode com bomba que ia detonar no Rio Centro, matando o sargento Rosário e ferindo gravemente o capitão Machado. Eles planejavam acabar com a festa do Dia do Trabalhador (Foto; acervo O Globo)

Esses bolsões de resistência, formados por militares radicais de direita, promoveram inúmeros atos terroristas. Explodiram bancas de revistas que vendiam jornais alternativos (O Pasquim, Movimento, Opinião, Versus, Coojornal). Perseguiram sindicalistas, padres e pastores progressistas.

Mataram a secretária da OAB do Rio, Lyda Monteiro, ao abrir uma carta-bomba em 4 de agosto de 1980. Na época, como agora, a OAB incomodava esses radicais de direita, ao denunciar o desaparecimento e a tortura de presos políticos.

Como parte dessa mesma onda terrorista da extrema direita militar, uma grande tragédia por pouco não acontecia em abril de 1981, no Rio de Janeiro. Foi quando um sargento e um capitão do Exército planejaram detonar uma bomba no Centro de Convenções do Rio Centro, onde um show com Chico Buarque antecipava a comemoração do Dia do Trabalhador.

Os tresloucados sargento Guilherme Pereira do Rosário e o capitão Wilson Dias Machado planejaram acabar com a festa explodindo uma bomba no local. Mas o artefato acabou explodindo prematuramente no colo do sargento, matando-o – e ferindo gravemente o capitão Machado.

Uma segunda bomba foi detonada a alguns quilômetros de distância, na miniestação elétrica responsável pelo fornecimento de energia ao Riocentro. Por sorte, explodiu no pátio sem ocasionar o corte de energia.

Foram os últimos atos terroristas praticados por militares radicais de direita. Agonizante, a ditadura militar se encerrou com o fim do mandato de Figueiredo, que durou seis anos, colocando fim aos 21 anos de regime militar.

Contexto histórico

No banco dos réus, na IV Auditoria Militar, em Juiz de Fora: Hélio Fernandes Filho, Hélio Fernandes, Paulo César Branco e Carlos Cruz. Acima, os advogados Arutana Coberio Terena, José Carlos Dias e Evaristo de Moraes (Foto: Tribuna de Minas).

Foi nesse contexto histórico que surge jornal O Cometa Itabirano. Com coragem e bravura participou de todo o movimento pela redemocratização do país. Sofreu pressões de vereadores que pediram censura ao jornal junto ao Ministério da Justiça.

E o repórter Carlos Cruz foi processado pela famigerada Lei de Segurança Nacional (LSN), entre 1981 e 1983, por ter denunciado o ex-ministro das Minas e Energia César Cals de Oliveira (1926/91) de embolsar esmeraldas em Itabira, depois de fazer uma concessão de direito de lavra para explorar as valiosas pedras preciosas. Leia mais aqui.

Para o ex-ministro, assim como Luís XIV, rei da França entre 1643 e 1715, que dizia que L’État c’est moi, César Cals também achava que ele era o próprio Estado. Uma atitude que era comum no regime militar.

Nessa mesma época, o seu colega de farda Mário Andreazza (1918/88) processou pela mesma LSN o jornalista Juvêncio Mazzarollo, do Paraná, que acusou o ex-presidente da Itaipu Binacional de práticas corruptas, como era comum também entre tantos outros ex-ministros militares.

Mazzarollo ficou preso entre 1982 a 1984, tendo sido o último preso político sobre a ditadura militar. O jornalista faleceu em 5 de julho de 2014.

Humordaz 

Pois foi assim, ainda sob a égide do terrorismo de Estado, que prendia e arrebentava o povo nas ruas em protesto pelo fim do regime militar e pela redemocratização do país, que começa a brilhar nos céus de Itabira e se espalha pelo país e até para o exterior o hebdomadário O Cometa Itabirano (1979/2014).

Por 35 anos o jornal combateu o bom combate contra o obscurantismo em Itabira e no país, provocando a mesmice itabirana com humor e deboche. Com a crítica contundente levantou o tapete para mostrar a sujeira que os poderosos escondiam, com dados, provas e informações, com humordaz. Tornou-se, assim, uma das mais importantes – e a mais longeva – publicações alternativas do país.

Exposição

Passados 40 anos, uma mostra de como foi esse jornalismo praticado pelos “ousados meninos de Itabira”, nas palavras do poeta maior, estará disponível ao público na exposição A Liberdade de Expressão na Trajetória d’O Cometa Itabirano, que tem curadoria do escultor e cartunista Genin Guerra — um dos fundadores do jornal.

A exposição será aberta neste sábado (21), às 18h, na galeria da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), que patrocina e promove essa importante mostra cultural e política reportada pelo intrépido jornal itabirano. E fica exposta até 31 de janeiro, de segunda a sexta-feira, no horário de 8h às 18h. A entrada é gratuita.

Antecedentes

A mostra cultural e jornalística começou a ser planejada em abril, quando Renata Almada, uma parceira da cultura itabirana, procurou a FCCDA sugerindo a realização de uma mostra cultural e jornalística em homenagem aos 40 anos d’O Cometa Itabirano. Desde então, a fundação manteve diálogos constantes com os fundadores do periódico para a montagem da exposição.

Foi um trabalho que demandou intensa pesquisa no vasto acervo do jornal, mantido por seus fundadores. O resultado pode ser visto na exposição. A FCCDA produziu também um documentário que conta a origem do jornal, que será exibido na abertura da mostra. Posteriormente, ficará disponível nos canais de comunicação da instituição.

Agenda de Natal tem Tumbaitá e bloco Altamente na praça Acrísio

Bloco Altamente e Batucada Brasileira (Foto: Gustavo Linhares)

Para completar o fim de semana, acontece neste sábado, às 20h, na praça Acrísio de Alvarenga, na região central de Itabira, o espetáculo Folia de Reis e Pastorinhas, com o grupo parafolclórico Tumbaitá, que realiza a sua última apresentação em 2019.

Em seguida, o Bloco Altamente leva à mesma praça toda a energia da folia momesca, já esquentando os tambores para o carnaval itabirano.

A apresentação também marca a conclusão da oficina Batucada Brasileira – uma parceria com a FCCDA que aconteceu nas últimas semanas.

 

 

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2 Comentários

  1. Obrigada pelo carinho e pela oportunidade de aprender mais sobre a história de Itabira através do Cometa! Exposição gostosa, delicada, rica, “enfan” belíssima! Itabira sempre massa! Obrigada

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