O Cometa Itabirano, memória monumental de Itabira: nada de fofocas e intrigas venais, meus senhores

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Sabe lá o que é isto?

Quando um Cometa rasgou o céu coberto de partículas de ferro em suspensão no ar de Itabira, a sociedade não sabia que o objeto luminoso fulgurante e visível, viera para o ato de provocar e resistir. Provocar a cidade adormecida no século 18 e resistir ao cruel empreendimento industrial na cidade de ferro e de tristeza sem fim. Uma “Cidade infeliz”.

Capa de O Cometa em 2013. No destaque, o trem venal que leva Itabira (Ilustração: Genin)

O jornal O Cometa Itabirano foi um feito extraordinário de alguns rapazes de Itabira. Agora é um monumento cultural criado durante o final do século 20 e continuou a brilhar no século 21, renovado, mais plural sob o Estado democrático de direito.

O Cometa foi muito discutido, um jornal exaltado com entusiasmo ou negado com violência pelos senhores respeitáveis, homens de bem. Atualmente volta a ser muito discutido por novos homens de bem, novos senhores respeitáveis.

Finda essas mal traçadas linhas, deliberadamente ouso sugerir à FCCDA mandar instalar no Pico do Amor, um banco pra dois sentados, com uma placa: “Jornal O Cometa Itabirano”.

E como ponto final, ofereço aos ainda Mininos de O Cometa uma crônica de Luiz Martins muito apropriada à obtusidade da conjuntura política brasileira. (Cristina Silveira)

Leiam Maquiavel

Luís Martins

Um escritor tinha um livro manuscrito cobiçado por dois editores para publicação – digamos, o editor A, que reside no Rio, e o editor B, que tem sua casa instalada em São Paulo. Ambos eram amigos do escritor, que mora na capital da República.

O escritor escolheu o editor A e escreveu ao editor de São Paulo uma carta muito afetuosa em que ele explica as razões da preferência que dera ao outro, porém manifestando o desejo de que a velha amizade que os ligava continuasse inalterada. E entregou os originais ao editor A.

Qual não foi seu assombro quando, dias depois, recebe em casa os originais de volta, com uma carta indignada em que A lhe dizia ter sabido, de “fonte segura”, que ele procedera incorretamente, pois, ao mesmo tempo que propunha a publicação da obra fazia o mesmo com seu rival paulista!

O escritor, meio tonto, correu imediatamente à casa comercial de A, para exigir explicações.

– Você me conhece e sabe que eu seria absolutamente incapaz de tal procedimento. Como foi acreditar numa coisa dessas?

Obstinado, o editor só sabia responder:

– Tenho certeza. Soube de fonte segura.

O escritor ia quase tendo um acesso de loucura furiosa quando, subitamente, seus olhos pousaram por acaso no telefone sobre a mesa. Teve uma inspiração.

– Você me permite que faça uma ligação para São Paulo?

– Pois não.

Em comunicação com o editor de São Paulo, o escritor perguntou-lhe:

– Olhe, fulano. Em algum dia lhe propus publicação de meu livro?

– Absolutamente. Você sabe que não propôs – espantou-se o outro.

– Então, você vai me fazer um favor. Escreva-me imediatamente uma carta dizendo isso e junte a ela cópia da carta que lhe mandei. Depois lhe explico o motivo.

Dois dias depois, recebia em porte expresso, o que solicitara. Não sei qual a cara que fez o editor carioca e muito menos a tal “fonte segura” que o informara.

O que sei é o seguinte: esse Intrigante era um homem sem imaginação. O que, aliás, parece ser o mal da maioria dos intrigantes. Se aquele indivíduo queria mesmo fazer uma intriga, por que foi escolher uma coisa tão pueril, tão ridícula, tão fácil de ser desfeita? Então não via logo que o escritor, com um simples telefonema, podia desmanchar todo o enredo?

A intriga é uma arte difícil. Requer imaginação, inteligência, astúcia, agilidade de espírito e uma capacidade tão grande de embrulhar as coisas, que as suas histórias acabem sempre como esses novelos de linha que se embrulham e de que ninguém é capaz de encontrar a meada.

Há, no gênero, verdadeiras obras-primas, naturalmente ignóbeis, mas que afinal acabam despertando certa admiração pela sutileza, pela inteligência plástica e sinuosa que revelam. São obras que exigem a capacidade de um Maquiavel.

E este seria o conselho que eu me permitiria dar aos que acaso desejem se dedicar ao terrível e tenebroso esporte da calúnia:

Leiam Maquiavel!

 

 

 

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1 comentário

  1. Juntamente com a calúnia vem um ditado muito antigo, ” Quem desdenha quer comprar” .
    Uma pessoa que perde seu tempo em calúnias é por que no fundo tem algo a esconder ou a temer.

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