O capeta faz das suas em Itabira

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Reportagem da revista O Cruzeiro, a mais importante publicação semanal do país na época, na primeira edição de dezembro de 1970 revela graves acontecimentos que abalaram Itabira numa turbulenta conjuntura político-religiosa. Seriam coisas do Mefistófeles?, perguntam ainda os crédulos. Já há os que acreditam que tem uma “cabeça de burro” (ou seria com chifre?) enterrada na cidade sabe-se lá em que lugar. Ou seria tudo isso mesmo obra da incúria dos homens que tinham poder de decisão? São mistérios, ou infortúnios, da Cidadezinha Qualquer que ainda cisma com a derrota incomparável. Leia abaixo e saiba mais:

Abertura da reportagem que narra os graves acontecimentos que culminaram com a perda de um patrimônio histórico e religioso incomparável (Fotos: O Cruzeiro – Acervo: ABI – Pesq.: Cristina Silveira)

Obra do acaso ou artes do Capeta? As opiniões divergem sobre fatos estranhos que estão acontecendo na pacata Itabira. O vigário, candidato à Prefeitura, ficou sem a centenária igreja, que desabou dias antes das eleições. (N.R.: o vigário que renunciou para ser candidato a prefeito foi o da igreja da Saúde).

É, sei não… Se a coisa continuar como está indo, aposto que não vai sobrar nem parede para dependurar o retrato de Itabira…

Itabira ainda pergunta: De quem é a responsabilidade por esse malfeito? Das chuvas que caiam torrencialmente ou das detonações nas minas? Ou teria sido obra do Mefisto?

Parado à porta do barzinho, segurando nas mãos grossas a palha que vai se transformar num cigarrinho, o velho habitante da cidade que Carlos Drummond de Andrade imortalizou em versos se mostra cético quanto ao futuro de Itabira, lugar centenário do interior mineiro, montado sobre uma das maiores jazidas de minério do mundo.

Era mesmo preciso derrubar a catedral, não seria possível fazer a restauração com o que restou?

São quase 80 anos de superstição que resolvem falar mais alto que a razão naquele momento de desabafo, depois de muito pensar na série de fatos que abalaram a cidade nos últimos meses e que culminaram com o desabamento da Igreja do Rosário (N.R.: a matriz, a catedral) com mais de 150 anos de existência. Os sucessivos acontecimentos se interligam na crença popular para formar uma história que começa com um Capeta e termina nos escombros de uma igreja.

Morre o prefeito

João tem muito boa memória e bota sua aposentadoria pra fazer ponto diário na porta da vendinha. Relembra 1967 – mais precisamente julho -, quando a sua Itabira deixou a pacatez do interior para ser invadida por repórteres de toda a parte em busca dos detalhes da história de um Capeta que andava solto pela cidade, tentando a vida de duas mocinhas.

Foi um reboliço geral no lugar. O povo, dividido, acreditava e duvidava do que se contava pelas esquinas. Padres, delegado, prefeito, médicos, psiquiatras, psicólogos e até famoso parapsicólogo foram convocados para explicar – com palavras difíceis e muita teoria – os estranhos acontecimentos de Itabira. Porém, tudo passou e caiu no esquecimento.

O pesquisador Josaphat Penna examina detalhe da fabricação do grande sino Elias, da igreja do Rosário, que contém várias incrustações e 15 kg de ouro. Isso enquanto o padre Lopão vistoria os escombros

Veio 1970. Depois de três anos, sem nada de extraordinário acontecer, chega setembro, quando Itabira é envolvida num acontecimento doloroso. O prefeito aparece morto em seu gabinete de trabalho, com um tiro na cabeça. É comprovado o suicídio. Apesar das cartas deixadas, ninguém consegue atinar com as causas. Muitas versões, mas nenhuma oficial.

Desaba a igreja

Chega outubro. A política fervilhando numa cidade que se prepara para as eleições de 15 de novembro. O padre Joaquim Santana de Castro, vigário da paróquia de Nossa Senhora da Saúde, joga sua popularidade numa candidatura a prefeito, contrariando as determinações do bispo local, d. Marcos Noronha, que não aprovava a participação política de religiosos sob seu comando. A insubordinação faz o bispo adotar uma atitude que ninguém entendeu: renuncia a seu cargo na diocese e se retira de Itabira.

Mas o pior veio no dia seguinte: madrugada fria e com nevoeiro, os moradores da praça Monsenhor Felicíssimo acordam com um estrondo, diferente daquele provocado pelas explosões de TNT nas minerações vizinhas.

O cônego José Lopes dos Santos chega à sacada da casa colonial e vê parte de sua igreja centenária – a do Rosário – desabar como se fosse de areia. Com lágrimas nos olhos, desce a escada e pede ajuda aos vizinhos, a fim de salvar o que fosse possível. Com este fato, os supersticiosos do lugar não vacilaram em afirmar: Esta cidade está sob o signo da maldição!

Capeta inventado

Mas a maioria da população não acredita em castigo ou algo parecido e nem correlaciona os fatos para tentar uma explicação. Acha que o Capeta foi uma criação de jornalistas, que o suicídio do prefeito teve razões, e desvinculam a renúncia do bispo e a candidatura do padre, do desabamento da igreja.

Outra pergunta que não quer calar: onde foram parar as peças sacras e ornamentais da antiga Catedral?

O tenente Hermógenes, do Corpo de bombeiros de Belo Horizonte, que ajudou a derrubar as duas torres do templo que ameaçavam também desabar, tem explicações sobre o acontecimento.

Afirma que uma obra de aterro, feita, há alguns anos, na parte lateral da igreja, pode ter provocado um deslizamento do terreno ocasionando o desabamento. A isto devem ser acrescentados os constantes deslocamentos de ar provocados pelas explosões de dinamite nas minerações.

O aterro, as explosões e as fortes chuvas que caíram no lugar devem ter contribuído para provocar o desastre. Estas explicações servem de justificativa para a maioria da população de Itabira, que não acredita em maldição e nem em Capeta.

Mas o velho João mantém-se firme em sua crença de que tudo é obra do tinhoso ao lembrar Carlos Drummond de Andrade (“Itabira vai ser apenas um retrato na parede”), acrescenta:

– Resta saber se vai sobrar parede para dependurar o retrato!

(Revista O Cruzeiro, 1/12/1970. Acervo: ABI – Pesquisa: Cristina Silveira)

 

 

 

 

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6 Comentários

  1. rá rá

    Ja tinha lido esta reportagem literária de O Cruzeiro. Reli agora e transcendi. Me vi lá naquele tempo e vagando por todos os cantos e com todas as pessoas envolvidos nessa instigante história. A real e a fictícia se misturando numa só.

  2. Antônio Basílio Mota, itabirano do Mato Dentro on

    Que genial essa história, puro realismo fantástico. E é emblemática, por mais mítica que seja. Itabira tem uma “cabeça de burro” enterrada, que atravancou – e atravanca – o seu desenvolvimento, essa é uma verdade histórica, por mais fantástica que seja. E essa “cabeça de burro”, que também poderia ser uma pedra no caminho, chama-se, para se dizer com todas as letras, Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), que agora camuflou-se, e se chama simplesmente Vale S.A. Foram seus engenheiros que conduziram o crédulo padre Lopão a aceitar a demolição de toda a igreja, quando poderia passar por um restauro. O bispo que veio a seguir,Dom Mário, que diziam ser progressista, resolveu construir uma “modernidade” em seu lugar, aceitando a derrota incomparável. Como Itabira, que só cisma e se auto engabela acreditando nas palavras de quem só promete e nada faz, segue seu destino inexorável que já se sabe aonde vai chegar. Acorda, Itabira. Já é hora de exorcizar o Tinhoso. E você, pobre cidade rica, já sabe quem é o dito, cujo nome não vale a pena nomear, para não cair em recorrência. Mora soberana, dona das águas, das minas, das mentes, e também do que restou da serra do Esmeril. E tudo se faz e refaz, como se não houvesse o amanhã. Melhor, diz o crédulo, é acreditar naquele que não se ousa nomear, por medo ou susto ou subordinação, o que é pior. Enquanto isso, “penso, cruamente, que Itabira vendeu a sua alma à Companhia Vale do Rio Doce”, como escreveu oi poeta itabirano, que aqui viveu enquanto menino. Verdade maior, não há.

  3. Antonio Basílio, enfim você demonstra lucidez que falta na maior parte do Povo de Itabira (os que venderam a alma a demoníaca CVRD/Vale). Ao texto, político literário, eu não teria dúvida em plagiar. Obrigada, Lucidez! Tenho guardado um poema sobre a lenda da Cabeça de Burro (veio de Oropa) e a serpente que fugindo (deve ter ouvido Tutu Caramujo) das entranhas do Pico do Caué veio descendo desenhando as ruas tortuosas até o cemitério da igrejinha do Rosário dos Pretos, onde se guarda pro dia da redenção.

  4. Me lembro dessa reportagem e agora relendo-a foi como se me teletransportasse para aquela época! Eu estudadava no CNSD, o desespero chegou aos portões do Colégio e assim que saímos subimos a ladeira pra ver o que tinha acontecido. O Pe. Lopão chorava entre os escombros da Matriz e nós, muito assustados, ficávamos apenas como meros espectadores.

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