Notícia elétrica

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Carlos Drummond de Andrade

A vida é espanto e maravilha. E que dizer da manhã?

7 e 25. A alegria do vento, na alegria das árvores. A cidade pula do leito, agitada e contente. Um sol novo, um ar novo, um azul absolutamente novo. Quem lavou a fachada dos prédios, o calçamento das ruas? Quem lavou o ambiente?

Oh! Mas a cidade nasce todas as manhãs. Todas as manhãs se realiza o milagre da criação. Um fiat generoso deixa cair sobre nós a chuva dos divinos prodígios. Agitação. A alma do rumor abre no ar os seus tentáculos.

O barulho da rua é uma sinfonia. A rua está cheia de Wagner, há Wagner nas buzinas dos automóveis e das carroças, Wagner espirrando nas rodas dos bondes, Wagner berrando no grito dos padeiros, Wagner, sempre Wagner!

Decididamente, a vida é maravilhosa! A vida é espanto e maravilha. E que dizer da manhã? Na manhã, as criaturas são mais puras e mais felizes, e o céu se desmancha sobre as nossas cabeças. Sim! O céu se desmancha sobre as nossas cabeças. Gostaram da repetição?

A repetição é um recurso literário. E é também um recurso comercial. Senão, vejamos aqueles vendedores de jornais, que lá estão gritando os seus papeis, sujos. Estão gritando e repetindo: “Correio, Gazeta, Imparcial! “Correio, Gazeta!”.

Os jornais são infinitamente divertidos. Que é um jornal? É a crônica da vida dos outros. Registro, com pouca ou nenhuma gramática, dos heroísmos, das traficâncias e das patifarias dos outros. Os crimes, os desastres, as cotações, os discursos, as poesias, os roubos… Tudo está lá dentro, gemendo e vibrando, entre duas páginas, com tipos grandes, entrelinhas e clichés. Oh! Os jornais…

Vejamos o que dizem essas línguas purulentas: A morte de Lord Carnavon, o terrível Zeca Netto, a greve em Dusseldorf, a procura dos vales-ouro, “como se enforcou Ritinha Piolho de Sapo”, “um cavalheiro sofria de asma”, as conferências internacionais, os filmes da Paramount, a exportação de legumes, espiritismo, fascismo football, o diabo!

Positivamente, os jornais transbordam. Há neles demasiadas informações. Para que contem tantos fatos? Nós não precisamos de fatos. Precisamos, isso sim, de palavras Words, sim de palavras Words, words, como lá dizia o Hamlet…

Sim, refugiemo-nos entre as paredes discretas das livrarias. O gozo intelectual, todo feito de abstrações é perversamente convidativo. Abandonemos a ação. De que vale gritar, subir em aeroplanos, matar, correr, trabalhar? Abro no espírito inquieto um parêntese desanimado…

E, contudo, sou vítima de uma rápida ilusão. Aqui dentro, na livraria, formilha uma vida intensa e trágica, silvante, encaracolante e envolvente.

Os livros tem braços, pernas, buracos de olhos, unhas e dentes. Os livros matam. E há livros que atropelam, outros que se suicidam, outros que furtam o pão de cada dia… E que formidável e doloroso trabalho!

Uma livraria é uma cidade cheia de transeuntes, veículos, arranha-céus, esgotos, magazines, balneários, cassinos…

E nas montras, onde o olhar cansado procura repousar da vida, há o escândalo de um livro novo, vestido de cores novas. É a vida, sempre a vida!

***

[A crônica Notícia Elétrica, foi publicada pela primeira vez no Diário de Minas, BH, em 27/5/1923. Já a transcrição que você acaba de ler é da revista A Vida Moderna, de 14/6/1923. Assim, Notícia Elétrica está sendo publicada pela terceira vez, aqui na Vila de Utopia.]

[A Vida Moderna, 14/6/1923. Hemeroteca BN-Rio]

No destaque, o fazendeiro do ar na escultura em bronze, de Genin Guerra, instalada em 31/10/2002, no Memorial Drummond (Foto: Carlos Cruz)

Carlos Drummond de Andrade (Itabira do Mato Dentro, 31 de outubro de 1902 – Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987)

 

 

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