Nos anos de chumbo da ditadura ecoa o samba popular de Agepê

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Lenin Novaes*

“Moro onde não mora ninguém/Onde não passa ninguém/Onde não vive ninguém/É lá onde moro que eu me sinto bem/More onde moro/Não tem bloco na rua/Não tem carnaval mas não saio de lá/Meu passarinho me canta a mais linda cantiga que há/Coisas lindas vem do lado de lá/Coisas lindas vem do lado de lá/More onde moro/Moro onde não mora ninguém/Onde não passa ninguém/Onde não vive ninguém/É lá onde moro que eu me sinto bem/Uma casinha branca/No alto da serra/Um coqueiro ao lado/Um cachorro magro amarrado/Um fogão de lenha todo enfumaçado/É lá onde moro/Aonde não passa ninguém/É lá que eu vivo sem guerra/É lá que eu me sinto bem/ More onde moro/Moro onde não mora ninguém/Onde não passa ninguém/Onde não vive ninguém/É lá onde moro que eu me sinto bem”.

Antonio Gilson Porfírio, o Agepê (Foto: acervo O Glbo

No mercado fonográfico, em 1975, a música “Moro onde não mora ninguém” vendeu 950.000 cópias, com o público encantado com um artista novato que despontava no cenário musical: Agepê, nome artístico proveniente da pronúncia fonética das iniciais de Antonio Gilson Porfírio. O parceiro na música é o compositor Canário, apelido de Verner Raimundo de Macedo. A dupla assinou mais de 80 composições, sendo que muitas sustentaram a trajetória de sucesso de Agepê, e que ainda estão na lembrança de muita gente por aí.

Agepê, estimados leitores e leitoras da Vila de Utopia, nosso personagem em foco no final de 2017, nasceu no Rio de Janeiro no dia 10 de agosto de 1942 e, na mesma cidade, morreu de cirrose em 30 de agosto de 1995. Antonio Porfírio viveu a infância no Morro do Juramento e, bem cedo, assim como acontece nos morros e favelas do Rio de Janeiro com jovens discriminados e sem oportunidades de ascensão social, ajudava a mãe a garantir a sobrevivência. Vida dura, pois sobreviver nesse país é realmente uma grande aventura.

Órfão e ao chegar à idade para o serviço militar obrigatório alistou-se na Aeronáutica, de onde acabou expulso. Ele trabalhou como transportador de bagagem e, também, numa extinta companhia telefônica. A promoção à carreira artística o fez deixar o emprego. A linha musical que adotou, por alguns críticos considerada brega, contribuiu para popularizar ainda mais o samba e abrir espaços para os mais novos que buscavam espaço no mercado musical. O samba de Agepê é realmente popular, mas, não é vulgar. Vamos buscar entender porque ele era alvo de tantas críticas à época, num contexto de convulsão política no Brasil.

Conjuntura nos anos 1970

Na década de 1970 três generais se sucederam no governo do Brasil, quando a ditadura civil-militar (1964/1985) atingiu o apogeu durante a primeira metade do decênio. O Ato Institucional nº 5 (AI-5) vigorou por quase todo o período, assim como o sistema bipartidário, com a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). No início dos anos 70, o regime militar contou com vasto sistema de inteligência e repressão política que incluía órgãos como o Serviço Nacional de Informações (SNI), os Centros de Informações do Exército (CIEx), Marinha (Cenimar) e Aeronáutica (Cisa), as Delegacias de Ordem Política e Social (Dops), os Destacamentos de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), etc.

Agepê foi capa da revista Veja

O AI-5, editado em 1968, o mais discricionário e duradouro dos atos institucionais da ditadura militar, o qual garantiu a supremacia do “Executivo” sobre os demais poderes, dava “autonomia” ao presidente para fechar o Congresso Nacional, as Assembleias Estaduais e Câmaras Municipais; suprimir direitos políticos, casar mandatos de parlamentares e executar demissão ou aposentadoria de juízes e funcionários públicos; decretar estado de sítio com prorrogação por tempo indeterminado. Fazendo uso desses recursos, Emílio Garrastazu Médici, que havia assumido o poder em 30 de outubro de 1969 para um mandato de quatro anos e meio, protagonizou o governo do período militar na sua maior repressão, amordaçando as forças de oposição e cerceando as liberdades públicas. Foram os chamados anos de chumbo no país.

Apoiado na tortura, o combate à luta armada, iniciada por grupos de esquerda a partir de 1967, recrudesceu e, dia 4 de novembro de 1969, o líder da Ação Libertadora Nacional (ALN), Carlos Marighela foi emboscado e assassinado a tiros em São Paulo.

Em junho de 1973, com vistas à sua sucessão, Médici lançou o general Ernesto Geisel, então dirigente da Petrobras e “castelista” com prestígio junto à linha dura militar, e para vice indicou o general Adalberto Pereira dos Santos, à época presidente do Superior Tribunal Militar. Em setembro, ano seguinte, o MDB decidiu concorrer e lançou os nomes de Ulysses Guimarães e do jornalista e ex-governador de Pernambuco, Barbosa Lima Sobrinho, então presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) que, por encarnarem candidaturas de protesto contra a forma da eleição, foram chamados de anticandidatos. Assim, em 15 de janeiro de 1974, o Colégio Eleitoral, instituído pelo regime militar, sufragou os candidatos arenistas e, dois meses depois, Geisel tomou posse na presidência da República.

Adepto à devolução gradativa do poder aos civis, Geisel deu início ao que ele próprio denominou de “distensão lenta, gradual e segura”. A nova orientação favoreceu a retomada do diálogo com a oposição, a Igreja e setores intelectuais, mas não se fez notar nas eleições indiretas de outubro de 1974. As assembleias estaduais elegeram governadores da Arena, com abstenção ou a ausência do MDB.

Geisel cedeu liberdade de propaganda aos partidos MDB e Arena, inexistente desde a edição do AI-5, e como resultado a oposição conquistou expressiva vitória. O MDB elegeu 335 deputados estaduais (de um total de 787), 160 deputados federais e 16 senadores contra seis da Arena, vencendo nos principais Estados, como São Paulo, Guanabara, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Pernambuco. Em consequência, a bancada arenista no Senado caiu de 59 para 46 cadeiras, enquanto a do MDB aumentou de 7 para 20. Na Câmara, a Arena diminuiu a bancada de 223 para 199 deputados e a oposição passou de 87 para 165 representantes.

A despeito da política de distensão, Geisel volta e meia recorria ao AI-5 para fazer punições e cassações, da mesma maneira que os órgãos de repressão continuaram atuantes contra organizações clandestinas e aos opositores do regime. Em 1974 foi denunciado o desaparecimento de 14 dirigentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que tinham sido presos. Em 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi morto sob tortura nas dependências do Doi-Codi de São Paulo, tendo fato igual se repetido em 17 de janeiro de 1976, com o metalúrgico Manuel Fiel Filho. A versão oficial foi a de que ele se enforcou “com suas próprias meias”.

Os excessos dos órgãos de repressão praticados pela chamada linha dura existente nas Forças Armadas, a qual se opunha à distensão, continuavam a pleno vapor. Geisel exonerou o general Ednardo do comando do II Exército, mas, em 1 de julho de 1976, sancionou a Lei Falcão, que alterou o Código Eleitoral, reduzindo a propaganda política no rádio e TV.

A partir de 1977, entidades civis como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), além de setores sociais, assim como o movimento estudantil, ampliaram a ação em defesa das liberdades democráticas. Na ocasião mais de 400 estudantes foram presos em Belo Horizonte, Minas Gerais, quando tentavam realizar o III Encontro Nacional dos Estudantes.

Geisel, em desconforto com ações violentas da linha dura, exonerou o ministro do Exército, general Sílvio Frota, que aspirava sucedê-lo na presidência da República. Isso abriu o caminho para o general João Batista Figueiredo, chefe do SNI, chegar à presidência, cuja candidatura foi lançada em 5 de janeiro de 1978, em chapa com o então governador de Minas Gerais, Aureliano Chaves. Em 1978 começou o movimento pela anistia política com a fundação do Comitê Brasileiro pela Anistia. Em maio, os metalúrgicos de São Bernardo do Campo realizaram a primeira greve desde o AI-5, a qual projetou no país o nome do presidente do sindicato da categoria, Luiz Inácio Lula da Silva.

Em junho, em atendimento a algumas das reivindicações dos movimentos sociais, o governo enviou ao Congresso pacote de medidas revogando o AI-5, o Decreto-Lei n. 477/69, que previa a expulsão de estudantes por motivos políticos, o restabelecimento do habeas corpus para crimes políticos e a abolição das penas de morte, prisão perpétua e banimento Em 31 de dezembro de 1978 o AI-5 foi abolido e, em 15 de março de 1979, Figueiredo assumiu a presidência da República. Em 28 de agosto daquele ano sancionou a Lei de Anistia, que atendeu a 4.650 pessoas entre presos, cassados ou pessoas destituídas dos seus empregos e permitiu a volta dos exilados e banidos, anistiando também os responsáveis pelas arbitrariedades cometidas em nome do combate à subversão. E o Congresso Nacional aprovou emenda constitucional que extinguiu a Arena e o MDB, restabelecendo o pluripartidarismo.

Samba romântico

Bem, estimados leitores e leitoras, um mergulho à análise da situação conjuntural da época se fez necessária para o entendimento do cenário artístico e cultural, considerada barra pesada na história da vida brasileira. Alguns artistas tinham comprometimento mais direto com as liberdades de expressão e suas obras engajadas às lutas contra a ditadura civil-militar. Agepê, por outro lado, transitava numa linha musical romântica, excessivamente popular. E para ilustrar conduta artística dele publicamos abaixo algumas letras das suas músicas:

Deixa eu Te Amar

“Quero ir na fonte do teu ser/E banhar-me na tua pureza/Guardar em pote gotas de felicidade/Matar saudade que ainda existe em mim/Afagar teus cabelos molhados/Pelo orvalho que a natureza rega/Com a sutileza que lhe fez a perfeição/Deixando a certeza de amor no coração/Deixa eu te amar/Faz de conta que sou o primeiro/Na beleza desse teu olhar/Eu quero estar o tempo inteiro/Quero saciar a minha sede/No desejo da paixão que me alucina/Vou me embrenhar e nessa mata só porque/Existe uma cascata que tem água cristalina/Aí, então, vou te amar com sede/Na relva, na rede, onde você quiser/Quero te pegar no colo/Te deitar no solo e te fazer mulher/Quero te pegar no colo/Te deitar no solo e te fazer mulher/Deixa eu te amar/Faz de conta que sou o primeiro/Na beleza desse teu olhar/Eu quero estar o tempo inteiro”.

De todas as formas

“Me dê a posse do teu corpo/Descobre o rosto/Tira o véu/Pra dar mais vida a minha vida/Me dê sua boca com gosto de mel/Eu te amarei de todas as formas/E amar assim meu bem/É um mar de rosas (2x)/É te ver tão dengosa me dando carinho/Ó doce musa felina da minha paixão/É paixão/É paixão, uma força estranha me faz delirar/O desejo me chama querendo te amar/És a dona sozinha do meu coração”.

Me leva

“Tudo nasceu de brincadeira/Nas cordilheiras da ilusão/Veio num vento sem destino/Amor menino fez paixão/Foi me invadindo pouco a pouco/Me deixou louco de prazer/Depois sumiu no mesmo vento/Fiquei aos poucos sem você/Deixou marcado o seu sorriso/Que não me deixa te esquecer/E me tirou do paraíso/Sem um sentido pra viver/Me leva/Oh!, vento me leva pra ela/Me leva/Me faça ficar junto dela/É desse amor que eu preciso/Preciso e não posso esquecer/Eu faço de tudo no mundo pra não te perder.

Menina de Cabelos Longos

“Ei! Ei! Ei! Menina de cabelos longos/Quero te levar pra longe/E no primeiro bonde a gente pode partir/Quem sabe indo pro Recife ou então Sergipe/A gente compra um jipe lá/Ou direto pra Bahia/Que eu tenho uma tia lá/Prá só comer, beber, dormir e não pagar/Pra comer, beber, dormir/Prá comer, beber, dormir/Prá comer, beber, dormir e não pagar/Ei! Ei! Ei! Menina de cabelos longos/Quero te levar pra longe/E no primeiro bonde a gente pode partir/Eu sei que no Nordeste tem cabra da peste/No Norte tem faca de corte e calor/Mas vou levar cheio de bala/Um trezoitão na mala e um ventilador/Ei! Menina/Que vida boa a gente vai levar/Melhor que a vida de rainha e rei/Melhor que tudo que se imaginar”.

Como se vê, a distância de Agepê às questões sociais pulsantes no país era larga. Mas, nem por isso, ele fica ao largo da contribuição à música popular brasileira.

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o concurso nacional Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS. Atualmente é assessor de Imprensa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
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Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Paulo Sergio Francisco on

    Curti o post porse tratar do maiorcantor de sambas na minha opinião. Mas gostaria que fosse refeito a reportagem e substituidas as palavras “ditadura” por GOVERNO MILITAR, nunca tivemos ditadura neste País. Tivemos governo sério e dedicado naquela época. E a musica do AGEPÊ nem de longe teve motivo para citar essa época aurea do nosso País.

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