Nos 70 anos de Israel, polos opostos da democracia corroem a liberdade

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Veladimir Romano*

Tempos de enorme movimento fronteiriço, desconfianças e situações mal resolvidas resultam em descalabro, desentendimento alojando ódios e rancores que pouco ajudam nas soluções de povos carentes. Longe vão os anos quando se pensou ser a Palestina, região que pudesse recolher uma das suas populações que por direito próprio, histórico e humano quando se criou o Estado de Israel, juntando ali judeus transferidos dos mais diversos campos de concentração. Setenta anos depois, a comunidade hebraica vive proeza que poucos acreditavam pelo traumatizante desbaste provocado do “holocausto” nazi.

Que se conheça, nunca foi feito estudo algum sobre quebras psicológicas gerando perseguição violenta na longa caminhada histórica dos povos da região Palestina; porém, menos ainda dos crônicos conflitos gerados dessa psicologia primitiva caso se afunde na ordem pensada em análise de causa, das suas razões absorvidas entre loucura e bom senso, como justifica no seu trabalho minucioso o jornal Financial Times sobre Israel.

Menina palestina vasculha escombros de sua casa bombardeada (Fotos: Reuters e G1)

Junto da Cisjordânia, fica uma das localidades mais culturais e turísticas e que é bem conhecida pelo seu nome: Bethlehem [Belém], onde a população flutua entre os 30 mil e 80 mil habitantes; surpreendente onda humana. Aqui ficou reconhecida a “Carta das Nações Unidas” referindo à Resolução número 393, Decreto V do dia 2 de dezembro de 1950, confirmando programa aprovado da primeira Resolução 194 do Decreto III do dia 11 de dezembro de 1948, igualmente da ONU. Israel e Palestina, assumiam futuro juntos num mesmo território: a conhecida teoria “Dois Estados, Um Território”… depois de sete décadas, nunca funcionou.

Pouco tempo depois, começavam desavenças, confusão permanente, instabilidade e divisionistas marcando locais em disputa até ao presente. Na visita presidencial de Barack Obama em março de 2013, quem descendo a rua Manger, chega na famosa praça Nisan, ali mesmo no centro, soberbo monumento de pedra colocado pelo “Movimento Cívico” em novembro de 2012 com milhares de sapatos representando mortos de vários conflitos; sem mais, foi mandado retirar pelo prefeito Vera Baboun, para colocar pomba da paz junto a oliveira… gesto que virou conflito, controvérsia, multiplicação de crises e transição geopolítica mal gerida.

Não surpreendeu seguidamente inflamadas acusações de movimentos ou partidos como o Hamas [islâmico], ou os perigosos fundamentalistas e paramilitares do Hezbollah [Partido de Deus] ou até dos moderados republicanos do Al Fatah, fundado em 1959 pelo líder Yasser Arafat. Ainda que todos tenham grandes rivalidades, a outra realidade foi Israel durante algum tempo haver vivido situações críticas ao longo de meses recebendo quase centena de foguetes diários disparados pelo Partido de Deus. Anos se passaram, mas significativo continua o desacerto político, social e forte impacto negativo em tudo ao longo das linhas [hipotéticas] separadoras entre Israel e Palestina.

Pacto de sangue contra a paz

Fica surpreendente das particularidades primitivas de múltiplos povos e das diferenças religiosas, étnicas, a partilha territorial; essas particularidades nunca geraram complicações pelo quanto sefardins, asquenazes, semitas, cartagineses, canaítas, árabes, samaritanos, egípcios, migrahims, assírios; povos habitantes dessas regiões, seguindo idênticos caminhos com amplos vestígios vindos ainda das mais antigas populações como cananeus, hebreus, filisteus… todos do século quinze, terem vivido em harmonia secular.

Sempre existiram diferenças entre povos até agora com passagens marcantes deixadas pelos gregos, fenícios, jordanos, até ao pleno dessa ocupação feita pelo Império Romano quando imperador Adriano [135 anos depois de Cristo] estabeleceu no seu mapa que aquela região seria “Filastim”… seja: Palestina ou terra dos “Filistias”. No fundo da questão, apenas critérios entendidos pelo tempo marcado nos acontecimentos históricos mas nem todos apreciados apenas por um ponto de vista único; muitas e diversas são as opiniões, no entanto, sem espaço onde tolerância seja apanágio tomando seu devido lugar.

Outros apontam que no cardápio religioso seguem alusões ao mesmo território, sendo aquelas terras da Judeia e Galileia a principal referência. Lendo apontamentos religiosos ou referência bíblica sobre a “Terra de Israel”, reside aqui uma certeza que hoje, pelo menos os quantos não seguem apontamentos referentes de qualquer “Testamento”, não acreditam que a famosa “Terra Santa”, afinal com tanta santidade pelo caminho, quais as razões que fixaram vertiginosa violência ao longo de gerações depois de 1948? Última data do assentamento dos judeus retirados da dízima provocada pela Segunda Grande Guerra.

Naturalmente que podia ser entendido como “regresso” ao lugar da “terra prometida” algures por qualquer força suprema desconhecida. Mas o mais certo, é ser esta região igualmente terra de judeus tanto quanto de palestinianos. Assunto que neste século anda preocupando suecos estudiosos do fenômeno, transformando a situação em apontamento pedagógico, algo pouco conhecido pelo resto do globo. O estudo de 2010 chama-se: “Inrama Konflikten Mellan Israel och Palestin i Sveriges Historia Skolbok”… procura esclarecer padrões trazidos do instante histórico já longínquo, compreender posicionamentos dos dois povos. Pormenores revelados no estudo sueco do “Enquadramento Histórico do Estudo da Agenda Pedagógica da Suécia Sobre o Conflito Israel-Palestiniano”, esforço derradeiro, manifesta-se acima de tudo redobradas preocupações referentes ao sangrento conflito indo longe demais, vitimando inocentes enquanto provocadores fanáticos reconhecidos como “líderes espirituais” se vão escapando, alimentados por contas bancárias milionárias de milhões, oferecidos pelos donos da geopolítica.

Criança palestina morta após bombardeio de Israel

É pelo quanto se vai descobrindo no jogo dos interesses, alguém vai pagando com a vida pactos secretos perigosos, desgastantes, submergido em muita mentira que permanece no mote diário. Interessa a Israel manter o conflito tanto como as ordens revolucionárias dos movimentos Hamas, Hezbolla, Al Fatha e fornecedores de armamento. Com a guerra, o Estado de Israel perde diariamente de 90 a 100 milhões de dólares e, entre 1994 até 2003, a persistência conflituosa retirou da economia 8.6%, segundo informa a Universidade Dotan Persistz de Telavive. Dez mil pessoas perdem emprego no território israelita e árabes e sofrem  boicote, aumentando pressões sociais na classe-média; um mercado de 50 milhões ao invés dos atuais 8 milhões de consumidores quando a economia da Palestina aumentaria 35% sem restrições e a outra de Israel, quase o dobro.

São números importantes que nos ajudam compreender melhor a loucura do conflito. No lado palestino a população mais jovem de até 5 anos, atinge 25% da população enquanto a restante seguinte entre 19 até 24 anos, é a média do território. Entretanto, o Fórum Econômico Mundial, mobiliza neste ano 45 bilhões de dólares para investimento no West Bank nas áreas de turismo, construção, iluminação urbana, materiais de construção, até informação tecnológica esperando com isso aumento do PIB palestino até 50%; assim desça seguidamente o desemprego crônico, um dos mais elevados do mundo entre 42 até 58%, naturalmente sofrendo as camadas mais jovens. Em Israel idêntico problema atinge 28%, perdendo nos últimos anos mais de 3 bilhões de dólares pelos fracos dividendos do turismo.

Nos últimos quinze anos a Palestina ganhou ajudas num montante de 12 bilhões de dólares; mais 500 milhões por ano da União Europeia e dos EUA, para a educação, saúde, serviço social. Contudo, a maioria desse dinheiro, com mais cinco bilhões oferecidos separadamente pelo Catar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita; apoiando projetos sociais, pouco se sabe do seu paradeiro igualmente perante o desleixo dos seus doadores. Por outro lado, “austeridade”, também é nome em Israel, país liderado pelo partido conservador do Likud, suportando aumentos do seu déficit público anual entre 1.1/2% até 2.7%, perdas respetivas numa média de 2 bilhões anuais. O presente orçamento aprovado de 2018/9, ficou em 116 bilhões de dólares. Entretanto, é na banca israelense onde ficam retidos bilhões em dólares, euros e outras moedas das ofertas ao governo palestiniano.

Analisando mais de perto, descobrimos que continua sendo o “Sionismo” fundado em 1897, pelos antigos visionários estabelecendo a ideia em organização política, que vai valendo. No entanto fica uma pergunta: será que influência religiosa continua fora da imagem sionista? Incitações ao ódio não faltam de ambos lados, matanças, excessos, extremismos e nacionalistas de sobra, é coisa perturbadora em qualquer vontade de acertar paz e prosperidade. Muitas críticas também são feitas ao parlamento israelita, o Knesset, pelo fato de ser fácil para qualquer cidadão de origem árabe adquirir pela constituição a nacionalidade judaica – e isso tem revoltado a extrema-direita e ortodoxos http://www.knesset.gov.il/discription/eng/eng_minoshalo.htm], que critica o próprio governo conservador e direitista Likud do primeiro-ministro Benjamin [Bibi] Netanyahu. Exemplo flagrante está vivendo Israel nas últimas semanas com o pedido de nacionalidade do famoso bilionário russo Roman Abramovich, depois da Inglaterra ter colocado sanções contra a Rússia. Roman Abramovich é proprietário do clube de futebol Chelsea, de Londres.

Outra recente perturbação se juntando a tantos problemas, são as afirmações do ex-chefe da espionagem da organização Mossad [serviço secreto de Israel], acusando esta de valer-se «… de crime organizado legalizado». Retorquindo Benjamin Netanyahu que a mesma é «Uma grande e gloriosa organização». Outro conflito interno servindo para nada, pois todo o mundo sabe hoje o que são serviços secretos, venham donde vierem, estejam onde estejam. O certo porém, com tanta rebaixa, Israel, continua alto nas sondagens norte-americanas onde a população apoia em 54% e 19% para Palestina.

Manifestantes palestinos atiram pedras em soldados israelense

Instabilidade também não assusta empreendimento das empresas como a riquíssima Kiryat Gat, maior investidor estrangeiro em Israel apostando desde finais de 2017, aplicando 6 bilhões numa fábrica de elementos eletrônicos. Israel igualmente no ano passado atualizou exportação dos diamantes em 53%, subindo 11.3% em relação a 2016, diamantes fornecidos pelos grandes tubarões do mercado como a De Beers, Les Leviev ou a Weirs; todas com sedes em Londres, Nova York e Dublin… estão sendo acusadas de financiar crimes na Palestina; pela UNHRC [Amnistia Internacional], organismo das Nações Unidas e Human Rights Watch; denunciando haver fundo financeiro para o exército hebraico, resultante das verbas onde diamantes continuam sendo de sangue… provocando ainda mais sangue. Assim, não tem acordo possível que valha ou racionalização de um conflito multiplicado por muitos inocentes secando no pau da roupa suja.

Degradante, ruim para todo o mundo, subindo a parada instável agora que o Likud conseguiu encontrar parceria nos EUA, convencendo mais cinco nações oportunistas na mudança de suas embaixadas para Jerusalém. Mais errado não podia ser e demonstra a falsidade do regime direitista de “Bibi”, em vez de civilizar, reformar e humanizar; deseja botar lume nas labaredas de um fogo que não se vislumbra seu fim arrasando confiança de ponta final no lado da Palestina.

Setenta anos dividindo um território na responsabilidade de dois povos [não esquecer os judio-palestinenses], três religiões, outros núcleos como beduínos também escorraçados pela ocupação militar hebraica destruindo sem qualquer razão aparente entre janeiro e agosto de 2016, várias vezes o proveito das plantações agrícolas em al-Araquib… tal como nas operações militares em Gaza, servindo para ocupação do West  Bank onde 65 mil palestinenses perderam suas habitações. Desde 2015, Israel ocupou mais 17% do território com 60% do controle militar.

Tanques israelenses destroem casas em Gaza

Temos polos opostos da democracia corroendo liberdades. Voltando atrás até 1978, quando do “Acordo de Camp David”; bom lembrar como Israel recebeu de 3 bilhões de dólares em apoio militar, enquanto a Palestina recebeu apenas 400 milhões. Em 2016, Israel e EUA, assinaram contrato para dez anos valendo novamente em apoio militar 38 bilhões de dólares; podendo Israel inclusive exportar produtos e fabricados sinalizando West Bank como referência industrial/comercial.

Com direita conservadora praticando políticas agressivas e apoio confiado desde o forte aliado dos EUA; Israel já esqueceu quem foi o primeiro país do mundo reconhecendo sua existência, liberdade, democracia e direito territorial: a União Soviética com muita ciência e população russo-judaica valorizando futuros civilizados, equilibrados e seguros ao povo hebraico, mas não para estratégias destrutivas aplicando a mesma dose que alemães nazis fizeram com o passado judeu. Bom seria que o povo de Israel isolasse quantos extremistas e ortodoxos procuram manter conflitos criminosos quando testemunhamos sobre entendimentos?! Terão de ser entre todos os povos da região, tal como aconteceu nos primórdios dos tempos da velha Judeia e Galileia.

*Veladimir Romano é jornalista e escritor luso-caboverdiano, colaborador deste site Vila de Utopia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Sobre o Autor

1 comentário

  1. Mauro Andrade Moura on

    É uma história de mal entendidos nunca resolvida e milenar.
    Infelizmente, ali, na Palestina, não há uma convergência ao bom diálogo e fica este tentar e sustentar desta situação esdrúxula de não se conseguir viver no princípio da fraternidade.

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