No espelho de Péricles

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Por Veladimir Romano

As grandes questões federalistas são parte da discussão humana há mais tempo do que muitos imaginam. Na Grécia antiga, Péricles, fazia tertúlias apenas para se poder criar luz em torno dos desafios que a sociedade colocava. Os conflitos, desassossego, mortes indesejadas do absurdo das guerras, acabavam sempre liquidando os mais desfavorecidos. Demanda de profunda educação moral, ainda numa filosofia como ponta de lança dos temas apaixonantes embriagando quantos apreciam encontrar soluções mais inteligentes aos conflitos humanos; entrou-se pelas ideias duma sociedade republicana, mas federada.

Péricles, pensador grego (Imagens: Google)

Temos em Péricles um dos maiores cérebros do seu tempo [século V antes de Cristo], deixando obras esclarecidas, infelizmente nenhuma de incentivo federalista quando certamente o poderia ter feito tão somente pelo grande pensador, estadista e bom estrategista que foi. Certamente argumento e matéria não terá faltado; assim sendo, fiquemos pelo imaginário de um espelho histórico enriquecido até ao presente trazendo mensagens das épocas distantes quando humanos ao discutirem seus problemas num contencioso em busca de soluções civilizadas, pela visão do presente, problemas contemporâneos ainda por resolver.

Outros séculos muitos anos depois, mais personagens se juntam na longa história pensadora dedicada em analisar como se concebe evolução humana e melhoria social sem que seres humanos se envolvam em lutas sangrentas e odiosas. Blaise Pascal, matemático do século XVII, até John Keynes, economista inglês nascido no século XIX, pai da macroeconomia no século XX; no entanto não esquecendo Tomás de Aquino, Dante, Hobbes, Toqueville, ou mesmo Lenine e Heidegger; em épocas diferentes concordam com teorias de origem federalista, tanto quanto sejam teorias democráticas: contudo, é matéria rara onde Capitalismo e Socialismo concordam.

Repartir poder, foi proposta da primeira reunião realizada em 1947, na Suíça, pelo Congresso da União Europeia dos Federalistas, fazendo agora setenta anos dessa fusão idealista dos partidários iniciais em torno da ideia. Entretanto, ninguém sabe explicar porque nunca essa vontade abriu caminho e se concretizou quanto estranho mistério.

Podemos especular desse porquê. No ano de 1997, nos cinquenta anos da famosa reunião, em Amesterdão, na cúpula dos ministros europeus, quatro amigos holandeses estudando pormenores informativos de um dossier, descobriram certas inconveniências. Logo os amigos trataram na hora criar associação de ação civil: a CEO [Observatório Europeu para a Cooperação]. Eles haviam descoberto da enorme promiscuidade documentada entre governantes, o poder e a influência dos lobistas.

A mórbida influência dos industriais sendo privilegiada nos contratos, foi denunciada pelo comissário europeu Michel Barnier [republicano], exigente, otimista e experiente político de origem francesa, que jamais apoiou processos de austeridade contra outros países membros da união, especialmente contra Grécia e Portugal. Corajosamente tem denunciado oportunismos dos jogos tramados nos bastidores parlamentares prejudicando projetos financiados pela economia europeia. Verbas gigantescas caindo em bolsos furados de alguns empresários, industriais e políticos negociando fina corrupção.

Poucos são e ou estarão preparados em denunciar documentação lobista, desregulamentação econômica como a sucedida ainda no ano de 1980, anunciando num avanço de 28 anos o evento catastrófico de 2008, como aconteceu iludindo o mundo. Assim fez Michel Barnier, denunciando em 2010 sobre a forte influência dos banqueiros lobistas dominando parlamentares-legisladores em Bruxelas como em Estrasburgo.

Movimentos separatistas: como fica a divisão do poder federativo diante da globalização?

Presumidamente, o pensamento feito certeza de que uma sociedade federada terá melhor gente trabalhando, é engano declarado, corrupção e outras formas descontroladas de inquinar estratégias, estão em todo o lado; cabe realmente ao bom senso respeitar a ideologia onde métodos disciplinares sejam orientação aceite pelo caráter responsável de cada membro. Porém, federalizar nações como a Espanha amarrada no conceito político onde a democracia convive com uma cabeça monárquica na frente do Estado, vem complicar toda uma legítima vontade, seja aquela colocada em jogo pelos Catalães e a Catalunha.

Uma curiosidade fica porém pendurada no espelho se por acaso Péricles estivesse por aí, como ele iria achar toda esta tremenda bagunça na qual os velhos castelhanos, teimosos e senhoriais do seu quadrante geográfico, manifestam hábitos imperialistas em pleno século XXI, quando já amantes do cosmos estão desejando levar gente da Terra para Marte. Como ficará o assunto, poucos sabem, mas que o futuro será amargo, vai ser pela certa porque de teimosias amargas está o planeta cheio.

* Veladimir Romano é jornalista e escritor luso-caboverdiano, colaborador deste site Vila de Utopia

  

 

 

 

 

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