Não foi só a alma que Itabira vendeu para a Vale, mas também o calçamento de hematita do centro histórico

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Carlos Cruz

“Penso às vezes, cruamente, que Itabira vendeu a sua alma à Companhia Vale do Rio Doce”, escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade, ao lamentar a passividade de seus conterrâneos diante do poder onipresente da então estatal, fundada em 1942 para explorar em larga escala o minério de ferro de Itabira do Mato Dentro.

Agora, a partir de um achado do advogado Gilberto Fontes, nos escaninhos da Câmara Municipal, descobre-se que Itabira vendeu também à Vale o minério de ferro (hematita) que calçava as ruas do centro histórico itabirano. Com a venda, a Prefeitura saldou dívida que o município tinha com a então estatal.

Lei municipal que autorizou a venda das calçadas de minério para a Vale

A autorização legislativa para a venda ocorreu com a aprovação da lei nº 284, sancionada pelo então prefeito Daniel Jardim de Grisolia, em 10 de junho de 1959, em seu primeiro mandato à frente desta urbe (1959-62).

Pelo artigo primeiro dessa lei, o executivo municipal foi autorizado vender para a “Companhia Vale do Rio Doce o minério de ferro existente nas ruas Água Santa, Guarda Mor Custódio, Tiradentes, praça Benedito Valadares até a Prefeitura”.

E no artigo 2º fica-se sabendo um dos motivos para que a negociação acontecesse. “O resultado da presente venda será para o pagamento das dívidas desta Prefeitura àquela Cia.” Mas havia também um “clamor popular” para que as pedras fossem retiradas das calçadas.

Chão preto

Em substituição às genuínas calçadas de minério, talvez únicas no mundo, as ruas receberam o recapeamento asfáltico. “Assim que foi asfaltada a rodovia que liga Itabira à BR, a cidade também passou a contar com a modernidade do asfalto”, relembra o engenheiro de minas Rubens Alvarenga, 70 anos, que na época era menino recém-chegado à Itabira.

Rubens Alvarenga lembra dos caminhões levando as pedras das calçadas de Itabira para a Vale (Fotos: Miguel Bréscia, Carlos Cruz e Reprodução/Fotos Antigas de Itabira)

“Lembro-me dos caminhõezinhos da Vale sendo carregados com as pedras de hematita. As pessoas apoiavam, achavam que a cidade estava se modernizando”, conta.

Segundo ele, as pedras eram hematitas com mais de 70% de ferro, com tamanho variando entre três a sete polegadas. “Foram parar nos Estados Unidos e na Europa, que naquela época ainda eram os principais mercados para o minério de Itabira.”

Rubens Alvarenga revela que era comum a empresa comprar minérios de pequenos mineradores. “Do (hospital) Nossa Senhora das Dores até o campo do Valério havia muito minério, que a Vale comprava.”

Seixos rolados

O engenheiro de minas aposentado acredita que as hematitas das calçadas podem ter saído da encosta próxima da atual avenida João Soares da Silva, que liga o centro ao bairro Campestre. E, também, da encosta do então lendário pico do Cauê.

Rua Tiradentes perdeu parte de seu glamour sem as calçadas de minério

Ele lamenta que tenha ocorrido essa perda, não só pelo valor histórico e paisagístico, mas também por não aprovar o advento do asfalto. “A manutenção (de ruas asfaltadas) é mais cara e a água da chuva não infiltra no solo.”

Quanto à permuta com a Vale, o engenheiro acredita que tenha ocorrido após a decisão da Prefeitura de substituir as pedras pelo asfalto.

“Era a modernidade que chegava”, diz ele, que vê, historicamente e não nesse caso específico, muito amadorismo nas negociações da Prefeitura com a Vale.

Asfalto chegou a Itabira após a pavimentação da rodovia que liga a BR à cidade. Rodovia MG-3 foi inaugurada em dezembro de 1960

“Os dirigentes municipais procuram a empresa sem saber o que a cidade tem direito e o que devem negociar”, critica.

“Acreditam (os governantes) em tudo que falam os dirigentes da Vale”, constata, citando a declaração do ex-diretor José Francisco Viveiros, que, em 2003, disse que Itabira teria minério para mais de 60 anos (leia aqui).

“Todo mundo acreditou. Isso só seria possível se a mineração voltasse a ocorrer no muque e com o minério transportado em carroças.”

Ele lamenta que Itabira não tenha se preparado para negociar com a Vale as alternativas para o fim de suas reservas minerais. “A Prefeitura sequer tem um setor especializado para acompanhar tecnicamente a mineração”, lamenta. “Cheguei a sugerir que tivesse, mas disseram que eu estava querendo emprego”, sorri.

Minério de ferro historicamente sempre teve isenção de impostos ou de royalties

Se a venda do minério das calçadas serviu para pagar dívida da Prefeitura com a Vale, o médico Colombo Portocarrero de Alvarenga, 97 anos, acha estranho que isso tenha ocorrido, embora tenha votado, como vereador, favorável ao projeto de lei que autorizou o prefeito a fazer a transação. Colombo foi vereador por um mandato (1958/62).

Rua dos Operários também perdeu as calçadas de minério

“Não era a Vale que deveria pagar Itabira pelo minério que extraia?”, perguntou o ex-vereador, mesmo sabendo que naquela época a mineradora era isenta de pagar tributos.

Isso por força do decreto de Getúlio Vargas, que a criou, em 1942. Hoje ainda é assim, em decorrência da Lei Kandir, que isenta as exportações brasileiras de pagamento de ICMS.

“Não me lembro dessa venda das calçadas”, disse doutor Colombo à reportagem deste site. Mas ele recorda que a companhia mandava muito em Itabira. E não pagava impostos, por isso continuou sendo uma cidade pobre por muitos anos. E ainda é, principalmente pela má distribuição de renda.

Foi só a partir de 1966 que a Vale passou a pagar o Imposto Único sobre Minerais (IUM), pelo qual o poeta tanto “brigou”, como depois criticou pelo rateio que fora aprovado.

Na crônica Só isso?, publicada no Jornal do Brasil, em 3 de outubro de 1964, Drummond lembra que, para o município, minério “é riqueza que não se recompõe, e com a exploração intensiva se esgota para sempre”.

Doutor Colombo e Eny: “dinheiro de Itabira era pouco, deve ter sido por isso que Daniel vendeu as pedras.”

Foi assim que o vate itabirano considerou que “os 20% destinados aos municípios – só isso? – em contraste com os 70% atribuídos aos Estados, têm algo de mesquinhamente ridículo, que não pode passar despercebido à sensibilidade municipal de nossos legisladores, na maioria procedentes de pequenos núcleos habitacionais, onde a miséria coletiva definha sob a miséria dos orçamentos”, registrou em sua coluna semanal publicada no vetusto JB.

“O dinheiro era pouco. A Vale repassava recursos como favor. Ele (Daniel Grisolia) deve ter vendido as pedras de minério por faltar dinheiro no caixa da Prefeitura”, testemunha doutor Colombo, lembrando de uma época em que a Prefeitura vivia com o pires na mão mendigando migalhas da mineradora.

Nos tempos das calçadas de minério e do footing no centro histórico

Mas se doutor Colombo não se lembra de ter votado a lei da venda das caçadas, ele mantém viva na memória a imagem de como era o calçamento com pedras de minério. “Já perdi muitas unhas dos dedos dos pés jogando futebol com bola de meia na calçada em frente à nossa casa, onde hoje é o Banco do Brasil”, revela, ajudando a desvendar o porquê de o futebol de rua ter ficado conhecido como “arranca-unha”.

Rua Princesa Isabel ainda conserva a quase totalidade da calçada em minério

A sua mulher, Eny Alvarenga, recorda do footing que ocorria nos fins de semana, entre o paredão da rua Tiradentes até a loja dos Rosa, no Largo do Batistinha.

“As moças reclamavam muito por ter que andar sobre as pedras de minério. Elas acabavam com os saltos dos sapatos. Os passeios públicos eram irregulares e a gente tinha de caminhar na calçada.”

Eny recorda de um prefeito – não se lembra do nome, mas devia ser um interventor que por aqui chegou nomeado pelo Estado Novo (1927-46), na ditadura de Vargas – que teve a tresloucada ideia de cobrir as calçadas com areia branca, como se isso fosse solução, ao invés de nivelar os passeios. “Provocou muita poeira e deu muito trabalho para retirar.”

Perda incomparável

A professora aposentada Celina de Figueiredo, 89 anos, também tem boas recordações daquela época. “Doutor Pedro Guerra (um dos fiadores da Vale, no seu início em Itabira) foi o único vereador que votou contra a venda das calçadas. Foi chamado de retrógrado, quando na verdade ele tinha uma visão à frente de seu tempo.”

Celina de Figueiredo com familiares: saudade de uma Itabira romântica (Foto: álbum de família)

Celina já morava em Belo Horizonte nessa ocasião, mas lamentou o fim das históricas calçadas. “Quando chovia e o sol refletia nas calçadas, as pedras de minério brilhavam. Era uma cena muito bonita”, recorda, ainda nostálgica.

Mas ela não culpa Daniel de Grisolia pelo fim das calçadas de hematita. “Era a força da modernidade chegando a Itabira”, contextualiza. “Naquele tempo não havia preocupação com a preservação do patrimônio histórico.”

Celina conta que a fama das calçadas de ferro atravessou o oceano e foi parar na cidade de Lion, na França. “A madre Maria de Jesus (fundadora do Colégio Nossa Senhora das Dores) nos contava que, quando tinha 5 anos, resolveu fugir de casa. Quando perguntavam para aonde ela ia, respondia que era para Itabiraá (carrega no sotaque francês), atraída pelas calçadas de ferro que o seu pai contava existir numa cidade brasileira. As ruas de Itabira calçadas com minério eram as únicas no mundo.”

 

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